Bacia Cenozóica do Algarve

Uma viagem à bacia cenozoica do Algarve e um pequeno glossário sobre geomorfologia marinha e outros conceitos associados. Preparação para exame de Biologia e Geologia 11º – Ocupação antrópica e problemas de ordenamento do litoral. 

O litoral de Portugal continental é constituído essencialmente por costas baixas, arenosas ou rochosas e por alguns setores com costas altas. A fisionomia irregular da linha de costa ao longo dos, aproximadamente, 963 km , deve-se à sua variável composição geológica, na medida em que que, os materiais rochosos são mais resistentes aos agentes erosivos (ventos e marés) que os materiais detríticos. No troço entre o Cabo de S. Vicente e Vilamoura há uma baixa dinâmica sedimentar, que alimentam pequenas praias de enseada, onde predominam as costas altas (maioritariamente calcárias).

Este litoral entre a Ponta da Piedade e Lagos apresenta desenho muito rendilhado sendo possível, com frequência, deduzir o antigo modelado cársico agora em fase de destruição. É o que se verifica na Ponta da Piedade, cujo contorno complexo advém nitidamente da coalescência .de vários algares. A Ponta da Piedade é conhecida por suas belas formações rochosas, cavernas, grutas ao longo da costa do barlavento algarvio. Considerado um dos locais mais belos de toda a região sul de Portugal das suas falésias avistam-se curiosas formações rochosas, onde o mar esculpiu ao longo do tempo geológico, originando curiosas configurações, Foto 1.

Ponta da Piedade (Miocénico) f1

Foto 1 – Bilhete postal das esculturas naturais na Ponta da Piedade, leixões e arcos marinhos na costa meridional algarvia. Estas formas geológicas resultam da interacção dos factores da geodinâmica interna e externa, aliados a processos de erosão diferencial. As rochas pertencem à Formação margo-carbonatada de Lagos-Portimão (Miocénico médio) onde a sua sua base corresponde aos primeiro depósitos sedimentares argilosos de fácies lacustre e margas de fácies salobras, testemunhos da subida gradual do nível eustático-freático. Sobre estes depositam-se biocalcarenitos ricos em moldes de moluscos, com numerosas valvas de ostras e equinídeos que testemunham uma sedimentação tipicamente marinha.

O Cenozoico da Bacia do Algarve

As formações do Miocénico ocupam, atualmente, uma extensão relativamente grande, embora inferior à que teriam tido inicialmente, a avaliar pelos numerosos retalhos dispersos, Foto 2.

Ponta da Piedade (Miocénico)-11.jpg

Foto 2 – Os terrenos de idade miocénica afloram no Algarve junto à costa, desde Sagres (a ocidente) até Cacela (a oriente), assentando discordantemente ou contactando por falha, quer sobre o Jurássico quer sobre o Cretácico, constituindo arribas relativamente frequentes, sobretudo entre Lagos e Olhos de Água.

Bacia Cenozoica do Algarve

Os sedimentos do Cenozoico cobrem uma vasta área da região emersa da Bacia Algarvia, sendo predominantes no sector Central e Oriental.  A transição do Mesozoico para o Cenozoico está bem marcada por uma discordância que traduz uma erosão subaérea, ocorrida no seguimento de importantes movimentos epirogénicos positivos, Foto 3. O Paleogénico Superior está apenas representado na região da Guia pela unidade Conglomerados e Argilas da Guia, constituída por níveis conglomeráticos com calhaus rolados de calcário, ligados por uma matriz argilosa avermelhada. No entanto, a idade desta formação é muito controversa, dada a ausência de grupos fósseis, tendo-lhe sido atribuída diversas idades desde o Cretácico ao Miocénico. Assim, considera-se que o Cenozoico da Bacia Algarvia, está praticamente limitado a sedimentos do Neogénico, incluindo depósitos do Miocénico, Pliocénico e Quaternário, apresentando, em conjunto, uma espessura sempre superior a 300 m.

Ponta da Piedade (Miocénico)-14Foto 3 – Os sedimentos do Neogénico podem ser agrupados em dois grandes grupos litológicos, que traduzem duas sequências sedimentares, separadas por um hiato temporal associados a eventos tectónicos e fatores paleogeográficos. A primeira sequência, designada por 1ª Sequência Sedimentar Neogénica ou Sequência Carbonatada, que aflora essencialmente no Algarve Ocidental, é constituída por calcários litificados, fossilíferos, e rochas carbonatadas, com macrofósseis. Assenta diretamente sobre os sedimentos do Paleozoico e do Cretácico. A segunda, a 2ª Sequência Sedimentar Neogénica ou Sequência Arenítica, está bem representada no sector Oriental, embora também aflora no sector Central, é formada por arenitos finos, com poucos fósseis, e arenitos grosseiros, branco a avermelhados. Geralmente assenta sobre a série carbonatada do Neogénico mas, por vezes, surge a contactar diretamente com o Paleozoico ou o Mesozoico.

Assim, enumeram-se de seguida essas unidades, da base para o topo (Foto 3):

  • Formação de Lagos – Portimão (Miocénico), que inclui: Membro “Biocalcarenito de Lagos”, Membro “Calcários e Margas de Côrte do Bispo” e Membro “Arenito carbonatado dos Olhos de Água”;- Formação de Cacela (Miocénico), composta pelos Membros: “Conglomerados e areolas fossilíferasde Ribeira de Cacela”, “Areolas e argilitos de Cacela Fábrica” e “Areolas e arenitos grosseiros de Galé-Oura”;
  • Formação de Ludo (Plio-Plistocénico), formada pelos Membros: “Areias fossilíferas de Monte Negro – Praia da Falésia”, “Areias de Faro – Quarteira” e “Areias e cascalheiras de Gambelas”.

O Holocénico está representado por areias dunares de praia atuais e antigas, terraços fluviais, tufos calcários, cascalheiras e areias de duna consolidada. As ilhas barreira da Ria Formosa são consideradas as mais importantes estruturas geológicas do Holocénico, formadas por um cordão arenoso, que se estende desde Ancão até Cacela.

Pequeno Glossário (em construção)

Abrasão – ação essencialmente mecânica do mar sobre o litoral.

Baía – consiste numa reentrância da costa ou uma entrada encurvada do mar, geralmente entre dois cabos, de forma semicircular e com um tamanho intermédio entre o golfo e a enseada, que se forma quando uma laguna costeira é assoreada, que culmina com um pequeno trecho côncavo no litoral marinho, delimitado por dois cabos.

Barra ou foz – zona de transição rio-mar, em geral, com depósitos de materiais detríticos.

Costas Baixas – As costas baixas surgem na zona costeira como geoformas litorais (praias, dunas, restingas, ilhas-barreira, plataformas de acumulação marinha, deltas, estuários, lagunas e rias), que tiveram origem num passado mais ou menos recente (Pleistocénico e Holocénico) e outras geradas no presente, muitas relacionadas com a degradação ou destruição daquelas.

Delta – rede de braços na foz de um rio, cuja geometria vai variando, à medida que decorre o avanço da sua construção sobre o meio marinho, por acumulação de detritos.

Deriva Litoral – nos litorais onde as ondas incidem obliquamente à costa, estas refratam-se à medida que se aproximam, vão mudando progressivamente de direção e originam uma corrente ao longo do litoral, designada por deriva litoral.

Derrocadas – queda por ação da gravidade de massas rochosas que se encontram sem suporte na sua base facilitada por fraturas pré-existentes.

Desabamentos – queda de blocos de rocha paralelepipédicos, irregulares e desordenados, atuados pelas forças da gravidade.

Deslizamentos – deslocamentos mais ou menos lentos de massas rochosas ao longo de uma superfície.

Dunas litorais – dunas localizam-se no limite interior da praia, têm uma orientação mais ou menos paralela ao mar e uma extensão variável que pode dar origem a cordões dunares. Formam-se quando os sedimentos finos (constituídos essencialmente por quartzo) e médios são transportados por ação do vento, em suspensão, saltação ou reptação. Posteriormente são depositados quando o vento perde energia ou aquando do seu transporte são retidos por um obstáculo. Em especial quando o clima é favorável, os sedimentos tornam-se mais leves, sofrem trânsito eólico e dependendo da topografia da praia são transportados para o interior e contribuem para a formação das dunas. Dependendo do grau de coesão dos sedimentos, as dunas podem ser designadas por consolidadas ou não consolidadas.

Estuário – Foz de um rio em que o meio fluvial se interpenetra com o meio marinho. Nos estuários, os sedimentos não se depositam como acontece nos deltas.

Fundos marinhos (planícies abissais) – grandes extensões dos fundos marinhos mais ou menos aplanadas com uma profundidade média de 4000 m. No Oceano Pacífico, surgem planícies abissais com grandes depressões ou fossas relativamente estreitas, mas que atingem os 10000 metros.

Geoconservação – conservação e gestão do Património Geológico e processos naturais a ele associados.

Geossítio – ocorrência de um ou mais elementos da geodiversidade (aflorantes quer em resultado da acção de processos naturais quer devido à intervenção humana), bem delimitado geograficamente e que apresente valor singular do ponto de vista científico, pedagógico, cultural, turístico, ou outro.

Ilhas-Barreira – ilhas-barreira, que consistem em bancos de areia alongados, que se localizam junto à linha da costa e paralelamente a esta, acima do nível atual do mar. Entre a ilha-barreira e a linha da costa pode existir lagoas costeiras, de baixa profundidade, com confluência no mar através de canais.

