Nos mares do Silúrico (Barrancos)

A formação da Pangea iniciou-se no Câmbrico Inferior (520-510 Ma) e terminou no final do Triásico (200 Ma), registando uma complexa história de deriva, colisão e acreção continental. Durante o Paleozoico Superior formou-se o Orógeno Varisco, como consequência da colisão entre Gondwana, Laurentia e Baltica, contribuindo ativamente para a constituição do supercontinente Pangea.

Nos domínios meridionais do Terreno Ibérico a Orogenia Varisca traduz-se pela acreção da Zona Sul Portuguesa (ZSP) à Zona de Ossa-Morena (ZOM) através de mecanismos de subducção e colisão continental. Estes mecanismos, similares aos que ocorrem atualmente nas margens continentais ativas, caracterizam-se por processos geológicos que se sucedem no espaço e no tempo e que, durante a orogénese, contribuem ativamente para a reciclagem dos materiais litológicos, segundo o ciclo das rochas, Foto 1.

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Foto 1 – Principais sectores da Zona de Ossa-Morena.

A estratigrafia da Zona de Ossa Morena (ZOM) tem sido tradicionalmente apresentada em termos de zonas e subzonas ou domínios tectono-estratigráficos. Mais recentemente foi introduzido o conceito de sector, que visa a melhor compreensão dos vários depocentros, independentemente dos seus limites geográficos coincidirem ou não com acidentes tectónicos importantes.

Liditos e Xistos com Phyllodocites

A região de Barrancos apresenta um património geológico‑mineiro que tem sido objeto de estudo desde o final do século dezanove. São vários os locais de elevado interesse geológico, particularmente de natureza paleontológica, relacionados com os materiais do Paleozoico. A sua divulgação, proteção e conservação tem sido feita por entidades públicas e privadas.

A região de Barrancos assume assinalável importância geológica, por apresentar uma das sucessões estratigráficas mais completas e melhor expostas do Paleozoico de Portugal. Enquadra-se na parte mais sudeste do Sector de Estremoz-Barrancos, que constitui uma das grandes divisões da Zona de Ossa Morena, em Portugal. Vários estudos revelaram resultados importantes nos domínios da bioestratigrafia dos graptólitos, crinoides, dos acritarcas e esporos e da estratigrafia regional. A região de Barrancos tem ainda várias ocorrências de minério de tipo cuprífero existentes, as quais foram objeto de pesquisa e exploração, bem como os conhecidos “Xistos de Barrancos”, cuja exploração mais importante é a Pedreira de Mestre André, Foto 2.

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Foto 2 – A sequência do Paleozoico de Barrancos inclui as Formações de Ossa, Fatuquedo, Barrancos, Xistos com Phyllodocites, Colorada, “Xistos com Nódulos”, “Xistos Raiados”, Monte das Russianas e Terena, com idades compreendidas entre o Câmbrico Médio-Superior e o Devónico Inferior. Há ainda o Complexo Ígneo de Barrancos, discordante sobre alguns materiais destas formações, considerado do Carbónico Superior. Estas unidades estratigráficas distribuem-se pelas estruturas principais diferenciadas na região que são, de sudoeste para nordeste sinclinal de Terena, com o seu flanco oriental conhecido por “faixa das Mercês”; anticlinal de Barrancos; sinclinal de Russianas; anticlinal de Fatuquedo. Estas estruturas foram produzidas pelos movimentos orogénicos da Cadeia Varisca, que afetaram a região durante o Paleozoico.

Formação dos Xistos com Nódulos (Silúrico / Llandovery-Ludlow inferior)

A Formação dos Xistos com Nódulos (XN), Foto 3, os quartzitos do topo da Formação de Colorada e os níveis basais da Formação dos Xistos Raiados, representam os terrenos do Silúrico, na região de Barrancos. A Formação dos Xistos com Nódulos é constituída por liditos, em bancadinhas milimétricas a centimétricas, na parte inferior, e pelitos negros siliciosos com raros leitos de liditos dispersos, na parte superior. É bastante rica em fósseis de graptólitos, de que até ao momento se determinaram 17 biozonas, o que possibilitou conhecer a assinatura bio e cronoestratigráfica bastante precisa das suas litologias. As biozonas são unidades biostratigráficas e correspondem a conjuntos de estratos definidos e caracterizados com base nos fósseis que possuem. Este conceito foi introduzido pelo cientista alemão Albert Oppel, em 1856. Embora algumas biozonas sejam definidas apenas pela presença de uma espécie fóssil, a maioria é definida por uma associação de diferentes fósseis.

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 Foto 3 – Foto de Liditos da Formação dos Xistos com Nódulos. Barrancos é a região do país em que o Silúrico está melhor conhecido, em termos lito e bioestratigráficos. Compreende o topo da Formação de Colorada, a Formação dos Xistos com Nódulos e os níveis basais da Formação dos Xistos Raiados. Liditos são chertes negros correspondentes a um radiolarito certificado (por vezes já transformado num microquartzito) com impregnação de matérias carbonosas. Os radiolários são essencialmente formados de restos esqueléticos de radiolários (protistas unicelulares presente na Terra desde o período Câmbrico).

Xistos com Phyllodocites

A sedimentação terrígena continua através da Formação dos Xistos com Phyllodocites, representada por uma alternância de xistos e psamitos esverdeados e arroxeados, finamente laminados, cuja fração arenosa vai aumentando para o topo da unidade. A característica principal da Formação dos Xistos com Phyllodocites é a abundância de icnofósseis, Foto 4.

Uma revisão preliminar deste material reconheceu a existência dos icnogéneros Nereites, Phyllodocites, Dictyodora, Lophoctenium, Chondrites, Oldhamia, Zoophycos, Palaeophycus, Gordia, Didymaulichnus e Diplichnites. Há ainda a assinalar os graptólitos encontrados na Pedreira de Mestre André, a NE de Barrancos. Além destes fósseis foram também determinadas as espécies de acritarcas. Estes são microfósseis esféricos de parece celular orgânica semelhante aos dinoflagelados. Pensa-se que possam estar relacionados com algumas divisões das algas eucarióticas.

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Foto 4 – Icnofósseis da Formação de Xistos com Phyllodocites na pedreira do Mestre André (Barrancos). Icnofóssil fortemente cíclico, atribuível a Nereites macleayi de elevado valor paleoecológico. No que respeita às condições do meio em que se depositou a formação, os icnogéneros continuam a indicar sedimentação profunda que para a parte superior da unidade se torna mais superficial, o que é sugerido pela presença do graptólito Expansograptus hirundo, cujo biótipo pelágico se situa entre os 150 e os 200 metros. Os Graptólitos são um grupo totalmente extinto, eram organismos exclusivamente marinhos, coloniais, que podiam ser planctónicos (livres ou fixos a elementos flutuantes) ou bentónicos (fixos ao fundo).

Tectónica de Placas

As rochas paleozoicas estão deformadas pelos movimentos tectónicos compressivos da Orogenia Varisca. A primeira fase de deformação é considerada como tendo ocorrido no Devónico Médio (390 a 370 Ma), enquanto a segunda é atribuída ao Carbónico.

Em Barrancos, o primeiro episódio está assinalado pela presença de dobras tombadas vergentes para oeste, com flancos inversos laminados por cavalgamentos, e clivagem xistenta associada. Quanto ao segundo episódio, está marcado por dobras apertadas com clivagem associada bem desenvolvida, subvertical ou inclinada para nordeste, responsável pela estruturação tectónica regional. As rochas sofreram também transformação metamórfica, materializada por recristalização mineralógica muito incipiente (fácies clorítica), com formação de sericite e clorite.

Estes dois locais na zona de Barrancos são uma pequena amostra do enorme valor geológico dos afloramentos do Paleozoico que podem ali ser visitados. Uma viagem aos mares do Silúrico com uma jazida de graptólitos da Biozona de Parakidograptus acuminatus do Rhuddaniano que constitui a primeira prova real, e única até ao momento, da existência da base do Silúrico em Portugal. 

Fonte:

https://www.researchgate.net/publication/295918530_Roteiro_Geologico_do_Parque_de_Natureza_de_Noudar_Zona_de_Ossa_Morena_Barrancos_Portugal/download

Glossário de estratigrafia

“Procurar reconstruir a História da Terra através do estabelecimento de uma sucessão cronológica de acontecimentos.”

A Serra do Marão constitui um dos relevos mais imponentes do Norte de Portugal. É constituída essencialmente por rochas metassedimentares provenientes de sedimentos depositados pelos grandes rios do Paleozoico nos mares e oceanos desse tempo. Devido ao dinamismo da Tectónica das Placas, esses mares e oceanos fecharam-se e os materiais que se acumularam ao longo das suas margens e fundos foram comprimidos deformados e transformados num processo que conduziu a formação de uma cadeia orogénica, a Cadeia Varisca da qual fazem parte as Formações que podem ser visitadas na Serra do Marão.

A datação dos principais acontecimentos que ocorreram no passado da Terra é um aspeto essencial para elaborar escalas, baseadas em propriedades litológicas, paleontológicas ou magnéticas das rochas, minerais e fósseis. São de enorme importância a elaboração das cartas geológicas como documentos científicos e técnicos fundamentais para um melhor planeamento do território, Foto 1.

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Foto 1 – Carta Geológica da Serra do Marão (A) e entrada nascente do Túnel do Marão (B). Os estudos geológicos realizados (e elaboração das cartas geológicas) são fundamentais no planeamento destas estruturas. As cartas geológicas são representações hipotéticas e bidimensionais de uma realidade complexa. O conhecimento de símbolos e das regras utilizados na sua construção permite fazer a reconstrução de ambientes geológicos em termos de tempo e de espaço tridimensional.

Estratigrafia

A estratigrafia tem como objectivo organizar o conhecimento geológico através da caracterização de um conjunto de materiais geológicos, nomeadamente sedimentares, com as suas abrangências verticais e laterais, procurando em simultâneo estabelecer relações geológicas entre diferentes regiões, com vista à reconstituição de uma história geológica, local, regional e global.

Faz parte da Estratigrafia:

  • Biostratigrafia – estuda a distribuição temporal de fósseis através do registo estratigráfico.
  • Cronostratigrafia (Geocronologia) – ramo da estratigrafia que estabelece a idade das unidades estratigráficas procurando estabelecer uma escala estratigráfica de valor mundial.
  • Magnetostratigrafia – ramo que estabelece a escala de mudanças do campo magnético terrestre ao longo da história da Terra.
  • Litostratigrafia é uma subdisciplina que estuda a composição litológica dos estratos.

Litostratigrafia      

É um ramo da estratigrafia que lida com a descrição e a nomenclatura das rochas de acordo com a sua composição litológica e as suas relações estratigráficas. A litoestratigrafia utiliza “relógios” estratigráficos, Foto 2, no estudo das camadas rochosas que compõem os estratos.

A unidade litoestratigráfica corresponde a conjuntos de rochas que são definidas e reconhecidas de acordo com as características litológicas e relações estratigráficas. Estas unidades são formadas por estratos individualizados e definidos de acordo com as suas propriedades litológicas independentemente da idade. Podem definir-se diversas unidades litostratigráficas sendo a Formação a unidade fundamental.

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Foto 2 – O estabelecimento de unidades litostratigráficas pretende obter uma estabilidade nomenclatura para a posterior realização de interpretações paleoambientais e correlações estratigráficas com sucessões contemporâneas conhecidas e descritas em diferentes regiões na Terra.

Camada – corpo rochoso tabular limitado por duas superfícies aproximadamente paralelas. Estas superfícies, definindo juntas de estratificação, resultam de variações ou descontinuidades na natureza e na dimensão dos materiais depositados. As camadas, também referidas por estratos, bancos ou bancadas, são comuns nas rochas sedimentares e vulcânicas, Foto 3.

