Nos mares do Silúrico (Barrancos)

A formação da Pangea iniciou-se no Câmbrico Inferior (520-510 Ma) e terminou no final do Triásico (200 Ma), registando uma complexa história de deriva, colisão e acreção continental. Durante o Paleozoico Superior formou-se o Orógeno Varisco, como consequência da colisão entre Gondwana, Laurentia e Baltica, contribuindo ativamente para a constituição do supercontinente Pangea.

Nos domínios meridionais do Terreno Ibérico a Orogenia Varisca traduz-se pela acreção da Zona Sul Portuguesa (ZSP) à Zona de Ossa-Morena (ZOM) através de mecanismos de subducção e colisão continental. Estes mecanismos, similares aos que ocorrem atualmente nas margens continentais ativas, caracterizam-se por processos geológicos que se sucedem no espaço e no tempo e que, durante a orogénese, contribuem ativamente para a reciclagem dos materiais litológicos, segundo o ciclo das rochas, Foto 1.

foto (barrancos) 1

Foto 1 – Principais sectores da Zona de Ossa-Morena.

A estratigrafia da Zona de Ossa Morena (ZOM) tem sido tradicionalmente apresentada em termos de zonas e subzonas ou domínios tectono-estratigráficos. Mais recentemente foi introduzido o conceito de sector, que visa a melhor compreensão dos vários depocentros, independentemente dos seus limites geográficos coincidirem ou não com acidentes tectónicos importantes.

Liditos e Xistos com Phyllodocites

A região de Barrancos apresenta um património geológico‑mineiro que tem sido objeto de estudo desde o final do século dezanove. São vários os locais de elevado interesse geológico, particularmente de natureza paleontológica, relacionados com os materiais do Paleozoico. A sua divulgação, proteção e conservação tem sido feita por entidades públicas e privadas.

A região de Barrancos assume assinalável importância geológica, por apresentar uma das sucessões estratigráficas mais completas e melhor expostas do Paleozoico de Portugal. Enquadra-se na parte mais sudeste do Sector de Estremoz-Barrancos, que constitui uma das grandes divisões da Zona de Ossa Morena, em Portugal. Vários estudos revelaram resultados importantes nos domínios da bioestratigrafia dos graptólitos, crinoides, dos acritarcas e esporos e da estratigrafia regional. A região de Barrancos tem ainda várias ocorrências de minério de tipo cuprífero existentes, as quais foram objeto de pesquisa e exploração, bem como os conhecidos “Xistos de Barrancos”, cuja exploração mais importante é a Pedreira de Mestre André, Foto 2.

foto (barrancos) 2

Foto 2 – A sequência do Paleozoico de Barrancos inclui as Formações de Ossa, Fatuquedo, Barrancos, Xistos com Phyllodocites, Colorada, “Xistos com Nódulos”, “Xistos Raiados”, Monte das Russianas e Terena, com idades compreendidas entre o Câmbrico Médio-Superior e o Devónico Inferior. Há ainda o Complexo Ígneo de Barrancos, discordante sobre alguns materiais destas formações, considerado do Carbónico Superior. Estas unidades estratigráficas distribuem-se pelas estruturas principais diferenciadas na região que são, de sudoeste para nordeste sinclinal de Terena, com o seu flanco oriental conhecido por “faixa das Mercês”; anticlinal de Barrancos; sinclinal de Russianas; anticlinal de Fatuquedo. Estas estruturas foram produzidas pelos movimentos orogénicos da Cadeia Varisca, que afetaram a região durante o Paleozoico.

Formação dos Xistos com Nódulos (Silúrico / Llandovery-Ludlow inferior)

A Formação dos Xistos com Nódulos (XN), Foto 3, os quartzitos do topo da Formação de Colorada e os níveis basais da Formação dos Xistos Raiados, representam os terrenos do Silúrico, na região de Barrancos. A Formação dos Xistos com Nódulos é constituída por liditos, em bancadinhas milimétricas a centimétricas, na parte inferior, e pelitos negros siliciosos com raros leitos de liditos dispersos, na parte superior. É bastante rica em fósseis de graptólitos, de que até ao momento se determinaram 17 biozonas, o que possibilitou conhecer a assinatura bio e cronoestratigráfica bastante precisa das suas litologias. As biozonas são unidades biostratigráficas e correspondem a conjuntos de estratos definidos e caracterizados com base nos fósseis que possuem. Este conceito foi introduzido pelo cientista alemão Albert Oppel, em 1856. Embora algumas biozonas sejam definidas apenas pela presença de uma espécie fóssil, a maioria é definida por uma associação de diferentes fósseis.

