Alto de São Bento (ZOM)

O Alto de São Bento constituí uma pequena elevação (363 m) localizada 3 km a WNW de Évora e que constituiu um relevo de dureza, provavelmente controlado tectonicamente. Na zona dos moinhos é possível observar o granito porfiróide com encraves em contacto com o leucogranito.

Alto de São Bento_.jpg

 

Domínios da Zona de Ossa-Morena

A Zona de Ossa Morena é bastante mais complexa que zonas contíguas do Maciço Ibérico, possuindo uma grande heterogeneidade paleogeográfica, metamórfica e tectónica. Foi, por isso, compartimentada em diversos sectores com características tectonoestratigráficas distintas. Com base nos trabalhos realizados até à atualidade é considerada a seguinte divisão para ZOM:

  • Domínio da Faixa Blastomilonítica;
  • Domínio de Alter do Chão – Elvas;
  • Domínio de Estremoz – Barrancos;
  • Domínio de Évora – Beja;
  • Complexo Ofiolítico de Beja – Acebuches.

Domínio de Évora-Beja

O Domínio de Évora-Beja é constituído por formações sedimentares, vulcano-sedimentares e por ortognaisses do Proterozóico superior/Paleozóico inferior. No seu conjunto, estas formações definem uma Sequência Autóctone correlacionável com termos representativos de um soco cristalino. Numa posição geometricamente superior ocorrem formações paleozóicas nitidamente alóctones, de natureza sedimentar ou vulcano-sedimentar que correspondem ao Complexo Filonítico de Moura, Foto 1.

Alto de São Bento (ZOM).jpg

Foto 1 –  Os maciços ígneos intrusivos representam a unidade cartográfica de maior representatividade na região. Tratam-se de intrusões tardi-variscas de natureza granítica (granitos, tonalitos e granodioritos) com redes filonianas associadas.

Maciço de Évora

O Maciço de Évora representa uma área com cerca de 60 km2 que se estende entre Montomor-o-Novo e Évora, localizada nos domínios ocidentais da Zona de Ossa-Morena (ZOM) e incluído no setor de Montemor-Ficalho. Os seu limite setentrional é representado pelo Complexo Ígneo de Beja e a nordeste com o limite superior da Formação da Ossa.

Em termos geológicos gerais, o Maciço de Évora está representado por diferentes bacias sedimentares com magmatismo associado que registam a evolução geodinâmica deste segmento da margem setentrional de Gondwana, no intervalo de tempo que decorre desde o Ediacariano (Neoproterozóico), passando pelo Câmbrico-Ordovícico e, finalmente pelo Carbónico Inferior. O metamorfismo e deformação dúctil varisca (Carbónico inferior) que estão relacionadas com a evolução da Pangeia, modificaram de forma heterogénea as texturas e paragéneses das rochas do Neoproterozoico e do Paleozoico. Anfibolitos, micaxistos, paragnaisses, mármores e migmatitos são os representantes desta crosta continental atual, intruídos por granitoides (essencialmente granodioritos, granitos e tonalitos) e gabros de idade carbónica.

O Maciço de Évora encontra-se subdividido em três unidades tectónicas principais com base em critérios estruturais e metamórficos:

  • Zona de Cisalhamento de Montemor-o-Novo (ZCMN);
  • Terrenos de grau metamórfico intermédio de Évora (TMIE);
  • Terrenos de Alto-Grau Metamórfico de Évora (TAME)

Estas unidades apresentam a mesma coluna estratigráfica do Ediacariano-Câmbrico-Ordovícico transposta por diferentes condições de metamorfismo e de intensidade de deformação dúctil.

Terrenos de grau metamórfico intermédio de Évora

Estes terrenos representam uma área que se estende entre Arraiolos, Nossa Senhora de Machede, Monte Trigo e Valverde com predomínio de micaxistos com intercalações de anfibolitos e metapsamitos que constituem o Complexo ígneo-sedimentar essencialmente básico de Arraiolos.

Em conformidade com o que se verifica na globalidade da ZOM, o Maciço de Évora caracteriza-se pela presença de uma significativa diversidade composicional de rochas ígneas intrusivas.

A generalidade das intrusões de natureza granitoide caracteriza-se por se disporem paralelamente à direção das estruturas varriscas do encaixante metamórfico o que sugere uma natureza sin-tectónica. São disto exemplo, os maciços de Évora-São Manços e Hospitais (ver post aqui). Estas intrusões são de natureza tonalítica e ocasionalmente associados a a granodioritos e gabro-dioritos.

