Granito de Valpaços

O plutão de Valpaços está situado numa área localizada no nordeste de Portugal, na província de Trás-os-Montes e Alto Douro, distrito de Vila Real.

Granitos da ZCI

A diversidade de granitoides presentes na ZCI, levou à necessidade de estabelecer classificações de acordo com dados: geológicos, geoquímicos, geocronológicos e estruturais.

Com base em dados geológicos e tectono-metamórficos, definem-se três intervalos de idades relativamente à fase D3, colocando os granitoides sin-D3 no intervalo temporal 320 – 310 Ma, os tardi-D3 no intervalo 310 – 305 Ma, os tardi a pós-D3 com cerca de 300 Ma e finalmente os pós-D3 com 300 – 290 Ma, Foto 1.

Mapa 123

Foto 1 – A tectónica da cadeia Varisca apresenta um caráter polifásico, reconhecido por vários autores em que na ZGTM se manifesta por estruturas que resultam da atuação de três fases de deformação dúctil (D1, D2, D3) e por uma fase frágil, D4. As fases D3 e D4 correspondem ao período pós-colisional, que decorre desde o Carbonífero Médio ao Pérmico, sendo durante a fase D3 que ocorre a instalação da maioria dos granitoides da Zona Centro-Ibérica (ZCI) designados por sin-tectónicos (sin-D3).  O período pós-D3, ter-se-á iniciado no Carbonífero Superior e terá continuado até ao Pérmico. As fases tardi-variscas ocorreram entre os 300 Ma e os 270 Ma.

O plutão de Valpaços, Foto 2,  é constituído por um granito de duas micas de grão grosseiro com tendência porfiróide com ocorrências de pequenos afloramentos/stocks de uma fácies de granito moscovítico fino, o granito de Lagoas. O plutão apresenta um contorno aproximadamente circular e contacta a Norte/Nordeste com granitos sin-tectónicos, instalados ao longo do antiforma Lamarcos – Torre Dona Chama e nos restantes limites com metassedimentos de idade Silúrica.

Mapa F1.jpg

Foto 2 – As rochas metassedimentares, correspondem em extensão e descrição ao sub-domínio Peritransmontano. Nesta diversidade litológica, as litologias surgem vulgarmente em intercalações finas onde dominam os filitos, os metagrauvaques e em menor quantidade metapsamitos imaturos. As formações encaixantes do plutão de Valpaços correspondem às formações designadas por Formação de Filitos Cinzentos (FXC), Formação dos Quartzitos Superiores, Formação dos Xistos Superiores, e Formação dos Xistos e Grauvaques Culminantes, respetivamente do topo para a base, e estão inseridas no Domínio Parautóctone Superior do Complexo de Mantos Parautóctones de idade Silúrica Inferior. Os granitos da região de Valpaços, são de idade varisca (tardi a pós-tectónicos relativamente à fase D3) e correspondem a granitos de duas micas com mais ou menos biotite, apresentando todos, fácies e mineralogias idênticas, com caráter intrusivo e discordante relativamente às estruturas. Os granitos que bordejam a faixa norte do plutão de Valpaços, associados à antiforma Lamadarcos – Torre de D. Chama, são granitos que se diferenciam essencialmente em função da textura e granulometria, uma vez que possuem mineralogia idêntica. Assim ocorrem fácies porfiróides de grão grosseiro a médio, de duas micas com intensidade de deformação variável.

Granito de Valpaços

A mancha do plutão de Valpaços, é constituída por um granito de duas micas de grão grosseiro, porfiróide, com megacristais de microclina (com aproximadamente 3 cm de comprimento), apresentando um padrão de ocorrência mineral homogéneo em toda a sua extensão, Foto 3. Dispersos pelo plutão, foram observados encraves, de tamanho reduzido (centimétrico), essencialmente biotíticos com silimanite, que ocorrem com contactos bem definidos no granito, e se apresentam com forma alongada e achatada. Esporadicamente, ocorrem também, estruturas do tipo schlieren, formadas por bandas de espessura centimétrica, de concentrações de minerais micáceos com predominância biotítica.

Granito de Valpaços (Valpaços)-2

Foto 3 – Granito de Valpaços. Granito predominante, moscovítico-biotítico, porfiróide de grão grosseiro.

Granito de Lagoas

Localmente, no centro do plutão, bem como na bordadura NNW, ocorrem pequenas manchas, de um granito moscovítico de grão fino, granito de Lagoas, que se encontra também representado numa pequena mancha no interior do granito de Sá. Estas ocorrências são intrusivas nos granitos, e são as mais recentes nesta área. O granito de Lagoas apresenta composição química e mineralógica semelhantes ao granito de Valpaços, o que sugere terem tido condições petrogenéticas e de formação semelhantes. De destacar a ocorrência esporádica de pequenos aglomerados de turmalina, com disposição difusa, podendo atingir até 2 cm de diâmetro. Frequentemente, é também observável neste granito um aspeto “enferrujado” por oxidação resultante da presença de sulfuretos, Foto 4.

Granito de Lagoas (Valpaços)-2

Foto 4 – Granito de Lagoas – moscovítico e de grão fino. Ambos os granitos se caraterizam por apresentarem um caráter leucocrata, sendo que no granito de Valpaços se observa biotite, como único mineral máfico, bem como encraves micáceos essencialmente biotíticos. No granito de Lagoas a biotite é rara e é possível encontrar aglomerados difusos de turmalina.

