Viagem ao Maciço de Morais – 1

Episódio 1

Este é o primeiro post de uma série onde se pretende fazer uma viagem geológica ao Maciço de Morais com uma linguagem simples para alunos e docentes do Ensino Secundário. Este “primeiro episódio” tem como tema o Complexo Alóctone Inferior. Um “Complexo” designa uma unidade constituída por diversos tipos de uma ou várias categorias de rochas (sedimentares, ígneas ou metamórficas) em que a sua estrutura é tão complicada que a sucessão original dessas rochas não é decifrável. Começa bem…

Introdução

A evolução geológica do planeta obedece a ciclos de abertura e fecho de oceanos que culminam com orogenias, onde se verifica a formação de cadeias montanhosas.

A Geologia de Portugal é complexa. O nosso país encerra estruturas resultantes de episódios geológicos pertencentes a diferentes períodos Apesar de, na sua quase totalidade, a litologia albergar terrenos autóctones (material proveniente do local onde é encontrado), é possível encontrar terrenos parautóctones (com algum deslocamento do local de origem) e também terrenos alóctones (material que foi deslocado do seu local de formação. Em Trás-os-Montes encontram-se complexos alóctones com histórias geológicas diversas, que cavalgaram as unidades autóctones, Foto 1.

Foto 1

Foto 1 –  O Maciço de Morais é uma singularidade geológica. No entanto, não é um caso isolado na geologia da Península Ibérica. Em conjunto com os maciços de Cabo Ortegal, Ordenes e faixa de Malpica-Tui, da Galiza, os maciços de Bragança e Morais, do NE de Trás-os-Montes, encerram os elementos fundamentais de uma orogenia, isto é, do processo conducente à edificação de uma Cadeia de Montanhas. No caso vertente, trata-se da Cadeia Orogénica Varisca que, na Europa, se estende dos montes Urais à Ibéria.

A formação de uma Cadeia de Montanhas, a exemplo da moderna Cadeia Alpina, representa a etapa final de um ciclo geológico com duração de muitos milhões de anos (Ma). Este ciclo inicia-se com a rutura de um continente e abertura de um oceano. Enquanto perdura o oceano acumula sedimentos oriundos da erosão dos continentes que o marginam. Mas os oceanos são efémeros, têm limites de expansão e fecham, a crusta oceânica então formada é destruída e, na etapa final, os continentes que marginavam o oceano colidem. Verifica-se então a edificação da Cadeia Orogénica. Esta nova Cadeia de Montanhas engloba testemunhos de ambos os continentes, retalhos da crusta oceânica não destruída e os sedimentos acumulados na bacia oceânica, ora deformados e metamorfizados. Todos estes elementos foram amalgamados na constituição de um supercontinente.

O Maciço de Morais encontra-se, pois, conformado ao empilhamento de três unidades de envergadura litosférica (placas ou microplacas) Foto 1, separadas entre si por grandes acidentes tectónicos:

  •  Unidade Inferior (Complexo Alóctone Inferior) é representativa da margem do continente Gondwana (Ibéria na Foto 1);
  • Unidade Intermédia(Complexo Ofiolítico de Morais) representa um fragmento completo de crusta oceânica (Oceano de Galiza e Trás-os-Montes, ramo menor do oceano Rheic);
  • Unidade Superior (Complexo Alóctone Superior) consta de um fragmento completo de crusta continental, isto é, do continente situado na outra margem do oceano. Presume-se que se trata da microplaca Armórica (Terreno Exótico) um fragmento continental destacado, também, do norte do Gondwana.

Com ligeiras cambiantes de interpretação, o que hoje se conhece é que estas Unidades são fragmentos dos continentes maiores Gondwana e Laurentia-Báltica e, bem assim, do oceano Rheic, situado entre estes continentes, ou seja, as grandes placas intervenientes na Orogenia Varisca.

Unidade Inferior (CAI – Complexo Alóctone Inferior)

O Complexo Alóctone Inferior sobrepõe-se ao Complexo Parautóctone ou Domínio Peritransmontano , por um carreamento de base. É composto por uma série de unidades litostratigraficamente dissociáveis à escala cartográfica, que circundam os Maciços de Morais e Bragança, razão porque também se utiliza a designação de Unidades Centro-Transmontanas.

O Complexo alóctone inferior compreende dois conjuntos de unidades carreadas, Unidade de Pombais, superior, e Unidades Centro-Transmontanas, inferior. A sequência litostratigráfica, representativa de uma margem continental passiva, mostra a seguinte organização da base para o topo:

Complexo Alóctone Inferior (CAI)

Unidades Centrotransmontanas – (Formação Filito-quartzítica – Ordovícico superior)

O Complexo Alóctone Inferior representa uma margem continental passiva de afinidade gonduânica, cuja característica fundamental é a ocorrência de cinco níveis de rochas vulcânicas bimodais, intercaladas nos sedimentos. Consta, pois, de uma sequência metassedimentar e vulcânica representativa da margem de um continente em rotura, em evolução, portanto, para a formação de um rifte inicial.

 Na base desta sequência, encontra-se uma Formação vulcanoclástica ácida, que dá corpo aos Gnaisses de Saldanha, observáveis, apenas, em locais isolados. Sucede-se, superiormente, a Formação Filito-quartzítica que podemos observar na Foto 2.

 

Formação quartzo-filitica P2 (CAI) - Esquema

Foto 2 – Ao longo dos afloramentos desta formação, estão presentes quartzofilitos no seio dos quais se individualizam quartzitos xistoides. São rochas, essencialmente, constituídas por quartzo e minerais filitosos, moscovite, clorite e rara biotite alinhados segundo o plano de xistosidade. A lineação de estiramento em conjunto com as dobras cisalhantes, permitem inferir o sentido de transporte para ENE.

Quanto à idade, trata-se de uma unidade azóica (sem fósseis), onde, até ao presente, não foram detetados restos de seres vivos. Todavia, a abundância de quartzitos na sequência, embora muito diferentes do Quartzito Armoricano da base do Ordovícico, pode ter alguma correlação com os quartzitos, quer do Caradociano, quer da base do Silúrico, existentes em várias pontos da ZCI e ZOM, razão porque se atribui à sequência uma idade provisória de transição entre o Ordovícico e o Silúrico.

Unidades Centrotransmontanas – (Complexo Vulcano-silicioso – Silúrico)

 Às unidades de Gnaisses de Saldanha e Formação Filito-quartzítica, Foto 2, sucede-se superiormente o Complexo Vulcano-silicioso que, como a designação indica, forma uma sequência metassedimentar com intercalações de vários níveis de rochas metavulcânicas.

Na base desta sequência vulcano-sedimentar podem observar-se metabasaltos alcalinos, ora xistificados e metamorfizados em fáciesde xistos verdes. Assinalam o início da ruptura continental e encontram-se no flanco inverso de uma macrodobra deitada de D1 varisca, vergente para NW. Os dados de estrutural indicam o sentido de transporte segundo ENE, Foto 3.

Complexo Vulcano-sedimentar P3 (CAI) Esquema

Foto 3 –  Flanco inverso da dobra assinalada na figura. Ao microscópio os metabasaltos alcalinos mostram textura grano-nematoblástica e blstese de anfíbola e epídoto. Entre os componentes essenciais encontram-se tremolite-actinolite, oligoclase-albite, epídoto (pistacite, zoisite, clinozoisite), esfena e clorite.

Para o topo desta sequência encontram-se vários litotipos de metassedimentos, em regra, muito siliciosos dada a presença de intenso vulcanismo ácido. è possível observar litologias de xistos cloríticos e xistos hematíticos, borra de vinho, Foto 4. Os constituintes, quartzo, albite, moscovite, clorite ou biotite verde, hematite e óxidos de ferro hidratados, definem uma xistosidade afectada por crenulação.

Borras de Vinho (CAI)-2

 

Foto 4Xistos Borra de Vinho. Como a própria designação indica, é uma unidade constituída por materiais vulcânicos de natureza muito variada em estreita associação com sedimentos marinhos. Vários sectores com maior ou menor representação de magmatitos versus metassedimentos puderam ser definidos neste complexo. As fácies metassedimentares, bastante espessas, correspondem a litologias de granulometria variável, filitos muito finos, de que os designados «xistos borra de vinho» e «xistos cloríticos», são representativos, e xistos quartzo-feldspáticos.

Entre estas fácies, incluem-se níveis lenticulares de liditos com fósseis de graptólitos e alguns calcários e grauvaques, no topo. Alguns destes calcários correspondem ao Metacalcários de Salselas (ver post aqui).

Vulcanismo ácido

Amplo afloramento de metavulcanitos ácidos, Foto 5, intercalados em xistos cloríticos do Complexo vulcano-silicioso.

Complexo Vulcano-sedimentar Dacitos P5 (CAI)

Foto 5 –  Metavulcanitos ácidos porfiríticos, conservam texturas relíquia porfíricas e fenocristais de quartzo, albite e micropertite de microclina e anortose. Os componentes essenciais são: quartzo, albite, feldspato potássico e moscovite.

A composição do protólito varia de uma natureza  riolítica, riodacítica, até dacítica, Foto 5.

Complexo Vulcano-sedimentar Dacitos P5 (CAI)-7

Foto 5Metavulcanitos ácidos. Protólito de um riodacito observado neste afloramento correspondente a uma evidência de vulcanismo ácido. Conservam texturas relíquia porfíricas e fenocristais de quartzo, albite e micropertite de microclina e anortose. Os dacitos são vulcanitos equivalentes aos quartzodioritos. É em geral uma rocha porfíritica com uma pasta microlítica, com plagioclases e minerais ferromagnesianos, além de algum quartzo. O nome deriva de Dácia, antiga província romana, nos Cárpatos.

Unidade de Pombais (Silúrico) – início da formação de um oceano

A Unidade de Pombais, embora integrando o CAI, consta de uma repetição de escamas tectónicas carreadas na base do Complexo Ofiolítico de Morais. Encontra-se separada das restantes unidades do CAI, também designadas Unidades Centrotransmontanas, por um carreamento menor.

A máxima expressão destas escamas tectónicas formam um quádruplo pigy back thrust. Cada uma destas escamas é constituída, inferiormente, por xistos verdes ou tufos e por vulcanitos básicos, no topo. Todavia, a norte de Izeda e a leste de Talhas, formam um duplex, composto exclusivamente por metabasaltos. Concentrados ao longo dos acidentes e também dispersos nas rochas metavulcânicas, encontram-se importantes concentrações de sulfuretos polimetálicos onde se identificam, pirite, calcopirite, arsenopirite e limonite, Foto 6.

Unidade de Pombais - Crosta MORB (CAI)-4

Foto 6 – Os metavulcanitos básicos exibem tonalidade verde escura, raiados de verde limão devido à presença de epídoto. Na textura grano-nematoblástica, salienta-se blastese de albite e epídoto . Como minerais essenciais, contêm albite-oligoclase, anfibola da série tremolite-actinolite, zoisite e epídoto-pistacite. O quimismo destas rochas basálticas é já de tipo MORB, testemunhando assim o início da formação de crusta oceânica.

Nas Unidades Centrotransmontanas, assiste-se a uma evolução sedimentológica, mas sobretudo,  a uma evolução temporal do vulcanismo bimodal que traduz claramente uma situação de margem continental passiva, em distensão, até á ruptura definitiva da crusta continental e formação do rifte oceânico.

Fontes consultadas:

https://www.researchgate.net/publication/215580243_Unidades_aloctones_da_regiao_de_Morais_Tras-os-Montes_Oriental

https://www.researchgate.net/publication/215580243_Unidades_aloctones_da_regiao_de_Morais_Tras-os-Montes_Oriental

 

 

 

 

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