Braga – Cidades de informação geológica

Uma viagem ao Magmatismo e ao  Barroco de Braga. Entre os recursos geológicos e o património cultural.

O concelho de Braga localiza-se em pleno Minho, no noroeste de Portugal.

As rochas estiveram desde sempre ligadas ao património cultural, como blocos de alvenaria ou elementos decorativos diversos, integrados em edificações ou isolados. Neste post alguns dos aspetos da relação entre os estudos geológicos e o património cultural estão ilustrados.

As rochas utilizadas no património traduzem relações entre esses recursos geológicos e tendências culturais, acompanhando evoluções históricas. Nas obras mais antigas dominam os recursos locais, dada a grande importância dos processos de transporte. Consequentemente, certos objetos podem representar situações de elevado interesse histórico pelo contraste geológico com o enquadramento local, funcionando, tal como as moedas e as cerâmicas, como indicadores de movimentos de importação. Existe uma pasta que pode ser consultada para estes recursos geológicos globais (pode ser consultada a pasta geral aqui). Procuro aqui apenas dar relevo ao chamado “granito de Braga”, apesar de não serem todos os monumentos construidos com o granito escuro de Braga. Aliás na cidade de Braga é possível reconhecer a presença de outros granitos (diferentes do chamado “granito de Braga”), merecendo destaque a presença de certos granitos muito claros, Foto 1, (contrastando com o tal granito de Braga, mais escuro, acinzentado ou amarelado.

Igreja do Carmo Granito (Braga)

Foto 1 – Visão geral da fachada principal da Igreja do Carmo construída com um material granítico muito claro. Estes granitos mais claros são semelhantes a rochas que ocorrem fora da zona da cidade de Braga.

Contexto Geológico

As rochas granitóides são as que têm maior representação no concelho de Braga e estão associadas à orogenia varisca, nomeadamente a uma das últimas fases de deformação dúctil-3 (D3) distribuindo-se em faixas grosseiramente paralelas à zona de cisalhamento Vigo-Régua.

Apresentam fácies variadas,  Figura 1,  e associam-se, por vezes, a rochas de composição intermédia a básica. Podemos, então, distinguir granitos de duas micas, leucogranitos, granitos biotíticos e granodioritos, sendo dominantes os granitos essencialmente biotíticos porfiróides. Viajar no Barroco de Braga é uma viagem ao magmatismo da Orogenia Varisca nas últimas fases do chamado Ciclo de Wilson.

Granito de Braga

Figura 1 – Carta geológica simplificada de Braga. Os granitóides variscos na Zona Centro Ibérica podem ser classificados em dois grandes grupos: granitóides sin-tectónicos e granitóides tardi-pós-tectónicos. Na zona de Braga os granitos tardi-pós-tectónicos estão representados por tardi (Complexo Granítico de Celeirós – que engloba os Granitos de Celeirós e Vieira do Minho e os Granodioritos de Figueiredo; Complexo Granítico da Póvoa de Lanhoso – constituído pelos Granitos de Agrela e de Pousadela; o Complexo Granítico de Braga – de que fazem parte o Granito de Gonça, o Granito de Braga e rochas de composição gabro-grano-diorítica, considerando-se de 310-305 Ma a idade da sua instalação) e pós-tectónicos com aproximadamente 300 Ma (Granito de Briteiros).

Os granitos tardi-pós-tectónicos (Granito de Braga) são caracterizados por intrusões de dimensões batolíticas de granito porfiróide de grão médio a grosseiro biotítico ou por pequenos corpos básicos e intermédios. Ocorrem encraves microgranulares máficos, Foto1, com zonas de mistura de magmas. Ausência de deformação e foliação de fluxo magmático concordante com contactos são outra das características destes granitóides.

Granito (Braga)-34

Foto 1 – Granito biotítico, com rara moscovite, porfiróide ou de tendência porfiróide e de grão médio a fino. Os minerais essenciais são o quartzo, a biotite e o feldspato, apresentando-se este último sob a forma de megacristais. A cor cinzenta azulada é devida ao elevado teor em biotite, que se estima visualmente entre 15 e 20 %. Para além de quartzo, feldspato e biotite podem ser encontrados outros minerais, como zircão, ilmenite, moscovite, epídoto, torite e uraninite. O granito de Braga apresenta encraves microgranulares máficos, com dimensão variável entre 2 a 30 cm e forma circular, elíptica ou ovalada.