liditos

 Foto 3 – Foto de Liditos da Formação dos Xistos com Nódulos. Barrancos é a região do país em que o Silúrico está melhor conhecido, em termos lito e bioestratigráficos. Compreende o topo da Formação de Colorada, a Formação dos Xistos com Nódulos e os níveis basais da Formação dos Xistos Raiados. Liditos são chertes negros correspondentes a um radiolarito certificado (por vezes já transformado num microquartzito) com impregnação de matérias carbonosas. Os radiolários são essencialmente formados de restos esqueléticos de radiolários (protistas unicelulares presente na Terra desde o período Câmbrico).

Xistos com Phyllodocites

A sedimentação terrígena continua através da Formação dos Xistos com Phyllodocites, representada por uma alternância de xistos e psamitos esverdeados e arroxeados, finamente laminados, cuja fração arenosa vai aumentando para o topo da unidade. A característica principal da Formação dos Xistos com Phyllodocites é a abundância de icnofósseis, Foto 4.

Uma revisão preliminar deste material reconheceu a existência dos icnogéneros Nereites, Phyllodocites, Dictyodora, Lophoctenium, Chondrites, Oldhamia, Zoophycos, Palaeophycus, Gordia, Didymaulichnus e Diplichnites. Há ainda a assinalar os graptólitos encontrados na Pedreira de Mestre André, a NE de Barrancos. Além destes fósseis foram também determinadas as espécies de acritarcas. Estes são microfósseis esféricos de parece celular orgânica semelhante aos dinoflagelados. Pensa-se que possam estar relacionados com algumas divisões das algas eucarióticas.

_-3

Foto 4 – Icnofósseis da Formação de Xistos com Phyllodocites na pedreira do Mestre André (Barrancos). Icnofóssil fortemente cíclico, atribuível a Nereites macleayi de elevado valor paleoecológico. No que respeita às condições do meio em que se depositou a formação, os icnogéneros continuam a indicar sedimentação profunda que para a parte superior da unidade se torna mais superficial, o que é sugerido pela presença do graptólito Expansograptus hirundo, cujo biótipo pelágico se situa entre os 150 e os 200 metros. Os Graptólitos são um grupo totalmente extinto, eram organismos exclusivamente marinhos, coloniais, que podiam ser planctónicos (livres ou fixos a elementos flutuantes) ou bentónicos (fixos ao fundo).

Tectónica de Placas

As rochas paleozoicas estão deformadas pelos movimentos tectónicos compressivos da Orogenia Varisca. A primeira fase de deformação é considerada como tendo ocorrido no Devónico Médio (390 a 370 Ma), enquanto a segunda é atribuída ao Carbónico.

Em Barrancos, o primeiro episódio está assinalado pela presença de dobras tombadas vergentes para oeste, com flancos inversos laminados por cavalgamentos, e clivagem xistenta associada. Quanto ao segundo episódio, está marcado por dobras apertadas com clivagem associada bem desenvolvida, subvertical ou inclinada para nordeste, responsável pela estruturação tectónica regional. As rochas sofreram também transformação metamórfica, materializada por recristalização mineralógica muito incipiente (fácies clorítica), com formação de sericite e clorite.

Estes dois locais na zona de Barrancos são uma pequena amostra do enorme valor geológico dos afloramentos do Paleozoico que podem ali ser visitados. Uma viagem aos mares do Silúrico com uma jazida de graptólitos da Biozona de Parakidograptus acuminatus do Rhuddaniano que constitui a primeira prova real, e única até ao momento, da existência da base do Silúrico em Portugal. 

Fonte:

https://www.researchgate.net/publication/295918530_Roteiro_Geologico_do_Parque_de_Natureza_de_Noudar_Zona_de_Ossa_Morena_Barrancos_Portugal/download

One thought on “Nos mares do Silúrico (Barrancos)

Add yours

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s

Site no WordPress.com.

EM CIMA ↑

%d bloggers like this: