Sinclinal de Sátão (Viseu)

A região de Sátão, localiza-se no centro de Portugal e está inserida na Zona Centro-Ibérica, Foto 1. Do ponto de vista estratigráfico o estreito e segmentado sinclinal de Sátão insere-se numa sequência metassedimentar do Ordovícico, Carbonífero e Silúrico que aflora ladeado por manchas do Supergrupo Dúrico Beirão (Grupo do Douro), vulgarmente conhecido por  Complexo Xisto-Grauváquico.  O conjunto metassedimentar é intruído por granitóides Variscos tardi-D3 (maciços de Castro Daire e de Tabuaço) e tardi a pós-D3 (maciço de Penedono).

Foto 1a

Foto 1 – Sinclinal de Sátão, onde está representada a sequência paleozóica. Do ponto de vista tectónico, a estruturação Varisca no sector é polifásica sendo possível distinguir três fases de deformação dúctil e a atuação da deformação frágil tardi-Varisca. A 1ª fase é responsável pelo sinclinal de Satão.  Sinclinal é uma dobra com as rochas mais modernas a ocuparem o núcleo.

Carbonífero

A estreita zona de Carbónico que atravessa a região de Castro Daire de NW para SE, é interrompida, pelos maciços graníticos do complexo de Castro Daire. Esta zona (representa a zona axial, de um longo sinclinal que vai de Valongo a Sátão. Grande parte dos afloramentos, Foto 2,  são formados por rochas conglomeráticas deformadas, metaconglomerados. A mais extensa faixa carbonífera portuguesa é denominada faixa dúrico-beirã. Prolonga-se desde S. Pedro da Cova (Gondomar) até Queiroga (Sátão), interrompida pelo granito de Castro Daire.

Foto 2 –   Conglomerados polimíticos, contendo calhaus angulosos ou rolados, e blocos de vários tipos de rochas, numa matriz greso-xistosa. Os fragmentos maiores chegam a atingir 80 cm de comprimento. Os conglomerados são mal calibrados e a sua granularidade varia de local para local. Os clastos compreendem quartzitos erodidos da base do Ordovícico (maioria dos quartzitos), xistos argilosos, filitos e xistos, derivados do Ordovícico e outras litologias do Grupo do Douro. Ocorrem também clastos possivelmente do Silúrico e de  granitos e granodioritos de grão médio sin-tectónicos.

Silúrico (?)

Estudos relativamente recentes realizados no Sinclinal de Sátão referem a existência de litologias de idade Silúrica, Foto 3. A passagem do Ordovícico ao Silúrico é marcada por uma importante descontinuidade estratigráfica, que vários autores relacionam com acontecimentos glacio-eustáticos erosivos do final do Ordovícico. O Silúrico é bastante uniforme em toda a Zona Centro- Ibérica e caracteriza-se pela presença de xistos negros com graptólitos com intercalações de quartzitos (arenitos metamorfizados).

A estruturação da ZCI resultou essencialmente da deformação associada à Orogenia Varisca, estando fracamente representadas as estruturas relacionadas com episódios de deformação mais antigos. A deformação varisca é polifásica, sendo reconhecidas três fases principais de deformação dúctil, designadas por D1, D2 e D3.  A 1ª fase de deformação (D1) afetou toda a sequência sedimentar pré-carbonífera, provocando a formação de dobras de escala quilométrica, com plano axial sub-vertical e xistosidade associada (S1), com direção geral NW-SE, Foto 3.

Foto 3 – Dobras na Formação do Alto do Homem. Tratam-se de litologias metapsamopelítica (rocha metamórfica derivada de um arenito) de idade Silúrica e com presença de Skolithos. Os skolithos são marcas orgânicas com a forma de tubos cilíndricos com diâmetros raramente superiores a 1 cm. Dispõem-se perpendicularmente à superfície de estratificação.

Ordovícico

Na ZCI, o Ordovícico tem carácter discordante e transgressivo sobre o Grupo do Douro (Complexo Xisto- Grauváquico). O Ordovícico Inferior é constituído por uma unidade basal de camadas vermelhas (conglomerados não fossilíferos, grauvaques ou uma alternância de pelitos e arenitos), datada do Tremadociano ou Arenigiano, sobre a qual assenta o Quartzito Armoricano (Arenigiano). Os quartzitos do Ordovícico, com traços fósseis de Cruziana e Skolithos, formam espessas bancadas que imprimem relevos vigorosos a muitas das paisagens da Zona Centro-Ibérica.

Os estratos do Ordovícico ocorrem num sinclinal que atravessa a região de Castro Daire sendo esta Fomação dividida em duas unidades. Uma unidade basal constituída por quartzitos e outra superior formada por xistos argilosos escuros. A unidade inferior apresenta quartzitos brancos , muito puros e em alguns locais é possível observar bilobites (cruziana) , Foto 4.

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Foto 4  – A D1 é a única fase de deformação com características regionais. Afecta as sequências do Grupo do Douro (CXG) e do Ordovícico da região e deu origem a dobras de orientação NW-SE e a uma xistosidade de plano axial subvertical (S1), muito penetrativa. A principal macro-estrutura desta fase é o Sinclinal de Porto-Sátão, parcialmente conservado e modificado pela atuação das fases de deformação posteriores.

Grupo do Douro

Em Portugal, os terrenos pré-Ordovícicos foram agrupados por inicialmente  num conjunto que designou como “Formação Xistosa das Beiras” que veio a ser denominado na década de 50 do século passado como “Complexo Xisto-Grauváquico ante-Ordovícico” (CXG). A idade do CXG não é conhecida com exatidão, devido à ausência generalizada de macrofósseis. Admite-se actualmente que as unidades inferiores possam corresponder ao Precâmbrico Superior e as unidades superiores ao Câmbrico, o que é suportado por dados de microfósseis, de icnofósseis e de idades U-Pb em zircões detríticos. Recentemente o CXG que aflora no território português foi subdividido em dois grandes grupos, correspondendo a domínios paleogeográficos distintos, o Grupo das Beiras e o Grupo do Douro, Foto 5.

Foto 5 – Afloramentos do Grupo do Douro (CXG). O CXG é constituído dominantemente por metapelitos com intercalações centimétricas de metagrauvaques, embora, na parte sul da região, também ocorram alguns níveis de rochas calcossilicatadas. A sequência ante-ordovícica foi afectada pelo metamorfismo regional varisco e, posteriormente, pelo metamorfismo de contacto, associado aos granitos tardi-pós- cinemáticos de Castro Daire e Cota-Viseu, pelo que nas imediações destas intrusões as rochas estão transformadas em xistos mosqueados e corneanas.

O Grupo das Beiras é formado por um conjunto rítmico de grande espessura (6 a 7 km) em que alternam metapelitos e metagrauvaques ricos em quartzo. Esta unidade tem sido interpretado como uma sequência turbidítica depositada, em condições de instabilidade tectónica, numa bacia que terá ocupado toda a Zona Centro-Ibérica durante o Vendiano terminal (Proterozóico Superior). O Grupo do Douro é mais heterogéneo, sendo constituído por unidades arenítico-pelíticas, em que se intercalam pelitos com magnetite, níveis calcários e conglomeráticos. Esta formação tem uma idade câmbrica.

A região de Sátão localiza-se no centro de Portugal Continental e está inserida na Zona Centro-Ibérica (ZCI). A área descrita neste post é composta maioritariamente por metassedimentos de idade proterozóica superior a câmbrica inferior do Super Grupo Dúrico-Beirão, dobrados e metamorfizados durante a orogenia varisca. Estas rochas foram intruídas por granitóides variscos sin- e tardi-pós-tectónicos, representados na área pelos maciços de Sátão, Cota e Aguiar da Beira. Não foram aqui abordados os acontecimentos relacionados com as intrusões magmáticas, ficando este tema para uma futura publicação. Relativamente aos granitos variscos pode ser consultado o post “Granitóides variscos, Classificação“.

Referências Bibliográficas: 

ESTEVES, A.F. (2006) – As rochas metamórficas da região de Viseu. Tese de Mestrado Universidade de Aveiro, Aveiro.

ESTEVES, A.F., VALLE AGUADO, B., MARTÍNEZ CATALÁN, J. R., AZEVEDO, M.R. (2008) – Deformação polifásica varisca na região da Cavernães, norte de Viseu (Zona Centro-Ibérica). 8ª Conferência Anual do GGET, Memória nº 3 do Departamento de Geologia da Faculdade de Ciências da Universidade do Porto.

 

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