Migmatitos de Viseu

A região do Mundão, no concelho de Viseu, integra-se em termos geotectónicos na Zona Centro Ibérica (ZCI). Esta área apresenta grande diversidade em rochas migmatíticas, formadas em condições de ultrametamorfismo, a elevadas pressões e temperaturas, na sequência de fusão parcial de um protólito formado por rochas metapelíticas e metagrauvacóides do Grupo do Douro, do Neoproterozóico, durante a orogenia Varisca, nomeadamente nos estádios finais do engrossamento crustal (D1), com continuação durante a tectónica extensional (D2) e transcorrente (D3) subsequentes, Foto 1.

Ortognaisses AAA

Foto 1 –  Os  estudos geológicos na região do Mundão permitiram verificar que o bandado migmatítico é a estrutura dominante nas rochas do Complexo Migmatítico do Mundão (CMM) e  que estas litologias podem ser subdivididas em duas categorias principais com base em critérios texturais: metatexitos e diatexitos. Os metatexitos e os diatexitos ocorrem em íntima relação espacial, embora seja possível delimitar áreas de escala cartográfica onde predominam um ou outro tipo. As evidências de campo indicam que a idade do CMM é mais antiga do que a dos granitóides sin-D3.

Migmatitos

Segundo a classificação de Sawyer, os migmatitos podem dividir-se, em termos de morfologia de 1ª ordem, em metatexitos e diatexitos.

Um metatexito é um migmatito heterogéneo à escala do afloramento, cujas estruturas coerentes anteriores à fusão parcial são claramente preservadas no paleossoma, onde as microestruturas se mantêm inalteradas . Um diatexito, por seu turno, é um migmatito em que o neossoma é dominante e em que o fundido foi profusamente distribuído por todo o volume do migmatito. As estruturas anteriores à fusão parcial estão ausentes do neossoma, pois geralmente são substituídas por estruturas de fluxo sinanatético (foliação magmática ou submagmática, schlieren) ou por neossoma isotrópico. O neossoma tem aparência variável, reflectindo uma grande diversidade na proporção de líquido, numa gama desde predominantemente leucocrata a predominantemente melanocrata. O paleossoma ocorre em fragmentos pequenos, podendo estar ausente.

Metatexitos

Os metatexitos correspondem a migmatitos produzidos por baixos graus de fusão parcial, em que as características da rocha original estão preservadas, Foto 2.

Metatexitos (legenda)

Foto 2 -Migmatito metatexítico estromatítico do Mundão. Um metatexito é um migmatito heterogéneo à escala do afloramento, cujas estruturas coerentes anteriores à fusão parcial são claramente preservadas no paleossoma, onde as microestruturas se mantêm inalteradas .

Em Mundão, os metatexitos apresentam um “layering” composicional bastante regular, paralelo à xistosidade S2, conferido pela alternância de níveis pelíticos ou semi-pelíticos escuros com leitos quartzo-feldspáticos.

Diatexitos

Os diatexitos foram  gerados por altas taxas de fusão, com as estruturas pré-migmatização são quase completamente destruídas. Os diatexitos da região do Mundão contêm proporções variáveis de fundido (leucossoma) e de material refractário (melanossoma), embora o leucossoma predomine claramente sobre o melanossoma nas rochas do sector oriental da área, Foto 3.

Ortognaissses (esquema).jpg

Foto 3 – Migmatito diatexítico (ortognaisses migmatizados) com evidência de dobras assimétricas no domínio do leucossoma.

Génese dos migmatitos e das rochas granitóides

Durante a D1, os metassedimentos pre-carboníferos foram afetados por metamorfismo regional prógrado (de tipo Barroviano) como consequência do espessamento crustal, atingindo as condições para o início da fusão parcial de litologias férteis da crusta. Segui-se uma fase extensional (D2) que conduziu ao adelgaçamento da crusta e à exumação do orógeno. O regime de descompressão, praticamente isotérmica, que caracteriza a D2 permitiu que os processos de fusão parcial, envolvendo reações de desidratação da biotite, tenham produzido maiores quantidades de líquidos anatécticos, Foto 4.

Ortognaissses (D1 e D2)

Foto 4  – O clímax de metamorfismo regional, acompanhado por intensa migmatização, é atingido durante a fase D2 . Com efeito, os dados estruturais obtidos nas áreas migmatíticas do antiforma de Porto-Viseu indicam uma estreita relação temporal entre o evento extensional D2 e os processos anatécticos de níveis médios da crusta continental. A evolução tectono magmática do sector centro-norte da ZCI pode ser interpretada num contexto de re estabelecimento da espessura normal da litosfera continental, depois do seu engrossamento durante o levantamento da cadeia varisca. Ao longo do processo, os fenómenos de metamorfismo, deformação e magmatismo parecem ter estado intimamente associados, influenciando-se mutuamente.