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Foto 3Alternância de leitos finos leitos metapsamíticos (de cor esbranquiçada) e filitos (de cor cinzenta). O aspecto listrado e estruturas associadas resultam da ação de correntes turbidíticas (correntes submarinas com uma carga sólida importante e constituída por argilas ou lamas, siltes e por vezes areias). Nas camadas e estratos é possível observar uma estratificação gradada, indicadora de variações de energia do meio. As correntes de turbidez transportam uma mistura de sedimentos que ao sedimentarem formam uma sequência gradada designada por turbidito. Na Serra do Marão a Formação de Desejosa de idade Câmbrica pertence ao Grupo do Douro (designada impropriamente por Complexo Xisto-Grauváquico) é um vestígio de mares com profundidades consideráveis cuja idade remota há mais de 500 Ma.

Membro – Unidade estratigráfica hierarquicamente abaixo da Formação e acima da Camada, constituída por um conjunto bem definido de camadas, Foto 4.

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Foto 4 – Membro Fragas de Ermida (Serra do Marão) constituído pela alternância de leitos decimétricos de filitos (rocha metamórfica foliada de grão fino a médio, tendo as micas alinhadas o que lhe confere um brilho baço) e psamitos (rocha metamórfica derivada de um arenito) dando à unidade um aspecto bandado. Os leitos bem definidos, apresentam frequentes variações laterias e espessuras. O aspecto bandado, mais marcado no topo, associa-se a uma fácies turbidítica revelando um aumento gradual do nível do mar.

Formação – é a unidade litostratigráfica fundamental. Formada por um conjunto de rochas com propriedades litológicas e posição estratigráfica semelhantes que é facilmente distinguível das restantes. Deve ser suficientemente ampla para que possa ser detetada e cartografada nos mapas da região.

Estratotipo – A definição de uma formação, de um membro ou de uma camada implica sempre a definição de um estratotipo, com teto e muro devidamente localizados. A sucessão de camadas deve apresentar características bem específicas e evidentes, bem delimitadas de forma a permitirem servir de referência quando comparadas com outras unidades, do mesmo intervalo de tempo.

Grupo – dividem-se em Formações.

Complexo – unidade constituída por diversos tipos de uma ou várias categorias de rochas (sedimentares, ígneas e metamórficas) em que a estrutura é tão complicada que a sucessão original dessas rochas não é decifrável.  Exemplo: Complexo Metamórfico da Foz do Douro.

O planeta Terra é um lugar singular no nosso Sistema Solar. Nenhum outro planeta conhecido possui condições favoráveis à vida. A Geologia é a ciência que estuda a Terra sob diferentes aspectos: como surgiu, que processos estiveram envolvidos na sua evolução e que factores estão subjacentes à sua dinâmica interna e externa são alguns, entre muitos outros, objectos da investigação realizada por esta ciência.

Deste modo, certos ramos da Geologia, como a paleontologia e a estratigrafia, permitem que o Homem compreenda a História da Terra e da Vida ao longo do tempo geológico, quer a nível global quer ao nível da região em diariamente desenvolvemos as nossas atividades.

A Estratigrafia tem como objectivo o estudo, a descrição dos estratos ou camadas e o seu posicionamento relativo, espácio-temporal. Neste estudo são tidas em consideração as condições de formação das rochas sedimentares, através do seu conteúdo fóssil e composição litológica. Os geólogos, aplicando alguns princípios básicos deste ramo da Geologia, interpretam os dados registados nas rochas, procurando reconstituir a História da biosfera e da geosfera numa determinada região.

 

Origem dos tetrápodes

A extinção de espécies e o aparecimento de novas espécies a partir de outras já existentes, num processo designado por evolução, marcaram o passado histórico da Terra e causaram oscilações na biodiversidade, algo que ainda hoje continua.

A transição da vida na água para a vida na terra terá ocorrido entre os 380 milhões de anos e os 365 milhões de anos. As rochas mais jovens nesse limite incluem diversos tipos de animais fossilizados que facilmente são reconhecidos como anfíbios ou répteis. Apresentam cabeça e membros para a locomoção. Com pescoços, orelhas e quatro patas não parecem peixes. Mas as rochas co cerca de 385 milhões de anos apresentam peixes inteiros, com barbatanas, cabeças cónicas, escamas e não têm pescoços, Foto 1.

