Bacia cenozóica do Tejo e Sado

Existe um percurso de Geomonumentos onde é possível compreender a evolução geológica ocorrida no Cenozoico nesta bacia na região de Lisboa. Nesta primeiro “post”  é feita uma introdução da Bacia Cenozóica do Baixo Tejo e Sado na cidade de Lisboa. Dois afloramentos marcam o início do registo da História desta bacia : a Quinta da Granja e o afloramento da Rua Sampaio Bruno.

Do ponto de vista geológico, a cidade de Lisboa localiza-se na Orla Meso-Cenozóica ocidental, nas bacias denominadas Bacia Lusitaniana e Bacia Cenozóica do Baixo Tejo e Sado, Figura 1.

Mapa

Figura 1 – Carta Geológica do Concelho de Lisboa. Enquadramento geológico da Bacia do Baixo Tejo e Sado. Esta bacia sofreu subsidência ao longo de todo o Cenozoico, controlada essencialmente por movimentos de importantes acidentes tectónicos. A subsidência foi compensada pelo preenchimento com materiais do Paleogénico ao Quaternário, que de uma forma geral se apresentam um pouco deformados, subhorizontais, ou afetados por dobramentos com grande raio de curvatura, ou balançamentos suaves. Destes materiais fazem parte a Formação de Benfica (Paleogénico) constituída por depósitos continentais detríticos, a Série Miocénica e os depósitos do Quaternário.

O conjunto do Complexo Carbonatado Cenomaniano e do CVL foram depositados em ambientes de transgressão e regressão, devido às oscilações do nível do mar durante o Mesozoico. Na área da cidade de Lisboa, destes sedimentos estão apenas representados os materiais do Cenomaniano e do Neocretácico.

Os restantes sedimentos foram depositados na Bacia Cenozóica do Baixo Tejo e Sado, que se encontra orientada segundo a direção NE-SW e cuja sua morfologia corresponde a uma depressão tectónica complexa que começou a desenvolver-se no soco varisco e em formações mesozoicas do bordo ocidental da Fossa Lusitaniana, durante o Paleogénico (Eocénico-Oligocénico) evoluindo de forma coesa, como um todo, ao longo do Terciário, onde está preservado um enchimento sedimentar Cenozóico predominantemente detrítico de origem continental.

Série Miocénica

A Série Miocénica, que assenta na maioria dos casos, sobre a Formação de Benfica, mas também sobre o CVL, corresponde no seu conjunto, à sedimentação ativa continua, acompanhada por constante subsidência, ocorrida na zona vestibular do Tejo, e atinge no total cerca de 300 m de espessura. Esta é constituída por uma alternância de areias, areolas, argilas e calcários, em porções variáveis, contendo importantes fósseis de animais e plantas, que permitem caracterizar a idade dos materiais e o ambiente em que estes se depositaram. Posteriormente às camadas da Série Miocénica existe uma lacuna durante quase todo o Miocénico superior e esta lacuna termina com as camadas do Pliocénico, que não se encontram representadas na área de cidade de Lisboa. O Quaternário é caracterizado, de uma forma geral, por um movimento regressivo não contínuo, com paragens, avanços e recuos sucessivos do mar, que deram origem à deposição de materiais a cotas cada vez mais baixas. Durante estas oscilações, ocorreu a regressão grimaldiana que colocou o nível do mar bastante mais baixo que o atual e escavou a foz dos rios. Seguiu-se-lhe a transgressão flandriana, que colocou o nível do mar onde se encontra atualmente.

Quinta da Granja – Camadas de Prazeres (24 milhões de anos)

Esta unidade (Camadas de Prazeres) é constituída por argilitos, argilitos siltosos, argilitos margosos, margas e calcários. Nos níveis mais argilosos deste afloramento existem, frequentemente, vegetais incarbonizados, cristais de marcassite e gesso, Foto 1. As Argilas de Prazeres marcam o início da transgressão, já que o Oligocénico é efetivamente de caráter continental. Dá-se então, durante a primeira ingressão do mar, a formação de um golfo pouco profundo, seguindo-se durante uma expansão deste golfo até à região de Almeirim, deixando a região de Lisboa submersa.

Foto 1 – Aqui era uma Pântano. No Miocénico Inferior a região de Lisboa era baixa, plana e alagadiça (pântano). A ténue ligação a mar promovia a existência de águas estagnadas, pobres em oxigénio, o que inibia os processos de decomposição biológica, favorecendo a conservação de matéria orgânica. Estas condições levaram à formação de níveis carbonosos, negros, e de níveis argilosos de cor acinzentada.

Aqui foi uma plataforma recifal – Rua Sampaio Bruno (23 milhões de anos)

Datado do Aquitaniano (Miocénico Inferior) este afloramento materializa o fundo marinho de uma plataforma recifal. É possível observar um calcário argiloso onde se destacam concreções carbonatadas (saliências) que correspondem a colónias semi-esféricas de briozoários. O regime de agitação marinha da época levava a que estas colónias se movimentassem em vaivém, por rolamento nos fundos, à semelhança do que sucede com os sedimentos, conduzindo ao aspeto de estratificação entrecruzada visível no afloramento, Diaporama 1.

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Diaporama 1 –  Os briozoários correspondem a um Filo de animais aquáticos, filtradores, quase que exclusivamente coloniais e sésseis. O nome do Filo – Bryozoa (do grego bryon: musgo; zoon: animal) está relacionado com a forma de algumas colónias, que crescem sobre o substrato formando uma cobertura uniforme como um tapete, de modo similar a algumas plantas e musgos. O grupo, entretanto, apresenta uma grande diversidade de formas e habitat, atingindo centímetros ou poucos milímetros de comprimento. Porém, independente do tamanho das colónias, estas são formadas por unidades funcionais e independentes, denominadas zooides, que medem cerca de 0,5 mm de comprimento. As colónias de briozoários são polimórficas, formadas por zooides de morfologias distintas de acordo com suas funções. Estes animais são geralmente abundantes e componentes importantes dos ecossistemas aquáticos, sobretudo marinhos, desde águas rasas até zonas profundas.

De um registo sedimentar em ambiente pantanoso passamos a um ambiente de um fundo marinho de plataforma recifal. Tudo indica que este registo sedimentar foi o resultado de importante subida do nível do mar, evidenciada pela presença de calcários bioacumulados e bioedificados, resultado de sedimentação em profundidades variadas, maioritariamente profundidades pequenas, em águas quentes, agitadas e bem oxigenadas.

Fontes consultadas: 

  • Almeida, F. M. & Almeida, I. Moitinho. (1997) – Contribuição para a atualização da Carta Geológica do Concelho de Lisboa. VI Congresso Nacional de Geotecnia.
  • Almeida, F. M. (1986) – Carta Geológica do Concelho Lisboa, à escala 1: 10 000. Serviços Geológicos de Portugal.
  • Antunes, M. T. & Pais, J. (1983) – Climate during Miocene in Portugal and is evolution. Paléobiologie continentale.
  • Teixeira, C. & Gonçalves, F. (1980) – Introdução à Geologia de Portugal. Instituto Nacional de Investigação Científica, Universidade de Lisboa.

 

 

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