Próximo da cidade de Montemor-o-Novo, localiza-se o Maciço dos Hospitais (consultar post aqui), cujas principais características estruturais permitem classificá-lo como sin-tectónico. Este maciço é constituído essencialmente por tonalitos, no seio dos quais se encontram abundantes encraves granulares máficos. A composição mineralógica dos tonalitos é dominada pela presença de plagióclase (andesina), quartzo, horneblenda e biotite. A geoquímica elementar indica que os diversos  corpos gabroicos das áreas vizinhas e os tonalitos metaluminosos do Maciço dos Hospitais poderão pertencer a uma sequência magmática relacionada com a cristalização fraccionada, e correspondem a magmas gerados em ambiente de arco magmático continental.

Alto de São Bento – Évora

Na proximidade de Évora, as diversas manchas de granitóides são frequentemente circunscritas, cortando a xistosidade dos metassedimentos e, por vezes, a foliação dos gnaisses. O alongamento pouco acentuado destas manchas é, regra geral, paralelo à direção das estruturas variscas mas, ao contrário do observado na fácies tonalítica do Maciço dos Hospitais, não se verifica normalmente uma orientação preferencial dos minerais constituintes na generalidade dos litótipos.

No Alto de São Bento ocorre um conjunto de afloramentos que permitem uma observação privilegiada de vários litótipos ígneos plutónicos de natureza essencialmente félsica, Foto 3.

Alto de São Bento 2 (ZOM)

 

Foto 3A: Os principais litótipos que podem ser observados são o  granito porfiróide e o leucogranito de duas micas, granodioritos, encraves tonalíticos bandados e encraves granulares máficos. Níveis aplíticos e pegmatíticos e encraves de natureza metamórfica (anfibolitos) podem também ser observados. B : Esquema simplificado da pedreira com os diferentes litótipos.

Leucogranito de duas micas e encraves bandados

O granito, que corresponde a uma das litologias principais que pode ser observada neste afloramento. Exibe um bandado magmático que, localmente, se traduz num ligeiro ondular de níveis com tonalidades diferentes que parecem reflectir uma variação na quantidade modal de quartzo. O bandado subhorizontal é paralelo aos níveis de granitos porfiróides e a uma série de níveis pegmatíticos. Em amostra de mão, exibe uma tonalidade cinzento claro e granularidade média onde se observa quartzo, feldspato (felspato alcalino e plagioclase), moscovite e, de modo mais ou menos irregular, biotite.

Alto de São Bento - leucogranito  (ZOM).jpg

Foto 4 –  Neste litótipo, observam-se rochas de tonalidade mais escura, menor granularidade e aspeto bandado, definindo limites mais ou menos bruscos com o leucogranito encaixante, tendo sido designados como encraves bandados. Estes correspondem a tonalitos e destacam-se claramente do leucogranito de duas micas pela sua cor, a qual resulta da sua menor granularidade, acrescido pelo claro aumento da quantidade modal de biotite (e por vezes anfíbola). Os afloramentos apresentam também níveis aplíticos e pegmatíticos. Os níveis pegmatíticos, grosso modo sub-horizontais e com espessuras métricas e são constituídos por quartzo, feldspato, moscovite, granada e turmalina, esta última constituindo agregados em roseta. Os filões aplíticos de espessura centimétrica são félsicos e frequentemente zonados. Estes, do ponto de vista geométrico, encontram-se sob a forma de corpos quer sub-horizontais quer inclinados, cortando-se entre si.

Granitos Porfióides

Os granitos porfiróides correspondem a uma rocha de granularidade média a grosseira e textura porfiróide, formada por quartzo, feldspato alcalino, plagioclase e aproximadamente 5% de biotite. Os fenocristais de feldspato alcalino são muito abundantes (cerca de 10- 15% do volume da rocha) chegando a atingir os 7 cm de comprimento ao longo do seu eixo maior. À escala mesoscópica, estes últimos podem apresentar uma orientação preferencial, interpretada como resultado de um “fluxo laminar homogéneo” , Foto 5.

Foto 5Granito Porfiróide. Aspecto, à escala mesoscópica, do granito porfiróide que aflora no Alto de São Bento em Évora. O granito porfiróide (também designado dente de cavalo) é uma rocha leucocrata de textura porfiróide, com fenocristais centimétricos (3-4 cm de comprimento) de feldspato alcalino, no seio de uma matriz félsica constituída por plagioclase (30- 35%), feldspato alcalino (20-25%), quartzo (30-35%) e biotite (5%). São frequentes os encraves granodioríticos e tonalíticos de granularidade média a fina (fig. 9C). Os fenocristais dispersos na matriz regra geral são euédricos, enquanto os que ocorrem inclusos nos encraves são mais anédricos e de aspeto corroído.

Encraves granulares máficos

Associados aos Granitos Porfiróides, ocorrem encraves granulares máficos, Foto 6, que representam 1-2% da área aflorante. Apresentam uma forma arredondada e limites bem definidos, ainda que esporadicamente possam apresentar limites difusos como resultado da interacção com o granito envolvente.