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Foto 1 – Alguns cientistas acreditam que peixes crossopterígios primitivos, possivelmente aos celacantos atuais, originaram os tetrápodes, grupo ao qual pertencem os anfíbios, os répteis, as aves e os mamíferos atuais. Outros, porém, consideram que a origem dos tetrápodes poderia estar nas linhagens antigas de peixes pulmonados. A base das nadadeiras peitorais e pélvicas dos crossopterígios é carnosa e suportada por um esqueleto ósseo interno. Acredita-se que podiam apoiar-se no solo com as nadadeiras e “caminhar” pelo fundo dos rios e lagos. Esse modo peculiar de movimentação teria permitido a estes peixes realizar incursões em terra firme, à procura de alimento. Gradualmente, ter-se-iam adaptado às condições do meio aéreo, e as suas barbatanas evoluído, transformando-se em penas. Essa é uma das hipóteses sobre a origem dos anfíbios, que teria ocorrido entre os 4008 e 360 milhões de anos atrás.

Tiktaalik o grande peixe de água doce

Tiktaalik rosea é um fóssil co 375 M.a. que foi descoberto no Ártico canadiano, em 2004. A sua descoberta esclarece um ponto fulcral na história da vida na Terra: quando os primeiros peixes se aventuraram em terra firme. Tiktaalik assemelha-se a um cruzamento entre um peixe primitivo (Celacanto) e os primeiros animais de quatro patas (tetrápodes) e viveu à cerca de 12 M.a, Foto 2.

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Foto 2 –   A conquista do meio terrestre foi um importante passo evolutivo. As barbatanas peitorais do Tiktaalik (órgãos homólogos) mostram algumas estruturas ósseas dos membros dos tetrápodes. Homologias são estruturas que apresentam o mesmo plano de organização interna e de desenvolvimento embrionário, que pelo seu plano de organização interna (esqueleto) é igual, logo existiu um ancestral comum entre os dois indivíduos. A existência destes órgãos homólogos permite-nos concluir que existiu uma evolução divergente. No livro de Shubin, o geólogo que “descobriu” este elo perdido na evolução dos tetrápodes, os argumentos são apresentados de uma forma criativa e consisa, abordando de modo direto, e até mesmo humorístico, questões por vezes profundas sobre as origens e sobre a evolução. A nossa mão evoluiu de uma barbatana de peixe, é sem dúvida um exemplo poderoso daquilo que a evolução é capaz.

Antes dos primeiros tetrápodes (363 M.a.), marcando o aparecimento destas características no registo fóssil. À primeira vista, apresenta características que associamos imediatamente aos peixes: barbatanas, escamas e guelras. Mas também possui um número de características que o diferenciam dos peixes da época e o tornam interessante para os cientistas. A cabeça e o corpo do Tiktaalik são achatados, com olhos na parte superior d crânio, mais parecido com um crocodilo do que com um peixe. Os ombros não estão ligados ao crânio, possuindo um pescoço funcional (primeiro aparecimento desta característica, que posteriormente aparece em todos os tetrápodes) que não aparece nos peixes. Possui costelas idênticas às dos primeiros tetrápodes, que eram usadas para suportar o corpo e o ajudavam a respirar em terra. Este fóssil mostra que muitas das características que se associam aos primeiros tetrápodes evoluíram nos peixes.

Documentário : A origem dos Tetrápodes e a descoberta do Tiktaalik rosea. 

Fontes :

https://www.researchgate.net/publication/259847955_Pelvic_girdle_and_fin_of_Tiktaalik_roseae

https://www.researchgate.net/publication/23385356_The_cranial_endoskeleton_of_Tiktaalik_roseae

 

 

 

Celacanto, um ser vivo que não é fóssil

Os “fósseis vivos” são evidências de seres vivos que existiram no passado e que são, na sua maioria, diferentes dos seres vivos atuais, pelo que permitem compreender como têm evoluído as espécies até chegarem às formas mais recentes.

Na atualidade, existem algumas espécies de seres vivos muito semelhantes a organismos do passado. São géneros que não se extinguiram e que se modificaram muito pouco ao longo do tempo, como é o caso do Celacanto, Foto 1.

