Bacia de Paris e o Palácio de Chambord

A Bacia de Paris, Foto 1, é um exemplo de uma vasta depressão grosseiramente circular rodeada por antigas formações variscas. Esta bacia contém na sua zona central cerca de 2500 metros de formações sedimentares de idade Mesozoica e Cenozoica. Pelo contrário, estas formações não passam de algumas centenas de metros junto à sua periferia.

bacia de paris

Foto 1 – As grandes bacias de França (geometria e espessura dos sedimentos). A Bacia de Paris apresenta uma série de auréolas coloridas centradas perto da região parisiense, onde se localizam os sedimentos mais jovens (Terciário).

Apesar das deformações devidas à orogenia alpina e das variações eustáticas do nível médio do mar que esteve na origem de inúmeras transgressões e regressões, o máximo de acumulação sedimentar e subsidência ocorreu na região central desta bacia, durante toda a sua história. No caso das deformações alpinas estas afetam, sobretudo o pólo de subsidência, ligeiramente no Mesozoico e de uma forma mais acentuada durante o Cenozoico.

Os processos ligados à dinâmica da litosfera que permitiram explicar a formação deste tipo de bacia estão diretamente relacionados com a instalação de um rifte continental durante o Pérmico (Paleozoico). No final do Paleozoico, com o início do deslocamento da Pangea, a peneplanície pós-varisca é submetida a esforços distensivos que estão na origem de fossas de afundimento alongadas segundo as direções principais, devidas à orogenia varisca. Nestas fossas são depositados entre 500 a 1000 sedimentos pérmicos.

Após o processo de rifting verificado durante o Pérmico, contata-se uma detumescência térmica, a qual vai originar a depressão onde irão ocorrer os fenómenos de subsidência posteriores.

Desta forma, podemos então concluir que, no processo evolutivo desta bacia sedimentar, ela tem origem após um fenómeno inicial de rifting ocorrido durante o Pérmico, ao qual se seguiu um processo de subsidência associado a um equilíbrio térmico de uma litosfera adelgaçada. A origem desta bacia é, portanto, devida a um processo de formação de um rifte continental abortado, cuja depressão ultrapassa largamente a extensão inicial desta fossa tectónica.

Evidências da Bacia de Paris no Vale do Loire

Na região do Vale do Loire, Foto 3, o património arquitetónico renascentista francês foi edificado com o “Tufo branco da Touraine”, conhecido pela designação gaulesa de “Tuffeau blanc de Touraine”. Esta rocha é uma “Cré“, calcário marinho de grão muito fino, poroso e algo friável. No caso do Tufo branco além do carbonato de cálcio apresenta silicatos sendo os mais abundantes a sílica e a moscovite. É a variação na concentração de silicatos que permite a grande diversidade de tufos calcários de idade Cretácica usada na construção de edifício nesta zona cento do território francês.

bacia de paris 1

Foto 2 – A carta geológica da região do vale do Loire conta-nos uma história interessante. A sul afloram as rochas do soco varisco com alguns estratos de idade Pérmica e do Triássico correspondendo a uma sedimentação sin-rifte. Sobre estas rochas ocorrem as auréolas azuis representando o Jurássico e verdes do Cretácico com uma sedimentação marinha (pós-rifte) em mares epicontinentais (de pouca profundidade). De cor amarela, testemunhos de uma nova Era, o Cenozoico, representado nesta região por rochas marinhas lacustres depositadas num clima tropical onde nos ecossistemas vagueavam os antílopes e rinocerontes do Terciário (sistema da era Cenozoica, com 65 a 1,74 Ma, abrangente dos períodos Paleogénico e Neogénico).

No Palácio de Chambord (Château de Chambord) a construção foi feita com estes calcários extraídos das pedreiras nas margens do rio Loire de Cher. Porém esta rocha macia é facilmente alterável tendo sido também utilizados calcários mais resistentes (do Jurássico) nas ombreiras das janelas e nas escadarias, Diaporama 1.

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Diaporama 1 – Chambord é um dos principais castelos do Vale do Loire. Ele faz parte da lista do património mundial da Unesco desde 1981 e é uma propriedade do estado francês. O  edifício foi construído para servir como pavilhão de caça para François I, o qual já mantinha residências reais nos vizinhos castelos de Amboise e Blois. François I, um “rei das Artes” mandou construir vários castelos pelo Vale do Loire, entre os quais Blois, Amboise e Chambord. Cercado por uma floresta rica em veados e javalis, o Château de Chambord foi concebido como residência de caça, apenas sendo utilizado por pequenas temporadas, quando o rei aqui se deslocava e trazia consigo os seus próprios móveis. Chambord conta com uma escadaria em espiral dupla, composta por duas rampas que se entrelaçam uma na outra em torno de um núcleo oco com aberturas. Se duas pessoas usarem uma rampa diferente, podem ver-se pelas aberturas durante todo o percurso sem nunca se cruzarem. Esta escada terá alegadamente sido projetada por Leonardo da Vinci, amigo pessoal de François I, o qual fez esboços muito similares ao desta escadaria antes de esta ter sido construída.

As rochas calcárias como o Tufo Branco da Touraine são também muito interessantes pela história geológica que contam. Durante o Turoniano, andar do Cretácico superior, com 92 a 88 Ma, que tem como estratotipo o cré de Tour na margem norte do rio Loire, a Bacia de Paris estava a ser formada numa sequência típica de mares epicontinentais com sedimentação pós-rifte onde a orientação geral da compressão era Este-Oeste. No final do Cretácico e início do Cenozoico ocorreu uma mudança na orientação da compressão. O novo regime de orientação Norte-Sul, bem testemunhado na Europa Central é interpretado como sendo uma evidência do início do Ciclo Alpino. Mas este fica para um outro episódio… 

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