Os encraves microgranulares máficos, Foto 1,  revelam composição minerológica diferente da dos granitos hospedeiros, mas em que a biotite é o único máfico presente. Estes dados apoiam a hipótese de que os encraves resultaram de um magma com composição distinta (mais máfica) do magma que originou os granitos hospedeiros. Assim, a hipótese mais provável é a de que os granitos de Braga terão uma origem ígnea que resultou da cristalização de dois magmas associados, o magma granítico e outro máfico, Figura 2. Os encraves microgranulares representarão “gotas” de magma máfico transportadas pelos líquidos graníticos aquando da sua ascenção para níveis superiores da crosta.

Granito (Braga)-32

Sem Título-4

Foto 2 e Figura 2 – Presença de xenólitos migmatíticos e possível interpretação do processo de hibridização de magmas.  A migmatização dos níveis crustais profundos terá ocorrido durante o adelgaçamento crustal durante a Fase extencional D2 (335Ma). A ascensão dos granitóides (granito de Braga) terá ocorrido durante o estádio final do regie transcorrente atingindo o seu nível de instalação após D3.

 

Um passeio pelos monumentos da cidade de Braga permitem através da observação do património compreender  as relações entre os recursos geológicos e tendências culturais, acompanhando evoluções históricas.

Para consultar o álbum clique aqui.

Fontes consultadas:

https://www.researchgate.net/publication/284760616_Origem_e_instalacao_de_granitoides_variscos_na_Zona_Centro-Iberica

https://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S1342937X05707334

https://www.sciencedirect.com/science/article/pii/002449379490040X

https://www.researchgate.net/publication/229305184_U-Pb_zircon_and_monazite_geochronology_of_post-collisional_Hercynian_granitoids_from_the_Central_Iberian_Zone_Northern_Portugal

https://www.researchgate.net/publication/234447957_Variscan_calc-alkaline_plutonism_in_Iberia_Northern_Portugal_petrogenesis_and_distribution_in_space_and_time

 

 

 

Pterossauros semelhantes a pterodáctilos

Os Pterossauros foram das criaturas mais estranhas do nosso planeta ao longo de 162 milhões de anos, Foto 1.

Rhamphorhynchus muensteri (esquema)

Foto 1 – Rhamphorhynchus muensteri era um pterossauro caracerístico do final do Jurássico. Este fóssil aparece no registo geológico de calcários mesozóicos germânicos.

Estes colossos alados ainda são um mistério para a comunidade científica, mas as últimas descobertas revelaram mais dados sobre a sua morfologia, dieta e comportamento.

Pterossauros

Foi este nome comum dado ao primeiro fóssil descoberto no século XVIII na Baviera pelo naturalista Cosimo Collini que o interpretou como sendo um animal aquático.

George Cuvier faria anos mais tarde a correção ao trabalho de Collini, afirmando tratar-se de um réptil voador e não um animal aquático como tinha sido classificado. Cuvier além de ter feito a correção da classificação deste fóssil deu início também ao estudo deste grupo de répteis voadores, que ele designou de Pterodáctilos (do grego “ptero”, asas e “dáctilo”, dedos).

Cuvier e os seus discípulos estudaram os  fósseis dos calcários mesozóicos da Baviera (Alemanha) mas também obtiveram mais dados a partir  de outras jazidas de fósseis no território francês e sobretudo das jazidas existentes no Reino Unido.

Uma nova vaga de descobertas teve lugar nas últimas décadas do século XX e início do século atual a partir de estudos paleontológicos realizados nas jazidas de Pterossauros no continente asiático.  Os fósseis descobertos na China no Brasil revelaram novas e surpreendentes formas, tamanhos e características fisiológicas. Alguns paleontólogos suspeitam que centenas de espécies de pterossauros poderão ter vivido em simultâneo, dividindo entre si os habitats, à semelhança das aves atuais.

As conceções científicas sobre os pterossauros têm sido muito diversificadas. Por exemplo, o formato do bico dos pterossauros poderá ter variado em função das alterações alimentares.

Os primeiros pterossauros terão surgido há aproximadamente 230 milhões de anos, durante o Triásico (Era Mesozoica), descendendo de répteis terrestres, fortes e leves, imagem 1. Adaptados a correr e a saltar para caçarem as suas presas num ambiente em mudança, as mutações, recombinação genética e lenta alteração do fundo genético das populações em cada um dos ecossistemas da Pangea permitiu o aparecimento de novas espécies.

