A falha do Ciborro

O sismo de magnitude 4,9 na escala de Richter ocorrido segunda-feira dia quinze de janeiro de dois mil e dezoito foi sentido em Évora, Portalegre, Lisboa e distrito de Coimbra, mas sem causar vítimas ou danos materiais, segundo a Proteção Civil – Figura 1. 

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Figura 1 – Epicentro do sismo de 15/1/2018

Fernando Carrilho, geofísico do Instituto Português do Mar e da Atmosfera (IPMA) confirmou ao JN, que entre as 11.50, momento da ocorrência inicial, e as 14 horas foram registadas quatro réplicas de baixa intensidade (a maior atingiu 2,5), apenas detetáveis por instrumentos e não sentidas pelas pessoas.

Fonte: https://www.jn.pt/nacional/interior/sismo-sentido-entre-evora-e-coimbra-mas-sem-danos-pessoais-ou-materiais-9049220.html

Geologia 

A região Ciborro-Arraiolos  (distrito de Évora) apresenta uma atividade sísmica anómala, no contexto regional, caracterizada por sismos superficiais e de reduzida magnitude (M<4) e alguns registos de magnitude superior (M > 4): eventos isolados; ou um sismo principal seguido por réplicas; ou ainda agrupados temporal e espacialmente em enxames denominados swarms. Esta sismicidade destaca-se do padrão típico intraplaca.

Numa análise mais detalhada dos dados recentes da sismicidade, publicados pelo Instituto de Meteorologia, esta actividade concentra-se preferencialmente na região a norte de Évora, abrangendo as povoações de Azaruja, Arraiolos, Mora e Ciborro. Esta região apresenta alguns lineamentos observados em imagem de satélite que podem, em parte, corresponder a falhas activas – Figura 2.

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Figura 2 – Principais lineamentos da região observáveis em imagem de satélite (Google Earth). A sismicidade desta região ocorre no interior do Maciço de Évora.

Parte dos lineamentos marcados na figura 2 correspondem a alinhamentos de cursos de água e podem corresponder a vales de fractura mas alguns correspondem claramente a escarpas que separam compartimentos desnivelados da superfície fundamental da Meseta Sul, como é o caso da escarpa de S. Gregório (virada a norte), da escarpa de Aldeia da Serra (virada a oeste) ou a do Ciborro.

A designada falha de Ciborro, correspondente a um acidente geomorfológico que faz localmente o limite da bacia do Tejo com o soco paleozóico e que se traduz por uma escarpa de direcção NW-SE, virada a NE.  Esta estrutura tem expressão geomorfológica ao longo de cerca de 20 km.

Os trabalhos de geologia de campo não têm fornecido evidências claras de actividade neotectónica ao longo da Falha de Ciborro. Junto ao Monte Godeal, no talude de um caminho, observam-se as litologias designadas  por granitos porfiróides de grão médio a grosseiro, a cavalgarem sedimentos do Complexo Argilo-Gresoso de Coruche, considerados de idade mio-pliocénica.

A falha que separa estas duas unidades geológicas em afloramento tem atitude N80ºW; 80S e mostra evidências cinemáticas de ter componente de cavalgamento, colocando os granitos paleozóicos sobre os sedimentos terciários. Os estudos geológicos realizados permitiram  admitir movimentos com ruptura superficial muito recentes, dentro do período neotectónico.

Os lineamentos marcados na figura 2, eventualmente correspondentes a falhas activas, têm fraca expressão geomorfológica o que pode resultar de uma actividade neotectónica moderada a fraca ou de uma movimentação recente preferencialmente do tipo desligamento.

De acordo com a interpretação dos geólogos que estudaram esta região a norte de Évora os movimentos tectónicos actuais, maioritariamente do tipo desligamento ao longo das falhas de Ciborro e de S. Gregório, encontram-se parcialmente bloqueados na região de Aldeia da Serra, devido a uma inflexão local na geometria das falhas como se ilustra na figura 3. O relevo de Aldeia da Serra será assim um provável “push up” associado a uma estrutura activa maior, do tipo desligamento direito.

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Figura 3 – Esquema proposto para a actividade tectónica actual, responsável pela génese do relevo da Aldeia da Serra.

Os geólogo António Araújo e António Martins da Universidade de Évora colocaram a hipótese destas estruturas serem um testemunho local de uma estrutura maior com expressão regional, eventualmente responsável pelo sismo de Benavente de 1909.

Fontes do texto e das imagens utilizadas:

https://oatd.org/oatd/record?record=oai%5C%3Adspace.uevora.pt%5C%3A10174%5C%2F16401

https://dspace.uevora.pt/rdpc/handle/10174/4233

[PDF]e-Terra A elevação de Aldeia da Serra (Arraiolos): um “push up” activo …

https://www.rcaap.pt/detail.jsp?id=oai:dspace.uevora.pt:10174/16401

 

2 thoughts on “A falha do Ciborro

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  1. Muito bem, pelo menos na minha geologia de Portugal que ainda ando a ler não me lembro destas nomenclaturas de falhas, mas a verdade é que a cinemática e direções são compatíveis e compreensíveis pelo já li, mas ainda falta um bocado nesta zona de Ossa Morena/ZCI/Sul Portuguesa.

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