Alto de São Bento - Granito Porfiróide 1 (ZOM).jpg

Foto 6  – Os encraves granulares máficos (tonalitos) exibem uma granularidade média a fina de tonalidade mais escura comparativamente ao granito hospedeiro. Os fenocristais do granito porfiróide surgem frequentemente total ou parcialmente aprisionados nos encraves, sendo possível observar, em particular nos cristais de menores dimensões, formas anédricas e bordos corroídos. A proporção de feldspatos total ou parcialmente inclusos nos encraves granulares máficos é extremamente variável sem que exista qualquer diferença no tipo dos encraves. Os níveis de pegmatitos e aplitos encontram-se preferencialmente associados aos limites do leucogranito com o granito porfiróide Exibem  uma instalação posterior à cristalização dos Encraves granulares máficos tendo em conta as relações de corte.

Granodiorito

O granodiorito tem uma representatividade aparentemente mais limitada nos afloramentos do Alto de São Bento, Foto 7.

Alto de São Bento - Granodiorito (ZOM)

Foto 7 – Aspecto, à escala mesoscópica, do granodiorito. É uma rocha formada por quartzo, plagioclase, feldspato alcalino e biotite (~10-15%), leucocrata, com uma granularidade média a grosseira e apresentando uma foliação incipiente marcada pelo alinhamento dos cristais de biotite e dos encraves granulares maficos presentes. A relação observada em alguns afloramentos entre esta fácies e o granito porfiróide sugere uma interacção a quente entre os dois, interpretada pelos limites lobados, e parece indicar um posicionamento inferior e ligeiramente anterior do granodiorito. A transição lateral entre este e o leucogranito de duas micas é difícil de observar.

Resumindo

O Alto de São Bento corresponde a um maciço ígneo constituído por manchas de granodioritos, granitos porfiróides e leucogranitos. Os granodioritos são rochas leuco-mesocratas formadas por quartzo, plagioclase, feldspato alcalino e biotite, com granularidade média a grosseira e que apresentam uma foliação incipiente marcada por alinhamento de cristais de biotite e de encraves diorítico-tonalíticos.

Os granitos porfiróides são rochas leucocratas, com fenocristais de feldspato alcalino no interior de uma matriz constituída por quartzo, feldspato alcalino, plagioclase e alguma biotite. Os fenocristais de feldspato alcalino são muito abundantes e apresentam uma orientação preferencial, interpretada como “fluxo laminar”. Caracterizam-se, também, por apresentam encraves ígneos granulares (granodioritos e tonalitos) e raros encraves metamórficos.

Os leucogranitos são rochas leucocráticas de cor cinzento claro, com granularidade média, constituídas por quartzo, feldspato (feldspato alcalino ±plagioclase), moscovite e biotite. Possuem encraves bandados tonalíticos.

Para além dos granitóides, ocorrem também níveis de pegmatitos sub-horizontais, com espessuras métricas e de aplitos centimétricos, sub-horizontais e inclinados, cortando-se entre si. Os granodioritos, os granitos porfiróides e os encraves tonalíticos do Alto de São Bento relacionam-se geneticamente por diferenciação de magmas calcoalcalinos através de cristalização fracionada, sendo considerada, também, a hipótese de ocorrência de contaminação crustal durante a produção de líquidos magmáticos mais evoluídos. A presença do leucogranito sugere o envolvimento de processos de contaminação crustal no Maciço de Évora, admitindo-se a ocorrência de mecanismos de anatexia nas litologias das formações encaixantes (Formações do Escoural, Monfurado ou Carvalhal).

Fontes consultadas: 

Araújo A. 1995. Estrutura de uma geotransversal entre Brinches e Mourão (Zona de Ossa-Morena): implicações na evolução geodinâmica da margem sudoeste do Terreno Autóctone Ibérico. Tese de Doutoramento Universidade de Évora.
Araújo A., Piçarra J. Borrego J., Pedro, J. Oliveira, J. T. 2013. As Regiões Central e sul da
Zona de Ossa Morena. Em Geologia de Portugal, Volume I, Geologia Pré-mesozóica de
Portugal, (Dias R., Araújo A., Terrinha P. Kullberg J. C, Editores), Escolar Editora.
Chichorro M. 2006. A evolução tectónica da Zona de Cisalhamento de Montemor-o-
Novo (Sudoeste da Zona de Ossa Morena – área de Santiago do Escoural – Cabrela).
Tese de doutoramento, Universidade de Évora.
Moita P. 2007. Granitóides no SW da Zona de Ossa Morena (Montemor-o-Novo –
Évora): Petrogénese e Processos Geodinâmicos. Tese de Doutoramento, Universidade
de Évora.

Moita P., Santos J., Pereira M.F. 2009. Layered granitoids: interaction between
continentacrust recycling processes and mantle-derived magmatism. Examples from
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Moita P., Santos J.F., Pereira M. F., Costa M.M., Corfu F. 2015. The quartz-dioritic
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Evidence for mineral clustering. Lithos, 224–225, 78–100.

 

 

 

 

 

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