árvore

Imagem 1 – Possível linha evolutiva dos Pterossauros. São um grupo de répteis voadores mas não são Dinossáurios. Também não apresentavam penas.

Os pterossauros devem ter começado por planar e, depois por lenta evolução, dezenas de milhões antes das aves e morcegos, tornaram-se os primeiros a praticar o voo sustentado.

Nesta lenta evolução, muitas espécies parecem ter evoluído para voar e dominar o meio aéreo do Mesozoico. Mas, ao longo do Mesozoico algo acabou por tornar os pterossauros vulneráveis. Talvez a fonte de alimento de que dependiam tenha desaparecido na extinção do final do Cretácico, há 66 Ma. Ou talvez a sua evolução para tamanhos tão gigantescos tenha tornado este grupo de répteis vulnerável, enquanto as aves mais pequenas tivessem vantagens adaptativas e conseguido sobreviver e evoluir durante a catástrofe do final do Mesozoico.

Independentemente das causas, os pterossauros desapareceram.

Link para um álbum de fotos de Pterosauros.

Fontes consultadas:

https://en.wikipedia.org/wiki/Pterosaur

https://pterosaur.net/origins.php

National Geographic – Novembro de 2017 “Gigantes dos Céus”.

 

 

Terreno – pequenos restos de litosfera

Os modelos do  ciclo  de Wilson,  utilizados  nos  primórdios  da  Tectónica de Placas  continham um modelo de movimento com vetores ortogonais. Os vetores caracterizam-se por uma direção, um sentido e um comprimento. Durante muitas décadas o movimento das placas foi considerado ortogonal, “orthos” do grego significa reto (90) e “gonia” que significa ângulo.

Hoje sabemos que a geometria dos movimentos de placas com  colisões  ortogonais  e  de  extensões  simétricas,  entre  a América  e  a  África  e  a  Europa,  tal como é representada nos manuais escolares, figura 1, é bastante simplista.

earth_plates_lg

Figura 1 – Representação dos movimentos das placas com os respetivos vetores (representados a vermelho), ortogonais relativamente à direção geral dos limites divergentes.

Com  efeito,  as  modernas  reconstruções  paleogeográficas  revelam  importantes  complexidades, tais  como o movimento rotacional  das  placas  associado a  diversos  tipos  de  limites,  em  que se destacam  os transformantes,  obrigatórios  num  globo  tridimensional.  Também  as  alterações  que  as  placas  litosféricas sofrem  vão  variando  ao  longo  do  tempo,  como  a  velocidade  do  seu crescimento,  surgindo  novas  fronteiras ao longo do tempo geológico, como  as  dorsais  oceânicas  e  as  zonas  de  subducção.

O que é um “terreno”?

A evidência  de  que  a  movimentação  das  placas  e,  por  conseguinte,  dos  continentes,  se  faz  de  modo essencialmente oblíquo,  veio  alicerçar  o  conceito  de  terreno.  O  termo  terreno  é,  em  geral, aplicado  a  uma  área  que  possui  geologia  distinta,  apresentando  formações  estratigráficas,  rochas  intrusivas, depósitos  minerais  e  história  tectónica  que lhe confere características  especiais  e diferentes  das  dos terrenos  adjacentes.

Evidências  de  terrenos,  com  características  diferentes, nomeadamente  paleoclimáticas  e  limitados  por  falhas,  suportaram  a  ideia  de  que  os mesmos terão  derivado a partir  de  outras  latitudes  ou de  locais  mais  próximos,  onde  registaram  dados  de  uma  diferente  história geológica.

Três  etapas  podem  ser  descritas na  história  de  um  terreno:  amálgama,  acreção  e  dispersão.

  1. a amálgama  tectónica  resulta  geralmente,  da  aproximação  de  um  continente  a  outro  através  de  uma  zona  de falha,  usualmente  com  movimentação  oblíqua;
  2. a  acreção  acontece  quando  um  terreno  adere  à  margem  de um  continente.
  3. a  dispersão  dá-se normalmente,  também  por  movimentação  oblíqua,  através  da qual,  os terrenos  acrecionados  sofrem  fracturação  predominantemente  por  desligamentos.

