Murtinheira – GSSP do Bajociano

Um dos principais objetivos da cronostratigrafia (um dos ramos da estratigrafia) relaciona-se com a reconstituição da História geológica da Terra e a correlação dos principais eventos que ocorrerem em diferentes locais do planeta.

A datação dos principais acontecimentos que ocorreram no passado da Terra é um especto essencial para elaborar escalas, baseadas nas propriedades litológicas, paleontológicas ou magnéticas das rochas, minerais e fósseis. A elaboração de uma tabela cronoestratigráfica com base na litostratigrafia e no conteúdo fóssil das diferentes rochas permitiu aos geólogos condensar os principais acontecimentos da História da Terra. Com o desenvolvimento de métodos de datação radiométrica e da magnetostratigrafia, foi possível datar com maior precisão a formação de muitas rochas e atribuir uma idade absoluta às divisões da tabela cronoestratigráfica. Esta encontra-se em permanente atualização. A tabela cronoestratigráfica é composta pela sobreposição de unidades cronostratigráficas (corpos rochosos, que se formaram em intervalos específicos do tempo geológico) e unidades geocronológicas (unidades de tempo geológico durante a qual as unidades cronostratigráficas se formaram), Foto 1.

Mondego a

Foto 1 – Os geólogos do século XIX tentaram criar uma escala que pudesse ter valor em qualquer parte do planeta, isto é, que os acontecimentos que essa escala retratasse pudessem ser reconhecidos em qualquer parte do mundo. Mas, na realidade, nenhum acontecimento (evento) geológico ocorre ao mesmo tempo em todo o planeta. Muitos dos eventos geológicos apenas assumem um carácter local ou regional e não um carácter universal. A escala do tempo relativo é representada pelas diferentes etapas em que se pode dividir o tempo geológico. Estas divisões baseiam-se nas relações entre os estratos e o seu conteúdo fóssil. Uma unidade cronostratigráfica é constituída por um conjunto de materiais estratificados que se diferem pela idade. A idade limite entre as diferentes divisões tem sempre um erro associado à medição radiométrica. As inversões de polaridade são também usadas na cronostratigrafia, em particular no Mesozoico superior e nas rochas do Cenozoico, pois foi elaborada uma escala das inversões magnéticas. É frequente os investigadores associarem outros métodos de datação complementarem com a magnetostratigrafia, como por exemplo a datação radiométrica e a biostratigrafia.

A idade limite entre as diferentes divisões tem sempre um erro associado à medição radiométrica. As inversões de polaridade são também usadas na cronostratigrafia, em particular no Mesozoico superior e nas rochas do Cenozoico, pois foi elaborada uma escala das inversões magnéticas. É frequente os investigadores associarem outros métodos de datação complementarem com a magnetostratigrafia, como por exemplo a datação radiométrica e a biostratigrafia.

Andar – unidade básica da cronoestratigrafia

O Andar é considerado a unidade básica da cronostratigrafia e é a hierarquia mais baixa que pode ser reconhecida numa escala cronoestratigráfica. Esta divisão inclui todas as rochas formadas numa unidade específica. A divisão entre os Andares é definida pelo limite dos estratotipos (secções no registo estratigráfico que evidenciam uma deposição contínua, de preferência marinha e que são usados para correlação global), Foto 2.

Mondego a1

Foto 2 – A designação de Andar deriva normalmente da localização geográfica do estratotipo. Cada Andar cuja designação termina em “ano” ou “iano” é definido numa dada região a partir do perfil um representativo, sem hiatos, lacunas ou discordâncias significativas. Para cada unidade cronoestratigráfica existe uma unidade geocronológica equivalente com a mesma designação, correspondendo esta ao tempo que foi necessário, por exemplo, para uma sedimentação de um conjunto de materiais rochosos Este equivalente geocronológico do Andar é a Idade. Quando num determinado local podemos estabelecer o limite inferior de um andar, define-se estratotipo de limite dessa unidade cronostratigráfica. Com base no estudo do enorme conteúdo fossilífero que podem ser encontradas em determinados locais, como no caso da Murtinheira (Serra da Boa Viagem – Figueira da Foz), associado a dados litológicos e magnetoestratigráficos, é possível definir o limite inferior do anda (estratotipo – limite).

GSSP do Bajociano – Murtinheira

O GSSP (Global Boundary Stratotype Section and Point) do Bajociano foi definido no limite inferior da camada AB11, de acordo com os dados bioestratigráficos baseados no registo de Ammonoidea, mais concretamente com base na primeira ocorrência de uma associação contendo representantes de Hyperlioceras – H. mundum e espécies relacionadas (H. furcatum, Braunsina aspera, B. elegantula), as quais se referem à Biozona Discites, e pelas últimas ocorrências de representantes de Graphoceras e Haplopleuroceras, Foto 3.

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Foto 3 – O perfil da Murtinheira localiza-se a norte do Cabo Mondego na região NW da Bacia Lusitaniana. Integra uma sucessão jurássica de idade Neotoarciano-Caloviano – Formação de Cabo Mondego e representa, em termos deposicionais, uma fase de sedimentação calma e monótona, típica de séries de ambiente marinho externo. A sucessão do Cabo Mondego é muito importante em termos paleontológicos e estratigráficos, pois apresenta um registro praticamente contínuo de associações de amonoides susceptíveis de definirem o quadro bioestratigráfico completo da Bacia Lusitaniana para o Jurássico Médio. A presença de representantes de Ammonoidea com afinidades norte-europeias e mediterrânicas traduz-se em um acréscimo significativo do seu potencial para efeitos de associação à escala suprabacinal.

O perfil da Murtinheira que, por sua vez, está inserido na sucessão do Cabo Mondego, constitui um perfil de referência do sector norte da Bacia Lusitaniana, dada a singular representatividade do registro estratigráfico e as excepcionais condições de observação dos materiais aflorantes, facto que levou ao estabelecimento do primeiro estratotipo limite do Sistema Jurássico pela IUGS em 1996 – o GSSP do Bajociano – com base no registro de associações de amonoides e nanofósseis calcários e na magnetostratigrafia, Foto 4.

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Foto 4  – O GSSP do Bajociano (a seta marca a base da camada AB11, definida como o limite inferior daquele estratotipo de andar).

Par estudar a História geológica de uma região é necessário medir as idades dos principais acontecimentos geológicos e assim reconstituir a História da Terra ao longo dos diferentes períodos da escala do tempo geológico. Com base na datação das rochas, os geólogos elaboraram uma tabela cronostratigráfica com diversas divisões. Recorrem a unidades geocronológicas, pois referem-se a intervalos de tempo. Esta tabela cronostratigráfica é regularmente atualizada, de modo a incluir as novas descobertas.

Referências bibliográficas:

HENRIQUES, M. H. Bioestratigrafia e Paleontologia (Ammonoidea) do Aaleniano em Portugal (Sector Setentrional da Bacia Lusitaniana). 1992. 301 f. Tese (Doutorado) – Universidade de Coimbra, Portugal, 1992.

HENRIQUES, M. H. Cabo Mondego, Monumento Natural. Geonovas, v. 21, Lisboa, p. 3-4, 2008.

HENRIQUES, M. H.; CANALES, M. L.; MAGNO, C. Dia 2. Paragem 2B: Fáceis distais de rampa carbonatada (sag 1º rifte): Jurássico Médio. In: PENA DOS REIS, R.; PIMENTEL, N.; GARCIA, A. (Eds.) Curso de Campo na Bacia Lusitânica (Portugal). Coimbra, 2008.

 

 

 

 

 

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