Terreno Finisterra na Foz do Douro

Estudos recentes colocam o “Complexo Metamórfico da Foz do Douro” no limite norte da Placa Finisterra, sendo limitado a Este pela zona de cisalhamento Porto-Tomar-Ferreira do Alentejo, considerada como uma falha transformante direita que separa as placas Finisterra e Ibéria e, a Oeste, pelas sequências com menor grau de metamorfismo do Proterozóico Superior do Domínio de Espinho, que apresentam afinidades com a Zona de Ossa Morena.

Na zona ocidental da cidade do Porto, junto à orla litoral entre a foz do rio Douro e o Forte São Francisco Xavier (vulgo Castelo do Queijo), encontram-se magníficos afloramentos de variadas rochas metassedimentares, espacialmente associadas a rochas ortognáissicas de diferentes tipos, que no seu conjunto são cortadas por granitóides variscos.

Assim, as rochas da faixa metamórfica da Foz do Douro foram incluídas, em duas unidades tectonoestratigráficas distintas : a Unidade de Lordelo do Ouro (ULO) e a Unidade dos Gnaisses da Foz do Douro (UGFD). Estas unidades definem no seu conjunto o designado Complexo Metamórfico da Foz do Douro. 

Unidade de Lordelo do Ouro (ULO)

A ULO constitui uma estreita faixa de rochas de natureza metassedimentar (micaxistos, quartzo-tectonitos recortados, localmente, por pseudotaquilitos. No seu limite Leste, contacta por acidente tectónico com o granito do Porto que localmente apresenta corredores de intensa deformação (granito da Arrábida. No seu limite Oeste, contacta tectonicamente com a UGFD, Foto 1.

Contacto dos Gnaisses (esquema)

Foto 1 –  Contacto tectónico entre os micaxistos (ULO) e os Gnaisses ocelados (UGFD).

Na ULO, é nítida a discordância entre as foliações presentes nos ortognaisses e nos micaxistos, o que denuncia uma foliação anterior nestes últimos. A discordância é ainda mais evidente quando retalhos de micaxistos ocorrem no seio dos ortognaisses, atestando a natureza intrusiva destes últimos, Foto 2.

Contacto dos Gnaisses e MIAXITOS A

Foto 2 – Granito (agora gnaisse leucocrata) intruiu rochas escuras pré-existentes (xistos ou metassedimentos). O gnaisse leucocrata está “misturado” com os xistos (metassedimentos) mais antigos e mais deformados. Os xistos eram antes sedimentos que se depositaram numa bacia sedimentar e os materiais que os constituem resultaram da alteração e erosão de rochas, com mais de de 1000 milhões de anos, que constituíam antigos continentes. Os sedimentos depois de sofrerem diagénese sofreram metamorfismo transformando-se em rochas metamórficas. Mais tarde, no Carbonífero/Pérmico, sofreram também a deformação varisca, facto que gerou planos de minerais orientados (foliação), paralelos aos que ocorreram nos gnaisses.

Unidade dos Gnaisses da Foz do Douro (UGFD)

A UGFD encontra-se confinada a uma faixa de ortognaisses, por vezes com corredores miloníticos onde se identificaram gnaisses recortados, à escala local, por pseudotaquilitos, compreendida entre o molhe de Felgueiras e o Castelo do Queijo.

Com base na cartografia de detalhe, esta unidade é constituída essencialmente por quatro tipos de ortognaisses: (i) gnaisses biotíticos; (ii) gnaisses leucocratas de tendência ocelada; (iii) gnaisses leucocratas; (iv) gnaisses leucocratas ocelados, em regra, afectados por deformação cisalhante intensa.

Petrograficamente os gnaisses leucocratas têm, no seu conjunto, uma composição granítica, e os gnaisses biotíticos, desprovidos de feldspato potássico, uma composição tonalítica. Associadas às rochas gnáissicas e aos micaxistos da ULO observam-se várias ocorrências de anfibolitos. Estudos radiométricos efectuados na faixa metamórfica da Foz do Douro permitiram calcular para os gnaisses biotíticos uma idade de 575 Ma, o que corresponde ao Proterozóico superior e indica uma origem profunda (mantélica) com contribuição mantélica para estas rochas .  A análise de gnaisses de tendência ocelada, permitiu obter uma  superior a 607 Ma que representa a idade de instalação da unidade gnáissica e contrariamente aos gnaisses biotíticos, os gnaisses ocelados apresentam uma assinatura francamente crustal.

Em conclusão, as idades determinadas para a UGFD e os estudos geoquímicos permitem considerar a existência de um magmatismo plutónico calco-alcalino de idade cadomiana (550–610 Ma). Este magmatismo é orogénico e sugere um enquadramento geodinâmico do tipo margem activa subducção–colisão. Por sua vez, os anfibolitos apresentam composições químicas de basaltos do tipo MORB (“Mid-Ocean Ridge Basalts”), não tendo o metamorfismo modificado sensivelmente a sua composição original. A idade modelo calculada, aponta para 1.05 Ga, fornecendo uma boa aproximação da idade de cristalização destas rochas, marca um período de oceanização, permitindo supôr que este representa uma “mélange” tectónica resultante de um anterior período de colisão–obducção.

Fontes Consultadas:

Click to access cd28_art02.pdf

Click to access 3_2906_ART_CG14_ESPECIAL_I.pdf

http://www.geopor.pt/GPresum/ensi/silva.html

Click to access gv02-deolinda.PDF

Vieira da Silva, J. C. B., 2001. Complexo Metamórfico da Foz do Douro: Contributos Científico-Didácticos.
Departamento de Geologia, Faculdade de Ciências, Universidade do Porto. (Tese de Mestrado).

4 thoughts on “Terreno Finisterra na Foz do Douro

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  1. Então ambas unidades são terreno finisterra? Aquele volume que ando a ler continua a pecar por não ser capaz de sintetizar, tanto artigo e depois o essencial ou conseguimos captar ou perdemo-nos.
    Contudo já apreendi muito, mais pelas anotações de aspetos que considero fundamentais que anoto na capa e contra capa e depois vou completando o puzzle

    1. Também eu fico perdido mas sou apenas um curioso e não um investigador. O CMFD marca o contacto entre a ZOM e a ZCI tal como aprendi na faculdade. Há depois a introdução do conceito de Terrenos. Terreno Ibérico com a ZCI, etc… O Terreno Finisterra é uma certeza (pelos artigos publicados) em Lavadores (logo a sul da Foz). Pelos vistos o “contacto” continua para norte. Eu talvez “peque” por simplificar um pouco. Mas o primeiro parágrafo foi tirado de um trabalho de investigação. Os afloramentos na “Foz do Porto” são muito didácticos e muito complicados também. O “soco” aflora aqui… isso não há dúvidas. Abraço

    2. Carlos Faria (cefaria): The Finisterra Terrane is characterized by three low to high-grade tectono-metamorphic units: – A lower gneiss-migmatite unit, mainly composed by para-derived gneisses, highly deformed migmatites and mylonites, with lenses of micaschists and ortho-derived gneisses and amphibolites (Lourosa, S. Pedro de Tomar and Foz do Douro gneisse-migmatite complexes); – An upper micaschist unit, mainly com ….

      Há artigos que de facto referem que o Terreno Finisterra pode ser “vistado” aqui no “Passeio da Foz do Porto”. Mas é apenas uma “provocação” minha. O artigo é da autoria do A. Ribeiro e Rui Dias (entre outros).

      Retirado deste artigo:

      (PDF) Can the Iberian Finisterra Terrane extends until Central Europe Variscides?. Available from: https://www.researchgate.net/publication/323399374_Can_the_Iberian_Finisterra_Terrane_extends_until_Central_Europe_Variscides [accessed Jun 29 2018].

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