O exemplo  mais  próximo  de uma  amálgama  de diferentes  terrenos  é o  Maciço  Ibérico,  que terá  resultado  de diversas  acreções  durante  as  orogenias  cadomiana e  varisca, figura 2.

Terreno

Figura 2 – Unidades estruturais de 1ª ordem (terrenos) e de 2ª ordem (zonas) nos Variscidas Ibéricos.

Esta componente  oblíqua  é importante  para  se  perceber  que  os  continentes  são  amálgamas  de  continentes  mais  pequenos e restos  de  crosta  oceânica,  provenientes  de  outras  latitudes, Figura 3.

Finisterra

Figura 3 – Reconstituição paleogeográfica (300 Ma) dos terrenos afectados pela orogenia Varisca. A componente  oblíqua  é importante  para  se  perceber  que  os  continentes  são  amálgamas  de  continentes  mais  pequenos e restos  de  crosta  oceânica,  provenientes  de  outras  latitudes. Na Península Ibérica, a orogénese varisca teve início no Devónico médio e prolonga-se até ao Carbónico superior – Pérmico. Apresenta um carácter polifásico, mas o essencial da estrutura resulta de três episódios de deformação que puderam ser datados, quer pela presença de discordâncias nas zonas externas ou superficiais, seja pelas datações radiométricas de certos granitos em que se conhece bem as relações geométricas com as estruturas.

Tal como os seres vivos as placas litosféricas passam  por  um  conjunto  de  processos  que  os  vão  modificando  ao  longo  do  tempo,  que  neste  caso  abrange muitos  milhões  anos.

Para o Terreno Finisterra  que incluiu rochas metamórficas do Paleozóico inferior e/ou Precâmbrico foram definidas  seis unidades tectonoestratigráficas: a Unidade de Lourosa, a Unidade de Pindelo, a Unidade de Espinho, a Unidade Arada, a Unidade de Albergaria-a-Velha/de Sernada do Vouga e a Unidade de São João-de-Ver, Foto 1.

Pode ser consultado o álbum das unidades tectonoestratigráficas neste link.

Migmatitos (Terreno Finisterra - Lavadores/Portugal)

Foto 1 –  Unidade de Lourosa – As rochas metamórficas que a constituem são granitos gnaissificados, migmatitos, micaxistos por vezes granatíferos e anfibolitos. Dada a diferenciação estrutural e litológica patente pelas rochas desta unidade, diferenciou a
em duas subunidades, separadas, grosso modo, por um antiforma, de direcção geral NW-SE, marcado pelo afloramento de rochas graníticas em Santa Maria da Feira.

Fontes consultadas e origem das imagens: 

Silva, J. B. (1989). Estrutura de uma Geotransversal da Faixa Piritosa: zona do Vale do Guadiana. Estudo da Tectónica pelicular em regime de deformação não coaxial. Tese de doutoramento. Universidade de Lisboa.

Silva, J.; Pereira, M. & Chichorro, M. (2013). Estrutura das áreas internas da Zona Sul Portuguesa, no contexto do Orógeno Varisco. In R. Dias, A. Araújo, P. Terrinha e J. Kullberg (Eds.) Geologia de Portugal. Lisboa: Livraria Escolar Editora.

Earth Structure and Plate Tectonic

http://onlinelibrary.wiley.com/doi/10.1029/2006TC002058/pdf

 

 

 

 

Cratões – “caixas negras” do planeta Terra

Cratões: Partes relativamente estáveis da litosfera continental e que não foram envolvidas nas orogenias do Fanerozoico (Paleozoico, Mesozoico e Cenozoico).

À luz do conhecimento atual, os cratões são entendidos como partes diferenciadas da litosfera continental, caracterizadas por possuírem espessas e antigas raízes mantélicas, Figura 1.

qqwesdf

Figura 1 – Principais afloramentos da crosta continental de idade Arcaica (2500 – 4000 Ma). Os minerais mais antigos que se conhecem na Terra são zircões detríticos com idades de 4300-4400 Ma. Ocorrem em rochas com “apenas” 4400 Ma, em Jack Hills, na Austrália ocidental. O zircão é um mineral que se forma tipicamente em rochas ácidas (graníticas), portanto já evoluídas. Por outro lado, as proporções dos isótopos de oxigénio que existem nestes cristais sugerem que eles se tenham com intervenção de água líquida, o que por sua vez levanta a possibilidade de existência de oceanos.