No início da D3, o volume de fundidos crustais já seria suficientemente grande, entre 15 a 35% para que pudesse ocorrer a sua separação do resíduo sólido. Assim, durante a tectónica transcorrente D3,dá-se a ascensão, diferenciação e consolidação de abundantes quantidades de magmas graníticos, fortemente peraluminosos e isotopicamente evoluídos (tipo-S), que vêm a originar enormes batólitos de leucogranitos de duas micas, como o de Junqueira, Foto 5.

Granito de Junqueira (Final).jpg

Foto 5 – Granito de Junqueira sin-D3. É um granito de duas micas, porfiróides e não porfiróides, de grão médio a grosseiro, mostrando frequentemente evidências de deformação no estado sólido.

Alguns granitoides representados na Foto 1, tiveram a sua instalação, nomeadamente a do maciço de Junqueira (granitóides de duas micas peraluminosos), durante a atuação da zona de cisalhamento dextra de Porto-Tomar.

Em paralelo, o manto litosférico, mais denso que a astenosfera, destabiliza e separa-se da crusta (delaminação), Foto  6. À medida que porções do manto litosférico mergulham, o material astenosférico ascende, perde pressão e sofre fusão parcial, gerando líquidos de composição basáltica.

Foto 6 – Rochas básicas e intermédias (gabronoritos, monzodioritos, monzodioritos quártzicos e granodioritos) resultantes da intrusões de magmas máficos.

A intrusão destes magmas máficos na interface crusta-manto (“underplating”) desempenha um papel fundamental na produção de granitóides. Por um lado, o alto fluxo calorífico que lhes está associado permite que as rochas da crusta inferior, com temperaturas de fusão mais altas, comecem a fundir. Por outro, favorecem a ocorrência de processos de interação química e/ou mecânica, de extensão variável, entre líquidos mantélicos e crustais (“mixing/mingling”), Foto 6.

Rochas Básicas

Foto 6 –  Afloramento de rochas máficas/intermédias de Torredeita.

No final da D3, Foto 7,  com a progressiva substituição do manto litosférico pela astenosfera, mais quente, diminui a densidade da coluna litosférica e ocorre o levantamento isostático e exumação da crusta. A fusão por descompressão da astenosfera gera quantidades cada vez maiores de líquidos básicos que hibridizam com os fundidos félsicos crustais, em proporções varíáveis, e produzem magmas metaluminosos a ligeiramente peraluminosos, de afinidade calco-alcalina. A ascensão destes magmas terá tido lugar nos últimos estádios da deformação transcorrente e a sua instalação no nível crustal final ocorre após a D3, dando origem aos inúmeros maciços compósitos de granitóides biotíticos híbridos tardi-póscinemáticos, presentes no batólito das Beiras como é o caso do maciço de Cota-Viseu.

Granito cota

Foto 7 – Granito de Cota-Viseu (tardi-pós-D3). É frequente encontrar neste granito encraves microgranulares máficos de composição dominantemente tonalítica, cuja presença reforça a hipótese de terem ocorrido processos de mistura de magmas durante a sua génese. Trata-se de um granito porfiróide biotítico de grão médio a grosseiro, que não apresenta evidências petrográficas de deformação no estado sólido, exceptuando nas proximidades de algumas falhas, possivelmente ligadas à sua própria intrusão, o que corrobora o seu carácter tardi- a pós–tectónico relativamente ao último evento de deformação dúctil de idade varisca (D3). A datação de zircões e monazites pelo método U-Pb aponta para uma idade de instalação de 306 Ma para esta intrusão.

O batólito das Beiras, explorado neste post, pode assim ser considerado seu conjunto, um exemplo representativo de quase todo o espectro de litologias graníticas associadas aos principais ciclos de atividade varisca. Tendo em conta os dados estruturais, petrológicos e geocronológicos obtidos em diferentes afloramentos, é possível compreender a natureza dos protólitos envolvidos na sua génese e o tipo de condições e processos que controlaram a sua formação e subsequente evolução.

Fontes consultadas: 

AGUADO, B. V.; AZEVEDO, M. R.; SANTOS, J. F.; NOLAN, J. (2010). O Complexo Migmatítico de Mundão (Viseu, norte de Portugal). Revista Electrónica de Ciências da Terra. ISSN 1645-0388, Volume 16 – nº 9.

Azevedo, M.R; Valle Aguado, B. (2006) – Origem e instalação de granitoides variscos na
Zona Centro-Ibérica

SAWYER, E. W. (2008). Working with migmatites: Nomenclatura for the constituent parts. In: Sawyer, E.W. & Brown, M. (Edt.), Working with Migmatites, Mineralogical Association of Canada Short Course

 

 

 

 

 

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