Um gnaisse que nasceu granito

Ao longo de uma série de pequenas praias entre a foz do rio Douro e o Forte de S.Francisco Xavier, o Complexo Metamórfico da Foz do Douro apresenta afloramentos co excelente exposição, permitindo ilustrar a evolução geodinâmica da região bem como episódios de deformação, erosão e meteorização da História Geológica de Portugal. São vários episódios que vou aqui relatar. Começo pelo … princípio. Um afloramento representantivo da Orogenia Cadomiana.

A Península Ibérica é constituída por terrenos de distintos continentes que colidiram numa passado muito longínquo. O conceito de ciclo de Wilson explica as orogenias sucessivas por abertura e fecho de oceanos, muitas vezes com recorrência de abertura em rift sobre suturas do ciclo anterior. Verifica-se que a Ibéria atual se situa junto à intersecção do Oceano Atlântico em abertura há cerca de 150 Ma e do Mar Mediterrâneo, que era Oceano em abertura há 250 Ma e se encontra hoje próximo do fecho definitivo. Esta situação domina a evolução geodinâmica da Ibéria nos últimos 200 Ma e parece ter sido repetida em ciclos de Wilson anteriores.

Ciclo Cadomiano

No final do Paleozoico, os processos tectónicos relacionados com a Orogenia Varisca culminaram com formação do supercontinente Pangeia. Outros ciclos anteriores podem ser estudados nos terrenos que constituem a Península Ibérica. Subsistem apenas relíquias de um ciclo Grenvilliano, a partir de fragmentação de Rodínia, supercontinente com cerca de 1000 Ma. Há melhor evidência para um Ciclo Cadomiano, a partir da geração do supercontinente Panótia, com cerca de 550 Ma, por fecho de oceanos anteriores, Foto 1.

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Foto 1 –  As rochas da orla marítima da cidade do Porto são das mais antigas em Portugal e constituem um património geológico de elevado interesse científico e pedagógico, o Complexo Metamórfico da Foz do Douro (CMFD).

O gnaisse ocelado, Foto 2 corresponde a uma granito cadomiano (com cerca de 607 milhões de anos), que intruiu formações mas antigas, neste caso representadas pelo xistos. A formação deste granito está relacionada com a colisão de placas litosféricas,que resultou na formação de montanhas (Orogenia Cadomiana) e na constituição de um grande continente, o Gondwana. O granito cadomiano e os xistos foram depois deformados conjuntamente durante o Paleozoico (Orogenia Varisca). O granito deu, assim, origem ao gnaisse ocelado que, por ter resultado de uma rocha magmática, se designa ortognaisse.

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Foto 2 – O gnaisse é uma rocha metamórfica, granular, de textura orientada (bandada), originada por metamorfismo regional de alto grau de sedimentos (paragnaisse) ou de rochas ígneas (ortognaisse). Os gnaisses do Complexo metamórfico da Foz do Douro são ortognaisses, constituídos por feldspatos,além do quartzo e micas. Os ocelos (augens) são consequência da atuação da deformação por cisalhamento dúctil do granito cadomiano pré-existente. Deste processo resultou a formação de ocelos  (grãos agregados de minerais em forma de olho). Os ocelos no gnaisse do Complexo Metamórfico da Foz do Douro são constituídos por quartzo e/ou feldspato potássico.

A história geológica do Complexo Metamórfico da Foz do Douro começou há muitos milhões de anos, numa época em que a Terra era muito diferente daquela que hoje conhecemos. A colisão de placas litosféricas que constituíram um novo continente, a Gondwana ocorreu por volta dos 650 a 550 milhões de anos e dela resultou a formação da cadeia de montanhas cadomiana. No caso da crosta hoje representada pelos terrenos proterozóicos da Foz do Douro, a colisão deu origem à produção de granitos e tonalitos cadomianos que intruíram formações mais antigas, os metassedimentos. A colisão levou à subducção e à obducção da crosta oceânica e ao desaparecimento do oceano então existente. Mas esta história do “anfibolito” da Foz do Douro, que representa um fragmento daquela crosta oceânica… é um próximo episódio! 

Mais fotografias deste afloramento podem ser visualizadas aqui.

Fontes consultadas: 

https://www.researchgate.net/publication/281283199_Geologia_da_Faixa_Litoral_entre_Lavadores_e_o_Castelo_do_Queijo_Livro_Guia_de_Campo_Simposio_Iberico_do_Ensino_da_Geologia_XIV_Simposio_sobre_Ensenanza_de_la_Geologia_XXVI_Curso_de_Actualizacao_de_Pro

https://imagem.casadasciencias.org/#!/descritivo?id=2103

Complexo Metamórfico da Foz do Douro – Um Guia de Campo Didático. FCUP

 

 

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