Lavas em almofada (Serpa – Alentejo)

Evidências de atividade vulcânica submarina durante o Paleozoico nas margens do Guadiana em Serpa permitiu aos geólogos suspeitarem da ocorrência de um pedaço de crosta oceânica (ofiolito)  nas margens deste rio. Os ofiolitos são fragmentos da litosfera oceânica arrancados pela tectónica e incorporados na crusta continental, menos densa.

Lavas em almofada

A atividade submarina é caracterizada por uma lava com uma forma sui generis, denominada pelos ingleses por “pillow lava”, ou seja lava “em almofada”. Trata-se de uma estrutura curiosa, formada como o nome indica, por blocos arredondados e empilhados, à maneira de sacos, habitualmente, com cerca de meio metro de diâmetro. Estes blocos de lava acham-se ligados entre si por anastomoses tubulares que estabelecem uma verdadeira comunicação entre diferentes blocos, Foto 1.

Moinho da Ordem (Enquadramento) - Blogue-2.jpg

Foto 1 – A formação destes sacos (almofada) de lava é explicada da seguinte maneira: durante a subida subaquática de lava, dá-se a consolidação rápida da sua superfície, formando-se uma verdadeira crosta, enquanto que o interior permanece no estado de fusão. Graças à fluidez da lava (que é sempre de natureza basáltica, no caso desta peculiar estrutura) e à pressão interna dos gases nela contidos, rompe-se a casca consolidada e novo bloco se forma, à maneira de um rebento que cresce à custa do preexistente já formado. Tais blocos, depois de consolidados, mostram-se com uma estrutura radial interna devido ao escape dos gases, que se dá em todas as direções.

Ofiolitos 

Os ofiolitos, fragmentos da litosfera oceânica arrancados pela tectónica e incorporados na crusta continental, menos densa, devido aos elevados esforços compressivos que estão na base da convergência das placas litosféricas, são geneticamente associados às dorsais oceânicas, relevos sismicamente ativos onde ocorre formação da crusta oceânica (acreção oceânica). Neste contexto, um ofiolito é um fragmento da litosfera oceânica inicialmente formado na dorsal e que, pelo processo de expansão dela derivou e se afastou, aumentando a sua espessura e rigidez, acabando mais tarde por se implantar no continente. Os ofiolitos são, assim, testemunhos de uma obducção associada a uma subducção.

Não obstante a diversidade de ofiolitos, são reconhecidos dois tipos de sequências ofiolíticas. Estes dois tipos de ofiolitos – os Ofiolitos do Tipo Harzburgito (HOT) e Ofiolitos do Tipo Lherzolito (LOT) –  e distinguem-se sobretudo pela natureza do manto residual após a fusão parcial: os de tipo lherzolito (LOT), com crusta reduzida e geralmente descontínua, são testemunhos de uma baixa fusão parcial, e aqueles cujo manto residual evidenciam maior fusão parcial, que geram uma crusta espessa, são do tipo harzburgito (HOT).

COBA – Complexo Ofiolítico de Beja‐Acebuches

A presença de uma sutura, de natureza ofiolítica,  marca o limite entre as Zonas de Ossa‐Morena ‐ ZOM e a Zona Sul Portuguesa ‐ ZSP. Esta sutura ofiolítica foi caracterizada e cartografada em pormenor, em muitos sectores do limite entre ZOM e ZSP, mas de um modo muito pormenorizado no Sector do Vale do Rio Guadiana, tendo‐se‐lhe chamado Complexo Ofiolítico de Beja‐ Acebuches ‐ COBA. Esta sutura, que implica um processo de colisão continental, ocorre ao longo do contacto entre a ZOM e o Terreno Acrecionário do Pulo do Lobo – TAPL, integrado na ZSP, Foto 2.

Moinho da Ordem (Enquadramento) - Blogue.jpg

Foto 2 – Afloramento do Moinho da Ordem no concelho de Serpa nas margens do Rio Guadiana. O COBA apresenta‐se segundo uma faixa de mais de 100 km e uma largura bastante reduzida, geralmente inferior a 1500m e mostra uma organização litológica interna típica de um fragmento de crosta oceânica que sofreu obducção.

O estudo e cartografia pormenorizados permitiram a identificação de vários domínios. Ao longo destes evidenciaram‐se diferenças marcantes em aspetos estratigráficos, estruturais e até metamórficos. Estes factos deram indicações muito precisas quanto ao aspeto desmembrado e disperso do COBA. Nenhum dos domínios caracterizados, por si só, mostra uma sequência estratigráfica completa do ofiolito. No entanto, a justaposição dos vários sectores parciais, num registo coletivo e integrado dos domínios, permitiu o reconhecimento de uma sequência estratigráfica completa de litosfera oceânica. Isto foi observado ao longo de toda a sutura.

A sequência completa inclui, das sequencias basais para o topo da sequência:

  • uma secção mantélica, constituída por serpentinitos e cumulados ultramáficos;
  • uma secção de crosta inferior, formada por metagabros, ‘flaser’gabros e plagiogranitos;
  • uma secção de crosta superior, constituída pelo complexo de diques em diques (apenas observada, até ao momento, no sector próximo de Aracena), anfibolitos s.l., metabasaltos (localmente lavas em almofada), e metassedimentos.

A interpretação desta sequência, como parte integrante de um sector de crosta oceânica (estratigraficamente completo), obteve suporte através da assinatura geoquímica, a partir de análises efetuadas nestas litologias.

Todos os tipos litológicos, inerentes a um ofiolito, se encontram presentes em território português, com exceção da zona de ‘sheeted dikes’. A zona de diques em diques pode ser observada, no sector espanhol do COBA. Também na região de Aracena, foi identificada uma ‘mélange’ tectónica, de alto grau metamórfico. Possui uma importância fundamental na caracterização geodinâmica da Cadeia Varisca Ibérica.

 Lavas em almofada do Complexo Ofiolítico de Beja‐Acebuches, Rio Guadiana,

 Moinho da Ordem

Moinho da Ordem (Enquadramento) - Blogue1

Foto 3– Afloramento do Moinho da Ordem com lavas em almofada. O cabo do martelo indica a direção de lineação (norte).  Neste afloramento podem observar‐se metabasaltos fortemente deformados pela segunda fase tectónica estando no entanto preservadas estruturas primárias correspondentes a lavas em almofada.

As estruturas em almofada encontram‐se deformadas, alongadas paralelamente à lineação de estiramento de segunda fase. Nestas rochas é possível identificar (em lâmina delgada) a existência de níveis de chert e/ou hialoclastitos no topo de algumas das lavas em almofada, comprovando a sua génese associada a vulcanismo submarino.

A idade da crusta oceânica que constituí o COBA é uma questão que permanece por esclarecer. A maioria dos autores inclina‐se para a hipótese Eodevónica. No entanto, outras idades não serão de excluir.

Fonte consultada: 

Bibliografia .jpg

One thought on “Lavas em almofada (Serpa – Alentejo)

Add yours

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s

Site no WordPress.com.

EM CIMA ↑

%d bloggers like this: