Erupções hidromagmáticas

As erupções hidromagmáticas envolvem a interação direta entre o magma e uma fonte de água externa, que poderá ser um corpo superficial ou um aquífero, facto que se reflete na transferência de energia térmica do magma para a energia cinética da mistura de fluido e piroclastos. A eficiência do processo determina o desenvolvimento do fenómeno, potenciando uma maior fragmentação e consequente produção de depósitos vulcânicos com características particulares – hialoclastitos.

A erupção dos Capelinhos (1957/58), nos Açores, foi uma das primeiras a despertar interesse da vulcanologia para este mecanismo explosivo (explosão hidromagmática), o qual foi caracterizado pela elevada eficiência da conversão da energia térmica em energia cinética.

 Açores 1957

O arquipélago vulcânico dos Açores situa-se no oceano Atlântico, numa região tectonicamente complexa, esquematicamente representada na Figura 1.

Capelinos

Figura 1 – De um modo geral a característica da lava emitida em meio aquático é o desenvolvimento na superfície da lava em contacto com a água, de empolamentos recobertos por vidro vulcânico, sendo denominadas de lavas em almofada (pillow-lavas). As lavas em almofada estão relacionadas que com erupções subaquáticas, quer a escoadas ligadas a uma erupção aérea que penetram no mar ou num lago. O elemento típico e caracterizador de uma erupção subaquática é a presença de hialoclastitos, os quais se formam por choque térmico da lava em contacto com a água associado a fenómenos explosivos (devidos à libertação de vapor produzido pela água que fica cativa na escoada). Tal explosão é acompanhada pela formação de escórias amarelas e de granulometria fina com fragmentos de vidro. Os hialoclastitos encontram-se em geral associados às lavas em almofada.

O vulcão dos Capelinhos, na ilha do Faial, entrou em erupção em setembro de 1957. A atividade vulcânica foi antecedida de uma série de abalos sísmicos premonitórios e, no dia 26, diversas falhas permitiram a ascensão de magma, observando-se os primeiros sinais da erupção na superfície do mar.

Até maio de 1958, a atividade do vulcão foi predominantemente hidromagmática, ou seja, caracterizada pela interação do magma com a água do mar, apresentando fases submarinas e fases subaéreas, Figura 2.

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Figura 2 – Um exemplo de uma erupção submarina é o caso da erupção dos Capelinhos  na ilha do Faial (Açores).  Esta erupção a fraca profundidade é marcada pela presença à superfície de colunas  de vapor carregadas de cinzas e blocos em forma de “cipreste”. Os piroclastos ao cair, vão formar um cone mais largo que alto, com uma larga cratera central, dinamismo tipicamente estromboliano e com a emissão na fase tardia de escoadas lávicas. Há quem refira como tipo “Surtsey”, quando temos uma fase basal hialoclastitica, seguida de uma fase escoriácea estromboliana com emissões lávicas terminais ou laterais. Quando a profundidade do mar é maior, o cone de hialoclastitos é baixo mas relativamente largo, não emergindo, podendo formar uma montanha submarina – “seamount”.

Na noite de 12 para 13 de maio de 1958, ocorreram numerosos sismos não detetados pelas estações sismográficas internacionais, cujos danos elevados se registaram apenas numa área restrita. Pensa-se que este evento sísmico foi responsável pela alteração do comportamento do vulcão, tendo a atividade hidromagmática dado lugar a uma atividade magmática, que se prolongou até outubro de 1958.

O vulcão dos Capelinhos ainda se pode considerar único no Mundo das Ciências Vulcanológicas, nomeadamente por ter sido fotografado, observado, estudado e interpretado desde o respectivo início até ao «adormecimento», em calma tarde de 24 de outubro de 1958.

Fontes consultadas:

J. Pacheco, «Processos associados ao desenvolvimento de erupções vulcânicas hidromagmáticas explosivas na ilha do Faial e sua interpretação numa perspetiva de avaliação do hazard e minimização do risco», Departamento de Geociências da Universidade dos Açores, 2001

N. Correia – Efeitos locais e globais do vulcanismo. Trabalho de Seminário. FCL, 1990.

 

4 thoughts on “Erupções hidromagmáticas

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  1. Uma dúvida mantém se: a mudança de estilo de surtseiano para estromboliano a partir de 13 de maio foi causada pela crise sísmica dessa noite ou terá sido um fenómeno vulcânico que terá gerado a crise. Há que aponte a hipótese desta se relacionar com a pressão de um filão ou intrusão magmatica a encaixar sob a ilha que não chegou a abrir uma nova boca.

      1. Que eu saiba não, nem deve ser fácil, pois na época só havia um sismógrafo na Horta para se determinar os focos sísmicos e a frequência das ondas, a maior evidência foi terem ocorrido explosões freáticas no fundo da Caldeira cujas formas ainda hoje subsistem e a zona em torno desta caldeira ter ficado coberta por rocha fragmentada o que prova que pelo menos calor chegou ao aquífero subjacente a esta estrutura a quilómetros dos Capelinhos naquela noite.

      2. Mas faz sentido a hipótese colocada. Não conheço a geologia do Faial mas depois de ter lido o trabalho que faço referência no post e o teu comentário fiquei a suspeitar desta hipótese. As explosões freáticas “ajudam” a suspeitar… obrigado pelo teu contributo Carlos. Aprendi bastante a partir deste post sobre a erupção dos Capelinhos.

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