Cidades de Informação Geológica – Viseu

Do ponto de vista geológico, a região de Viseu localiza-se nos terrenos autóctones do Maciço Ibérico, o qual representa o segmento mais ocidental da Cadeia Varisca Europeia.

Esta zona é composta por rochas com idades compreendidas entre o Proterozóico Superior e o Carbonífero Superior, variavelmente deformadas e metamorfizadas durante a orogenia varisca e por um grande número de intrusões graníticas, cuja instalação está relacionada com as últimas fases de deformação varisca, Foto 1.

Geologia Urbana (Viseu) A

Foto 1 – Sé de Viseu edificada com granito de Cota-Viseu. Ao chegar ao adro da Sé, o visitante depara-se com a majestosa fachada delimitada por duas robustas torres sineiras (em granito), uma de construção medieval e a outra reconstruída no século XVII, após ter sido derrubada por um violento temporal. Entre elas, ergue-se o corpo central como um magistral retábulo de pedra, registo sobre registo, onde se distribuem seis nichos que albergam as esculturas representando os quatro Evangelistas, São Teotónio, padroeiro da Sé, e coroando o conjunto, a Senhora da Assunção. Ao centro, o portal de arco abatido convida a entrar.

Sé de informação geológica

Esta zona é composta por rochas com idades compreendidas entre o Proterozóico Superior e o Carbonífero Superior, variavelmente deformadas e metamorfizadas durante a orogenia varisca e por um grande número de intrusões graníticas, cuja instalação está relacionada com as últimas fases de deformação varisca, Foto 1.  Em termos estratigráficos, a ZCI é caracterizada pela predominância de formações do Proterozóico Superior – Câmbrico Inferior, que constituem um espesso conjunto metassedimentar, conhecido na literatura como Complexo Xisto-Grauváquico (CXG). Sobre os materiais ante-ordovícicos, assentam em discordância as camadas do Ordovícico às quais se seguem as formações do Silúrico e, pontualmente, do Devónico Inferior. As sequências do Paleozóico Superior estão, em geral, mal representadas na ZCI, confinando-se a raros depósitos de molassos continentais do Carbonífero Superior que marcam o final da Orogenia Varisca neste sector do Maciço Ibérico.

Todas as sequências pré-carboníferas da ZCI foram afetadas pela deformação varisca. Embora exista ainda alguma controvérsia sobre o número, a natureza e a idade das diferentes fases de deformação varisca, a maioria dos autores considera que a estruturação da ZCI resultou da actuação de três fases de deformação principais (D1, D2 e D3).

A primeira fase de deformação (D1) é responsável por grande parte da estrutura actual da ZCI e deu origem a dobras deitadas e carreamentos sub-horizontais, com vergência para E e NE, no sector setentrional, dobras com plano axial vertical ou muito inclinado no sector central e dobras com vergência para SW, no domínio meridional. Às dobras D1 associa-se sempre uma xistosidade de plano axial (S1) muito penetrativa. Já a segunda e terceira fases de deformação variscas (D2 e D3) têm um carácter mais heterogéneo. A D2 afecta principalmente sequências metamórficas de grau médio a alto e está relacionada com zonas de cisalhamento sub-horizontais, enquanto a D3 é homoaxial com a D1 em extensos sectores da ZCI. A D3 está associada a zonas de cisalhamento transcorrentes sub-verticais de escala crustal, direitas e esquerdas, como é o caso das Zonas de Cisalhamento Porto-Tomar (ZCPT), Juzbado-Penalva do Castelo (ZCJPC) e Douro-Beira (ZCDB). Por último, um sistema de fracturação tardia (D4) marca os últimos estádios da orogenia varisca, dando origem a falhas com orientações variando entre NE-SW e NNE-SSW.

Atividade magmática

Na ZCI, a actividade magmática ligada à orogenia varisca é testemunhada pela ocorrência de abundantes volumes de rochas granitóides, cuja instalação está predominantemente relacionada com a terceira fase de deformação varisca (D3). De acordo com as suas relações com a terceira fase de deformação varisca (D3), os granitóides variscos da ZCI têm sido subdivididos em dois grandes grupos: os granitóides sin-D3 e os granitóides tardi-pós-D3.

Os granitóides sin-D3 formam complexos batolíticos, concordantes com as estruturas regionais e incluem duas séries composicionalmente distintas, granitos peraluminosos de duas micas e pequenos corpos de granitos e granodioritos biotíticos. Em contraste, os granitos tardi-pós-D3 constituem maciços discordantes, de dimensões variáveis, frequentemente zonados e envolvidos por auréolas de metamorfismo de contacto. São normalmente compostos por granitóides biotíticos ou biotítico-moscovíticos, de tendência ligeiramente peraluminosa a fortemente peraluminosa, aos quais muitas vezes se associam rochas de composição básica e intermédia.