O desenvolvimento do conceito de “cratão” constitui uma das mais interessantes páginas da aventura da Terra. São as mensagens mais antigas registadas em rochas terrestres.

A constatação de que nos continentes existiam regiões caracterizadas por longa estabilidade tectónica partiu de simples observações de campo e ao longo de décadas de estudo são hoje interpretadas  com um sólido suporte de dados provenientes de vários ramos das geociências, Figura 2.

img18275

Figura 2 – Localização das rochas de idade Precâmbrica. As rochas mais antigas são os gnaisses de Acasta (Norte do Canadá) com 3960 Ma, cuja composição granítica e tonalítica evidencia já derivação a partir de materiais marcadamente evoluídos, possivelente de uma crosta primitiva de composição basáltica. Estas relíquias de litosfera continental não afectada por orogenias Fanerozoicas formaram-se no Eon Arcaico. O período de tempo anterior ao início do Arcaico, chama-se Hadeano, do nome do deus grego dos infernos, Hades. Este nome resulta da grande instabilidade e catastrofismo que deverá ter dominado esta fase incipiente da vida do planeta e que provavelmente continou durante o Arcaico e talves o Proterozoico.

O que faz de um cratão um cratão é a sua constituição.

São pedaços da litosfera continental, Foto 1, diferenciados desde o Arcaico (com uma idade de 2500 a 4000 Ma). De forma subtil os cratões têm registado os acontecimentos importantes que os continentes seus hospedeiros têm sofrido ao logo dos diferentes Ciclos de Wilson.

Granito e diorito (MHNBerlim)

Foto 1 – Contacto de granito com um diorito (porção mais escura). Nas zonas mais profundas da litosfera continental ocorre a formação de rochas graníticas associadas a rochas de composição mais básica como os dioritos. A abundância de rochas de composição granítica, desde o início do Arcaico conhecido, sugere que a diferenciação do material siálico foi muito precoce. A enorme escassez de rochas terrígenas, contudo, sugere que a crosta de tipo continental começou por ser fina e imersa, e lateralmente muito extensa, possivelmente cobrindo todo o globo. O arrefecimento progressivo terá permitido subducção de materiais siálicos até profundidades cada vez maiores e, como consequência, é possível que a crosta continental tenha vindo a diminuir de volume, do Arcaico até aos nossos dias.

A antiguidade dos cratões e geodiversidade tornam estes “pedaços”, documentos importantes onde está registada a memória do nosso planeta. O conjunto dos “cratões” terrestres podem ser entendidos como uma “caixa negra” da nave Terra.

Assim se formou a crosta continental (ver post aqui)

Fontes:

Click to access geologia-do-continente.pdf

http://www.aulamagna.pt/agenda/09-11/aventura-terra-planeta-evolucao-terra-primitiva-e-origem-vida-ciclo-conferencias

https://www.researchgate.net/publication/228493356_As_escalas_da_evolucao_do_Planeta_ea_Terra_Primitiva

https://www.researchgate.net/publication/12133721_Evidence_from_detrital_zircons_for_the_existence_of_continental_crust_and_oceans_on_the_Earth_44_Gyr_ago

 

 

Migmatitos – rochas de ultrametamorfismo

O que são migmatitos?

Uma definição: um migmatito é uma rocha formada por fusão parcial.

Os migmatitos são desta forma, rochas heterogéneas à escala macroscópica e microscópica. Devido ao processo de fusão parcial, os migmatitos são formados por duas partes distintas: o paleossoma e o nesossoma (Foto 1).

A

Foto 1 –  Praia de Lavadores em Terreno Finisterra. Rochas diatexíticas mesocratas onde se pode observar o nesossoma e o paleossoma.

O paleossoma é a parte da rocha que não sofreu fusão parcial. Por exemplo, num afloramento de migmatito proveniente da fusão de xistos pelíticos e anfibolitos (protólito), se o anfibolito não fundiu, este é denominado de paleossoma.

O nesossoma é porção nova da rocha resultante da fusão da rocha original, também denominada de protólito. O nesossoma pode ainda ser dividido em leucossoma  (constituído por minerais félsicos) Foto 2,  e melanossoma (constituído por minerais máficos).