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Foto 1 – Os organismos conhecidos por “fósseis vivos” são evolutivamente estáveis, ou seja, sofrem evolução lenta. O celacanto capturado em 1938 ainda é considerado a maior descoberta zoológica do século XX. Este “fóssil vivo” veio de uma linhagem de peixes que se pensava estar extinto desde a época dos dinossáurios. Eram um género já conhecido nos registos fósseis datados em mais de 360 milhões de anos tendo desaparecido no final do Mesozoico. Hoje em dia são encontrados em cavernas marinhas a mais de 200 metros de profundidade, perto de ilhas vulcânicas.

Os paleontólogos pensam que peixes cartilagíneos (tubarão, por exemplo) e peixes ósseos (sardinha, por exemplo) surgiram no período do Silúrico (Paleozoico), a partir de ancestrais placodermes, Foto 2.

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Foto 2 – Os placodermes foram muito bem sucedidos e dominaram os mares do Paleozoico como grandes predadores e alcançaram uma extraordinária diversidade no Devónico. Estes peixes desapareceram durante os eventos de extinção ocorridos no final do Devónico que afetaram diversos grupos biológicos.

Os Peixes dividem-se em quatro classes : Chondricthyes (Tubarões), Actinopterygii (sardinha e peixes de água doce), Actinistia (Celacanto) e Dipnoi (vertebrados de água doce).

Os peixes cartilagíneos (Chondricthyes) surgiram nos mares paleozoicos enquanto os peixes ósseos (Actinopterygii, Actinistia e Dipnoi) terão evoluído em ambientes de água doce e só mais tarde conquistado os ambientes de água salgada onde se tornaram o grupo dominante.

Os primeiros Actinopterígios provavelmente respiravam por meio de brânquias, complementando a respiração por meio de uma bolsa ligada à faringe, que atuava como uma espécie de pulmão. No início do período Devónico, há cerca de 400 milhões de anos, os peixes ósseos já estavam diversificados em três grandes grupos: peixes com barbatanas radiais (actinopterígios), peixes com barbatanas lobadas (crossopterígios ou actinistia ) e peixes pulmonados (dipnóicos).

Os actinopterígios tiveram tiveram enorme sucesso evolutivo, tendo originado maioria dos peixes atuais, que compõem a classe Actinopterygii. Neste grupo, o primitivo pulmão perdeu a sua função respiratória e deu origem à bexiga natatória. Os dipnóicos, também chamados peixes pulmonados, evoluíram em ambientes de água doce e continuaram a utilizar o seu pulmão primitivo como órgão respiratório acessório das brânquias. Hoje são apenas conhecidos três géneros desse grupo, que vivem na América do Sul, África e Austrália.

Peixes da classe Dipnoi (dipnóicos) respiram no meio aéreo por meio de uma bolsa ricamente vascularizada ligada à faringe, que funciona como pulmão (daí serem conhecidos como peixes pulmonados). Enchem o seu “pulmão” com ar, de modo que o sangue circulante nas paredes da bolsa retira o oxigénio e elimina o dióxido de carbono. Acredita-se que este tipo de respiração era utilizado pelos ancestrais dos actinopterígios, que possivelmente viviam em água doce pobre em oxigénio terão desenvolvido esse mecanismo como órgão respiratório acessório das brânquias.

Os crossopterígeos (Actinistia) foram considerados extintos até 1938, quando um peixe vivo extremamente semelhante a exemplares fósseis foi capturado por pescadores  nos mares de Madagáscar. Este “fóssil vivo” foi classificado como Latimeria chalumnae, popularmente conhecido por Celacanto. Atualmente, esses animais, que chegam a 2 metros de comprimento, compõe, a classe Actinistia, ou Sarcopterygii.

 

Réquiem por um Dodó

Um Réquiem, é uma missa da Igreja Católica oferecida para o repouso da alma de uma ou mais pessoas falecidas, usando uma forma particular do Missal Romano.

Desde que a vida se iniciou na Terra que ela não tem parado de evoluir. Milhares de espécies extinguiram-se, como prova o registo geológico. Neste registo podemos encontrar fósseis de seres vivos diferentes dos atuais, como consequência da seleção natural (e artificial) nos ecossistemas ao longo do tempo geológico. Este equilíbrio dinâmico entre as espécies que se extinguem e as outras que evoluem nos novos ambientes passou durante o Cenozoico a estar ameaçado pela intervenção do Homem.

Os fatores que podem determinar a extinção das espécies podem ser classificados, Figura 1, em naturais, e em não naturais.

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Figura 1 –  Fatores de extinção das espécies. Na maioria das  vezes, é a atuação de vários destes fatores que concorre para a extinção das espécies.

A extinção é o fim de qualquer linhagem de organismos, da subsespécie à espécie e a categorias taxonómicas mais elevadas, do género ao filo. A extinção pode ser local, em que uma ou várias populações de uma espécie ou de outra unidade desaparecem, mas outras há que sobrevivem em certas zonas, ou total (global) em que todas as populações desaparecem. Quando os biólogos falam em extinção de uma espécie em particular, sem quantificação adicional, referem-se à extinção total.

A atuação dos fatores referidos na Figura 1, torna inicialmente as espécies vulneráveis, depois ameaçadas, de seguida em perigo de extinção e, finalmente, extintas. Uma espécie é considerada extinta quando nos últimos 50 anos, deixaram de ser observados indivíduos selvagens.

Para poder conservar o meio natural devemos modificar o conceito de que a “Terra é uma fonte inesgotável” e alterar o ritmo atual de crescimento e consumo da Humanidade. Os dois instrumentos que podem ajudar a atingir aqueles objetivos são ordenação do território e educação ambiental. Uma forma de conservar é, também, proteger os ecossistemas mais ricos e representativos de um país ou região, através de áreas próprias (parques nacionais, parques naturais, as reservas naturais e as paisagens protegidas).

O Dodó

No início da década de 1680, nas ilhas Maurícias, situadas no Oceano Índico, a cerca de 1300 quilómetros da costa leste de Madagáscar, extinguiam-se os últimos  Raphus cucullatus, conhecido pelo nome de Dodó.

Este famoso pássaro não voador cuja natureza triste mas confiante, aliada à falta de força nas pernas, transformou-o num alvo irresistível para os marinheiros que aportavam nestas ilhas do Índico. Milhões de anos de pacífico isolamento não tinham preparado o Dodó para enfrentar o comportamento do ser humano. Hoje em dia não sabemos bem como era um Dodó vivo, temos uma meia dúzia de descrições feitas por naturalistas, três ou quatro quadros a óleo e alguns fragmentos ósseos empalhados nos museus de História Natural, Foto 1.

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Foto 1 –  Dodó empalhado no Museu de História Natural em Londres. O que sabemos do Dodó: viveu nas ilhas Maurícias, era gorducho mas nada saboroso, e foi o maior membro da família dos pombos, embora o seu tamanho nunca tenha sido registado co exatidão. Extrapolações feitas a partir dos “fragmentos ósseos”, associadas aos modestos vestígios que encontramos em museus, parecem indicar que não teriam mais de 75 centrímetros de altura, e mais ou menos a mesma dimensão do bico até à cauda. Como não podia voar, fazia o seu ninho em terra, deixando os seus ovos e crias à mercê dos porcos, cães e macacos trazidos pelo Homem para as ilhas. Pensa-se que se terá extinguido em 1683. Para lá disso não e sabe quase nada, excetuando o facto de nunca mais podermos ver mais nenhum. Nada sabemos dos seus hábitos de reprodução, nem o que comia, nem por onde costumava parar, nem os sons que fazia quando estava sossegado ou quando que assustava. Não temos um único ovo de Dodó.

Do princípio até ao fim, o contacto do ser humano com o Dodó vivo limitou-se a 70 anos. É um período incrivelmente curto! Hoje sabemos que as ilhas oceânicas são os nossos grandes laboratórios naturais da evolução, a origem de tantas ideias sobre as alterações orgânicas e de tantos exemplos clássicos desde dos tentilhões das Galápagos às moscas dos Havai. A combinação do isolamento geográfico, do acesso difícil, e a frequente ausência de predadores ou competidores, proporciona hipóteses explosivas às criaturas que conseguem alcançar estes generosos refúgios. Não foi este o destino da ave que não voava – Dodó.

 

Fontes : Breve história de quase tudo. Bill Bryson

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