O granito de Cota-Viseu constitui um maciço de forma irregular abrangendo uma área com cerca de 75 km por 35 km de extensão, na parte central do Batólito das Beiras, Foto 1. Define contactos intrusivos com o plutonito de Junqueira, a oeste, e é intruído pelo granito porfiróide biotítico-moscovítico de Alcafache na porção mais interna do batólito, Foto 2.

Geologia Urbana (Viseu)-5

Foto 2 – Detalhe do Granito de Viseu usado na construção da Sé desta cidade. Trata-se de um granito porfiróide biotítico de grão médio a grosseiro, que não apresenta evidências petrográficas de deformação no estado sólido, exceptuando nas proximidades de algumas falhas, possivelmente ligadas à sua própria intrusão, o que corrobora o seu carácter tardi- a pós–tectónico relativamente ao último evento de deformação dúctil de idade varisca (D3). A datação de zircões e monazites pelo método U-Pb aponta para uma idade de instalação de 306 Ma para esta intrusão.

Em estreita associação espacial com o granito de Cota-Viseu, ocorrem pequenos corpos intrusivos de rochas básicas e intermédias (gabronoritos, monzodioritos, monzodioritos quártzicos e granodioritos), definindo frequentemente contactos lobados ou interdigitados com o granito. Estas relações sugerem uma instalação síncrona para as diferentes unidades e um envolvimento significativo de processos de mistura de magmas (hibridização) na sua formação, Foto 3.

 

Foto 3 – Aspectos que podem ser observados numa visita à volta da Sé de Viseu. Aspectos petrográficos do granito e também aspectos relacionados com a geodinâmica externa. O granito apresenta megacristais de feldspato, com dimensões médias de 5 cm, podendo atingir ocasionalmente tamanhos de 12 cm. Os megacristais estão orientados, definindo uma foliação de fluxo magmático. É frequente encontrar neste granito encraves microgranulares máficos de composição dominantemente tonalítica, cuja presença reforça a hipótese de terem ocorrido processos de mistura de magmas durante a sua génese.

O granito de Cota-Viseu apresenta uma textura fanerítica, hipidiomórfica, porfiróide, de grão médio a grosseiro, sem fortes evidências de deformação no estado sólido. A rocha é caracterizada por uma associação mineralógica composta por quartzo, feldspato potássico, plagioclase, biotite, apatite, zircão, monazite e opacos. O carácter porfiróide deste granito é conferido pela presença de megacristais de feldspato, com comprimentos variando entre 5 e 12 cm.

Tal como no caso do Granodiorito de Mosteirinhos e devido à presença de rochas com composições dominantemente granodioríticas e monzograníticas, associadas a termos mais básicos (gabros, dioritos, monzodioritos, tonalitos), típicas de associações magmáticas híbridas, estas rochas terão sido formadas pela interacção física e química entre líquidos máficos de origem mantélica e fundidos félsicos de anatexia crustal em ambientes orogénicos colisionais. No caso dos granitos de Viseu-Cota ocorreu um importante envolvimento de processos de mistura de magmas na génese destas rochas, mas não exclui a eventual contribuição de mecanismos de cristalização fraccionada. 

Bibliografia consultada

Esteves, A. (2006) – As rochas metamórficas da região de Viseu. Tese de Mestrado. Aveiro: Departamento de Geociências, Universidade de Aveiro.

Esteves, A.F., Valle Aguado, B. & Azevedo, M.R. (2006). Metamorfismo Barroviano Varisco na Zona Centro-Ibérica: Novas Evidências na Cintura Metamórfica de Porto-Viseu. Livro de Resumos do VII Congresso Nacional de Geologia, Estremoz.

 

2 thoughts on “Cidades de Informação Geológica – Viseu

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    1. Muito Obrigado Carlos. Gostei muito do teu comentário. Tento simplificar a linguagem para professores e “adeptos da geologia”como eu sem cometer erros científicos. São apontamentos que vou colocando aqui e servem quase de “sebenta” quando estou em formações com outros colegas. No fundo a base são os trabalhos de investigadores mas simplificados. Sempre me fez confusão a explicação para a Orogenia Varisca com muitos dados que são necessários para uma tese de doutoramento mas para quem quer compreender a História Geológica de Portugal (sobretudo a Paleozoica) há caminhos mais simples. Muito do que escrevo aqui é o resultado do que vou ouvindo de excelentes geólogos portugueses em formações de professores no “campo”. Pena que depois e livro exista o receio da simplificação. O blogue tem esta função (com dias melhores… e outros piores). O Facebook não permite esta abordagem. Abraço.

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