 

Diatexitos (Lavadores - Finisterra)-117

Foto 2 – Leucossoma à direita. Constituído por minerais félsicos. Terreno Finisterra – Lavadores.

As rochas migmatíticas são rochas formadas em condições de ultrametamorfismo, na transição do domínio metamórfico para o domínio magmático.

Os migmatitos designam-se por Metatexitos ou Diatexitos consoante a fração fundida (melt) gerada durante os processos de fusão parcial.

Os metatexitos são rochas heterogéneas à escala macroscópica onde as estruturas anteriores à fusão parcial se encontram preservadas (paleossoma) e a fração de nesossoma é baixa, Foto 3.

35660774286_8a29d11425_k

Foto 3 – Metatexito (Praia da Madalena – Terreno Finisterra). Nas Praias de Madalena Norte e de Madalena Sul afloram litologias migmatíticas, com larga predominância de metaxistos. Estas rochas apresentam foliação bem marcada no paleossoma metapelítico a quartzo-pelítico.

Nos diatexitos, Foto 4 e 5,  o nesossoma é dominante, as estruturas anteriores à fusão parcial estão ausentes o nesossoma e podem ser substituídas por estruturas de fluxo.

Pedras amarelas - Finisterra-3

Foto 4 – Diatexitos na Praia das Pedras Amarelas (Terreno Finisterra). As litologias diatexíticas afloram sobretudo na zona da Praia das Pedras Amarelas e na Praia de Salgueiros. Estas rochas apresentam características consonantes com as descritas por Sawyer (2008). Predominam rochas leucocratas sem foliação ou com foliação mais ou menos incipiente, com um padrão de orientação muito irregular. É a cor amarelada desta litologia predominante que é responsável pela designação da Praia.

Diatexitos (Lavadores - Finisterra)-8

Foto 5 – Diatexitos com melanossoma (constituído por minerais máficos). Predomínio das rochas diatexíticas mesocratas finas com abundantes restitos, tendência porfiróide, e frequentes lentículas e vénulas pegmatíticas. O afloramento deste maciço destaca-se do ponto de vista morfológico, relativamente ao granito de Lavadores, por não ocorrerem os grandes blocos arredondados

Contexto geológico

Associada à evolução das cadeias orogénicas, no território português ocorreram importantes episódios de fusão parcial da crosta continental, como é evidenciado pela génese e exumação de maciços migmatíticos e graníticos, no geral intimamente relacionados.

Na zona costeira de Lavadores-Madalena afloram rochas gnaisso-migmatíticas diatexíticas e metatexíticas, constituindo o bordo ocidental do maciço granítico postectónico de Lavadores, datado de 298 Ma.

Estas rochas estão englobadas na Unidade de Lourosa e pertencem ao Terreno Finisterra (um antigo continente). Do ponto de vista geotectónico este setor costeiro corresponde ao limite entre o Terreno Ibérico (Zona Centro Ibérica) e o Terreno Finisterra (Unidade de Lourosa) materializado na Zona de Cisalhamento Porto-Tomar, Foto 6. As rochas migmatíticas apresentam deformação varisca, de caráter cisalhante direito, mais evidente nos setores em que predominam rochas metatexíticas.

A1

Foto 6 –  Contacto intrusivo do Granito de Lavadores e os migmatitos do Terreno Finisterra. No seu conjunto, este maciço metamórfico, aflorante numa faixa costeira estreita e irregular, no contacto ocidental do maciço granítico de Lavadores, apresenta variações consideráveis por predominância de diferentes litologias: na Praia das Pedras Amarelas é notória uma predominância de fácies diatexíticas, com predominância de rochas leucocratas, ainda que tendo associadas de modo subordinado fácies mesocratas de granularidade fina essencialmente biotíticas. Nas Praias de Madalena Norte e de Madalena Sul são predominantes as fácies metatexíticas. O maciço não aflora de modo contínuo, quer devido à geometria do contacto intrusivo do Granito de Lavadores, quer porque fica tapado por depósitos arenosos do Quaternário, já um pouco consolidados, e pelos depósitos de praia actual.

Fontes: 

Click to access ee7508ffb680ec1e6f37937ef6ca2920.pdf

https://digitalis-dsp.uc.pt/bitstream/10316.2/36314/1/Litologias%20gnaisso-migmatiticas.pdf?ln=pt-pt

Site no WordPress.com.

EM CIMA ↑