Linha de costa –  A linha de costa pode ser entendida como um limite físico localizado entre o ambiente marinho e o ambiente terrestre. Porém, muito se tem discutido acerca deste tópico, especialmente no que diz respeito ao seu dinamismo, resultante dos diferentes processos de origens naturais e antrópicas atuantes nesta particular região.

Nível de base – superfície hipotética de referência correspondendo ao nível médio das águas do mar, superfície segundo a qual os rios regularizam o seu perfil.

Património Geológico – conjunto de geossítios inventariados e caracterizados numa dada área ou região.

Plataforma de abrasão – modelado que surge no escarpado da linha de costa, originado por abrasão marinha.

Plataforma continental – zonas marinhas contíguas do continente, pouco profunda (até 200 m de profundidade) e cobertas dos sedimentos continentais.

Praia levantada ou terraços marinhos – elevação da costa relativamente ao nível do mar, como resultado da emersão em determinado período de tempo geológico, originando-se uma nova linha de costa em qualquer fase do seu desenvolvimento.

Praia –  corresponde a uma área do litoral constituída por materiais detríticos, arenosos, areno-siltosos e/ou grosseiros (calhaus e blocos), com uma forma retilínea ou arqueada, de comprimento, largura, orientação e declive variáveis, na medida em que, constituí um ambiente extremamente dinâmico.

Restringa ou Cabedelo – Quando um cordão dunar apresenta uma extremidade livre e móvel, e que se estende a partir da faixa costeira, esta geoforma também de costa baixa é designada por restinga ou cabedelo. Forma-se junto à desembocadura de um rio, que pela ação das marés e das correntes de deriva, os sedimentos são acumulados, o que leva à criação de robustos bancos de areia.

Ria – antigo vale fluvial submetido a imersão marinha tendo como resultado uma nova costa com muitos recortes e irregularidades.

Sequência negativa ou inversa – série de sedimentos finos na base de uma coluna litológica, progressiva deposição de materiais cada vez mais grosseiros. Esta sequência de deposição pode caracterizar uma transgressão marinha.

Sequência positiva ou normal – série sedimentar que se inicia pela deposição de materiais detríticos grosseiros, seguindo-se a deposição de materiais progressivamente mais finos. Pode caracterizar uma transgressão marinha.

Sequência rítmica – sequências ou ciclos sedimentares, que se repetem e, nos quais pode haver uma alternância entre a matéria de origem orgânica e matéria de origem mineral.

Sequências cíclicas ou bissequências – série cíclica sedimentar que se inicia sempre por uma deposição característica de uma transgressão seguida por uma outra série regressiva.

Série sedimentar – sequências de camadas de rochas sedimentares típicas, geralmente, em grupos de três (grés, calcário, argilas) e numa ordem constante.

Talude – zona em continuidade  com a plataforma continental, mas com grande declive e recortado por canhões submarinos.

Tômbolo – formação arenosa que liga o continente a uma ilha ou a outra ilha.

Zona Costeira – Extensão em terra e sob as águas do mar (plataforma continental), onde se encontram indicadores das variações do nível do mar (transgressões e regressões do mar) ocorridas durante o Quaternário superior, desde ± 115.000 anos BP até à atualidade.

Ilhas-Barreira – ilhas-barreira, que consistem em bancos de areia alongados, que se localizam junto à linha da costa e paralelamente a esta, acima do nível atual do mar. Entre a ilha-barreira e a linha da costa pode existir lagoas costeiras, de baixa profundidade, com confluência no mar através de canais.

 

Fontes consultadas :

ALBARDEIRO, L. (2004). Variações do Nível Médio do Mar no Algarve ao longo do Quaternário Superior. O Sector Praia da Galé – Praia de S. Rafael. Tese de Mestrado da Universidade do Algarve, Algarve, p.112.

ALMEIDA, A.C. (2009). Ambientes Litorais: Programa, Conteúdos e Métodos de Ensino. Relatório elaborado para provas de agregação em Geografia, na Faculdade de Letras, da Universidade de Coimbra.

ALVEIRINHO DIAS, J.M. (1988). Aspectos geológicos do litoral algarvio. Geonovas. Lisboa, 10: 113-128.

Kullberg, J. C., Rocha, R. B., Soares, A. F., Rey, J., Terrinha, P., Azerêdo, A. C., Callapez, P., Duarte, L. V., Kullberg, M. C., Martins, L., Miranda, R., Alves, C., Mata, J., Madeira, J., Mateus, O., Moreira, M. e Nogueira, C. R. (2013) – A Bacia Lusitaniana: Estratigrafia, Paleogeografia e Tectónica. In Dias, R. et al. – Geologia de Portugal, Volume II, Geologia Meso-cenozóica de Portugal. Escolar Editora, Lisboa. pp 195-348.

https://www.researchgate.net/publication/225498858_The_bioeroded_megasurface_of_Oura_Algarve_south_Portugal_Implications_for_the_Neogene_stratigraphy_and_tectonic_evolution_of_southwest_Iberia/citation/download

 

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