Bacia do Douro e a Falha da Vilariça

A Ibéria, posicionada entre as placas euroasiática e africana, tem-se deslocado para oriente devido à progressiva abertura do Atlântico. A partir do Cretácico Superior, o regime distensivo iniciado no Triásico foi substituído por fases compressivas devido a colisão entre aquelas duas placas, levando à abertura de bacias sedimentares, orientadas genericamente E-W a NE-SW. Assim, durante o Cenozoico a Ibéria sofreu intensa deformação compressiva intraplaca que provocou dobramento litosférico e, depois, formação de pequenas bacias de desligamento. É atualmente aceite que a litosfera ibérica foi deformada por compressão máxima, genericamente orientada segundo N-S. Contudo, desde o Miocénico final esta terá rodado para NNW-SSE a NW-SE.

Em Portugal continental o auge da compressão atingiu-se a meados do Tortoniano (há cerca de 9-9,5 Ma, dando-se início ao soerguimento de importantes volumes montanhosos, tais como a Cordilheira Central Portuguesa (2000 m de altitude) e as Montanhas Ocidentais Portuguesas.

No Miocénico final e no Zancliano, sob clima temperado quente e muito contrastado, a sedimentação foi endorreica (drenagem fluviar dirigida para uma zona interior, normalmente um lado) e expressa por leques aluviais no sopé das escarpas de falhas ativas, principalmente falhas inversas NE-SW a ENE-WSW e desligamentos NNE-SSW e WNW-ESE. No Placenciano (Pliocénico Superior), o clima temperado quente tornou-se muito húmido e a partir do Gelasiano, progressivamente mais frio e seco. Desenvolveu-se rede hidrográfica exorreica (dirigida para o mar), precursora da actual. Formaram-se vales fluviais largos nas áreas montanhosas e deram-se numerosas capturas de bacias endorreicas interiores. No Plistocénico, a continuação do soerguimento tectónico regional e os períodos com baixo nível do mar foram determinantes no progressivo encaixe da rede hidrográfica e no desenvolvimento de capturas fluviais.

Na região de Trás-os-Montes, as rochas sedimentares cenozóicas que cobrem o substrato antigo são testemunhos de um sistema de drenagem mais antigo do que o atual, enquadrado na Bacia Terciária do Douro. São vestígios de um paleossistema fluvial, representado por paleovales escavados no substrato pré-mesozoico. Estes paleovales foram posteriormente cobertos por sedimentos variados, que testemunham condições tectónicas e climáticas do Cenozóico.

A Formação de Bragança, Foto 1, constitui testemunho, no sector proximal, da paleorede fluvial que drenava em direção à Bacia cenozóica do Douro. Admite-se como sendo essencialmente miocénica.

Falha da Vilariça-4a

Foto 1 –  Afloramento em talude de estrada, no interflúvio entre o rio Azibo e a ribeira de Salselas, com depósitos cenozóicos da Formação de Bragança. Estes sedimentos estão relacionados com os de Castro Roupal, já que ambos testemunham a mesma paleodrenagem. São visíveis falhas que afetam os sedimentos, relacionadas com o acidente Bragança-Vilariça-Manteigas (BVM). Mapa de localização dos afloramentos de Cenozóico relacionados com o sector proximal da Bacia do Douro em Portugal. 1 – Depressão de Bragança; 2 – Depressão de Macedo de Cavaleiros; 3 – Depressão da Vilariça; 4 – Depressão da Longroiva; 5 – Depressão de Mirandela; 6 – (Paleovale de) Silva; 7 – (Paleovale de) Atenor.

Formação de Bragança

Formada por dois membros com alternâncias de conglomerados, areias e argilas, Foto 2,  onde se evidencia a resposta a estímulos tectónicos relacionados com rejogo da falha da Vilariça ao longo do Neogénico. Estes sedimentos tiveram origem em leques aluviais que alimentavam as fácies mais próximas de um modelo fluvial principal, de carácter entrançado, de baixa sinuosidade e que drenava para Este no sentido da Bacia Terciária do Douro (idades entre o Miocénico Superior e o Pliocénico Inferior).

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Foto 2 – Depósito de alternância de conglomerados, areias e argilas da Formação de Bragança (Miocénico) afetadas pelo rejogo da Falha da Vilariça.  O registo histórico na Falha da Vilariça, é, ainda visível em pequenas fraturas nos depósitos Pliocénicos-Plistocénicos, designados na Ibéria por “rañas”. Estes depósitos desimentares tipo “rañas” são excelentes para a viticultura, mercê, de perderem humidade na estiagem e permitirem a boa maturação da uva.

A Falha da Vilariça

A falha da Vilariça, que se desenvolve entre Bragança, Vilariça e Manteigas, corresponde a um grande acidente tectónico, com uma extensão de 250 km. Esta falha, ainda que de baixa atividade sísmica, e foi em tempos atrás responsável pelo sismo de 1858, que destrui a vila de Moncorvo. Associado ao movimento da falha ocorreu o levantamento de blocos (num modelo do tipo push-up) como as Serras de Bornes (1199 m) e a Serra da Nogueira (1320 m) e o abatimento de outros, como as depressões de Santa Combinha, Macedo de Cavaleiros ou da Vilariça,  Figura 1.

Falha Manteigas-Vilariça-Bragança

Figura 1 – A falha de Manteigas-Vilariça-Bragança é uma das grandes estruturas tectónicas do NE de Portugal. Corresponde a uma falha de desligamento esquerdo, com uma direção NNE-SSW e comprimento aproximado de 220 km que afeta o soco Varisco.

No segmento central de Vilariça atinge-se o valor máximo de 9 km de desligamento, resultado de várias fases de movimentação desde a orogenia Varisca até à atualidade, dos quais 1 km se atribui ao Pliocénico superior a Quaternário. A atividade Plio-Quaternária da falha é evidenciada por uma expressão geomorfológica regional marcada e pela presença de sedimentos recentes falhados, tal como se pode observar neste afloramento. Estudos geomorfológicos têm evidenciado vários indicadores de atividade quaternária nesta falha que corroboram a cinemática de desligamento esquerdo: escarpas de falha bem definidas e retilíneas, estruturas compressivas, defleção esquerda do rio Douro e de drenagens menores quando cruzam a falha, drenagens sem cabeceira, rejeição de terraços fluviais, alinhamentos de formas com morfologia em sela, facetas triangulares e vales lineares. Estes indicadores permitiram aos geólogos estimar uma taxa de desligamento para o Quaternário entre 0.2 e 0.5 mm/ano.

Fontes utilizadas para texto e esquemas (consultados em 19/08/2018): 

2 thoughts on “Bacia do Douro e a Falha da Vilariça

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  1. Porque será que olhando para a imagem 1 vejo uma relação entre a falha do vale do Tejo e a da Vilariça? Tenho de acabar aquele vol 1 para entrar no Mesocenozoico português.

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