Geomorfologia

Existe uma relação direta entre as várias fases de consolidação de um magma granítico e a definição de um conjunto de características que condicionam o desenvolvimento de determinadas morfologias, ao longo do processo de instalação e após a exposição à superfície.

Durante o processo de ascensão do magma granítico, o seu arrefecimento e consolidação, é possível identificar estruturas e texturas que se vão desenvolvendo sequencialmente, por ação de dois tipos de tensão, que atuam de forma diferenciada nas diversas etapas: a tensão litostática ou confinante (cuja magnitude diminui gradualmente à medida que nos aproximamos da superfície) e a tensão dirigida ou tectónica, que atua apenas durante a implementação dos corpos magmáticos. Estas características estruturais estão relacionadas com o desenvolvimento de morfologias graníticas específicas a uma grande escala grande (formas de pormenor), escala intermédia e uma escala pequena (formas maiores), Foto 5.

Formas 1Foto 5 – Formas maiores (A) : Doma granítico; Formas de pormenor : (B) Tafoni, (C) pseudo-estratificação e (D) Bloco com pias.   Afloramentos do Granito de Valpaços.

Durante a etapa protoclástica (trituramento ocorrido entre os cristais de uma rocha ígnea, durante o seu processo de cristalização) são especialmente relevantes as relações entre a zona de contacto do corpo intrusivo e a rocha encaixante, onde ocorre o arrefecimento mais acentuado do magma e se desencadeia a consolidação do mesmo.

Aqui, a rocha recém consolidada é afetada por fragmentação induzida por cisalhamento, originando um sistema de fraturas e falhas com padrões regulares, associados à zona de contacto intrusão/encaixante, e que, posteriormente, por ação da meteorização, dará origem a estruturas de descamação (sheet structures). Estas estruturas associam-se, ao nível morfológico, às formas designadas por pseudo-estratificação, exfoliação, laminação ou disjunção esferoidal, Foto 6.

Sheet structures 1

Foto 6 – Tafoni no Granito de Valpaços.  1 – ascensão do “mush” granítico num regime com domínio da tensão dirigida; 2 – As tensões dirigidas em ambiente endogénico conduzem à formação de “sheet structures” responsáveis pelo aparecimento do pseudo-bedding dos granitos; 3 – Na etapa elástica, com o início da meteorização, a partir das descontinuidades existentes anteriormente, desencadeia-se o processo de “migração de cargas” ; 3a – Detalhe do processo de migração de cargas. Este processo de concentração e migração de cargas por alteração superfícial permite a formação de “Pias” e “Tafoni” ainda em ambiente endogénico; 4 – Etapa epigénica (à superfície) com processos de meteorização.

Durante a etapa elástica, com o início da meteorização do maciço rochoso, a partir das descontinuidades previamente definidas, desencadeia-se um processo designado de “migração de cargas”. Este processo produz um aumento da pressão litostática em pontos específicos dos blocos, com concentração das cargas nesses pontos, originando ao seu redor áreas de plastificação. Como consequência ocorre a deterioração textural da rocha e a consequente meteorização preferencial nessas zonas ocorrendo desta forma a formação de formas tipo “Pias” e “Tafoni”. Por fim a etapa epigénica desenvolve-se em ambiente superficial, onde dominam os processos de meteorização das rochas e remoção dos produtos de meteorização, colocando em evidência os elementos morfológicos elaborados nas etapas anteriores.

Estas formas são designadas endógenas, em virtude das características que as definem existem anteriormente à sua exposição à superfície por ação da meteorização. Às formas originadas em consequência da meteorização química em ambiente sub-superficial (sob o manto de alteração) e sem relação com a estrutura do material, é atribuída a designação geral de formas primárias exógenas (por exemplo, as superfícies de corrosão química – etchsurfaces).

Tafoni

Apresentam abertura principal, por vezes de grande dimensão, sendo a cavidade interior com vários nichos formados rapidamente durante o processo genético, Foto 7. Estes ninhos oferecem uma maior proteção ambiental às condições externas de temperaturas, humidade, etc.

Tafoni (esquema 1A )

Foto 7 – Estas formas são diretamente relacionadas com a concentração de cargas em zonas pontuais do maciço (A) , tal como no caso das Pias, o que proporciona zonas de fragilidade na rocha, favoráveis à atuação de processos de alteração e desagregação. Este é o modelo que melhor explica a origem destas estruturas (pias e tafoni) apresentada por Vidal Romani e designado o modelo de “concentração de cargas” ou “Stress concentration effect”.

A evolução subaérea dos tafoni processa-se em várias fases. Numa primeira fase verifica-se uma desagregação acentuada da rocha, quer granular, quer em forma de pequenas “palhetas”, por ação da presença de água e sucessão de períodos de humidificação e dessecação da superfície. Posteriormente, a cavidade interior (Foto 7, B,C e D),  deixa de evoluir de uma forma homogénea e uniforme, passando a observar-se várias frentes de avanço da alteração, cada uma delas evoluindo individualmente. Algumas destas frentes atingem o exterior do bloco, originando novas aberturas, podendo, no entanto, continuar a evolução do tafoni nas outras frentes. Finalmente, numa última fase, ocorre uma desagregação da forma do tafoni e a redução geral dos processos de desagregação no interior da cavidade, igualando em velocidade os que se processam no exterior da mesma, menos efetivos.

Fonte Consultada:

Vidal Romani, J. (1991) – Paisaxes de Galicia. Gráficas R.S.S.A, La Corunã.

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