Viagem ao Jurássico Superior da Bacia Algarvia

Na costa meridional do litoral algarvio, a nordeste de Sagres, próximo da localidade de Raposeira, concelho de Vila do Bispo, localiza-se a Praia do Zavial, Foto 1. Nos afloramentos desta praia é possivel observar o registo de duas bacias  distintas superimpostas, uma de idade mesozóica e outra cenozóica.

Miocénico e Cretácico (Zanvial)

Foto 1 – A: A Praia do Zavial, apresenta cerca de 600 metros de areal e encontra-se “esculpida” entre dois promontórios, o que justifica a designação geomorfológica de praia encaixada, exposta a um regime de agitação marítima pouco energético. Excerto da adaptado da Carta Geológica de Portugal na escala 1/50 000, Folha 51-B; Manuppella, 1972).  B: Localização da Praia do Zanvial no Barlavento Algarvio; C: Contacto por falha do Jurássico Superior.

Pequeno resumo

A Bacia do Algarve ter-se-á desenvolvido num regime tectónico de estiramento e adelgaçamento da placa litosférica associado à abertura do Atlântico Central e à propagação do mar de Tétis para ocidente com eventual formação de crosta oceânica entre o Algarve e o Norte de África. O levantamento e o desmantelamento da Cadeia Varisca associada ao início do rifting continental, entre o Triásico superior e a base do Jurássico terão dado início à sedimentação triásica. Essa sedimentação foi uniforme até ao Sinemuriano mas depois a bacia mesozóica dividiu-se em duas sub-bacias separadas por um alto estrutural, tendo como consequência diferenças de fácies e de espessuras na sedimentação jurássica. Apenas durante o Caloviano (final do Jurássico médio) e o Titoniano (final do Jurássico superior) foi novamente alcançada a uniformidade de sedimentação na bacia devido à ocorrência de fenómenos de uplift.

Miocénico

Do ponto de vista estrutural, a Bacia Algarvia formada por duas bacias distintas superimpostas, uma de idade mesozóica e outra cenozóica. A primeira (final do Triásico ao Cenomaniano) terá resultado da estruturação distensiva da bacia e da subsidência devido à fracturação e ao estiramento litosférico,  que culminou na fragmentação da Pangeia. Pelo contrário, a segunda (Paleogénico ao Quaternário) terá sido formada numa fase de pós-rifting. Uma descontinuidade (geralmente discordância angular) separa as duas bacias sendo testemunhada no campo por uma superfície transgressiva bioerosiva, podendo os sedimentos neogénicos assentar diretamente sobre o Mesozoico ou o Paleozoico, Foto 3 e Foto 4.

Cretácico 1 (Zanvial)

Foto 3 – Afloramentos na arriba Este da Praia do Zanvial.  A transição entre os depósitos sedimentares do Mesozóico e do Cenozóico está, em quase toda a região, marcada por uma discordância que se traduz numa superfície de erosão sub-aérea desenvolvida na sequência de importantes movimentos epirogénicos positivos. Esta superfície representa uma lacuna estratigráfica que cobre todo (Algarve Ocidental) ou parte (Algarve Oriental) do Cretácico superior e Paleogénico. Desta forma, o Cenozóico algarvio está praticamente restringido ao Neogénico, incluindo sedimentos do Miocénico, Pliocénico, Plistocénico e Quaternário, e cobre importante área emersa da bacia, sobretudo na região central e oriental.

Cretácico 11as (Zanvial)

Foto 4 – Observação de formações do Cretácico Inferior sobrepostas discordantemente pelo Miocénico inferior e médio depositados num canal pré-miocénico e miocénico: estrutura sinclinal de reactivação de falhas de rifting pela inversão tectónica (compressão) polifásica. A Formação de Lagos-Portimão (Miocénico) aflora continuamente ao longo do litoral, desde Lagos (Porto de Mós) a Albufeira (Olhos de Água), numa extensão de cerca de 45 Km, podendo ainda ser encontrada em pequenas manchas dispersas pelo Algarve (litoral e interior). Embora com algumas variações laterais de fácies, é essencialmente constituído por rochas carbonatadas siliciclásticas com frequentes extraclastos de quartzo rolado e ocasionalmente clastos arredondados de calcários margosos cretácicos, e rica em macrofósseis (lamelibrânquios, gasterópodes, equinodermes, rodólitos, ostraídeos,  etc.), constituindo, por vezes, fácies lumachélicas. Os calcarenitos são mais arenosos no topo indicando aumento dos acarreios detríticos continentais.

Cretácico 

A sedimentação cretácica ocorreu em ambientes de deposição carbonatados, variáveis de lagunares a marinhos, ao longo de 3 ciclos transgressivos-regressivos. Estes ciclos foram por duas vezes interrompidos (no final do Berriasiano e no Barremiano) por instabilidade tectónica com movimentação compressiva, o que originou lacunas no registo estratigráfico no Algarve, Foto 5.

Ccretácico 11as (Zanvial)

Foto 5 –  O período Cretácico, sobretudo o Cretácico inferior, caracteriza-se pelo registo de condições climáticas tropicais a subtropicais que indicia um aquecimento global. A regressão ocorrida no Cretácico inferior obrigou a sedimentação marinha, no território europeu, a ficar restringida a algumas bacias de rift, seguindo-se uma subida gradual do nível do mar que culminou numa transgressão epicontinental ainda mais importante do que a observada no Jurássico. Esta transgressão levou a maior parte do terreno europeu a ficar imerso, representando a Península Ibérica uma das principais ilhas.

Um  aspecto relevante do Cretácico é a existência de  de fenómenos magmáticos no Cretácico superior de que o maior exemplo é o Maciço Intrusivo alcalino de Monchique que aflora no Algarve Ocidental e é essencialmente constituído por sienitos nefelínicos. Ocorrem ainda outros produtos vulcânicos representados por diques, soleiras, pequenas escoadas lávicas, chaminés vulcânicas e brechas dispersas no interior da bacia. Este magmatismo cretácico está associado ao contexto geodinâmico da margem sudoeste da Ibéria a partir do Aptiano, caracterizado por progressão para norte da abertura do Atlântico e rotação da Península Ibérica que gerou reactivação de fracturas profundas na crosta, utilizadas por condutas dos líquidos magmáticos mantélicos.

Jurássico Superior 

A passagem Jurássico-Cretácico está marcada por uma regressão marinha e pela instalação generalizada de meios salobros, como pântanos litorais, drenados por canais de maré, com invasões esporádicas de águas doces. No Algarve Ocidental e Central depositaram-se Margas, dolomitos e calcários de fácies purbequianas que correspondem ao fim do ciclo transgressivo-regressivo iniciado no Jurássico superior.

Na arriba Oeste da praia é possível observar formações do Malm: dolomitos do Kimeridgiano ao quais se sobrepõem calcários margosos margas e argilas do Portlandiano (atualmente corresponde ao Titoniano) . A sequência encontra-se afectada por falhas normais sin-sedimentares de direcção próxima de N-S, definindo no seu conjunto (à escala de toda a arriba) uma estrutura do tipo “bookshelf”, Foto 6.

Mapa 1.jpg

Foto 6 – Afloramento da arriba oeste com rochas do Malm (Jurássico superior). Marcada a amarelo na fotografia ocorre um nível conglomerático entre estratos de natureza carbonatada. Durante o Jurássico inferior, a subida do nível do mar causou um generalizado movimento transgressivo tendo-se, a partir do Sinemuriano, depositado importantes sedimentos carbonatados numa plataforma litoral. O Jurássico é, assim, essencialmente caracterizado por calcários, dolomitos e margas, indicando a instalação definitiva de um ambiente marinho na Bacia Algarvia com a ocorrência de vários episódios de transgressão-regressão. Dois importantes hiatos ocorreram entre as unidades jurássicas, uma durante o Aaleniano, e a outra do Caloviano superior ao Oxfordiano médio, devido a eventos de uplift associados a episódios de tectónica compressiva.

Conglomerados

Na sequência de estratos na arriba oeste ocorre um nível conglomerático, Foto 7, no seio de rochas carbonatadas (Titoniano). Estas rochas apresentam uma cor avermelhada devido à presença de óxidos e hidróxidos de ferro.  Estes estratos são explicados por uma emersão da bacia sedimentar durante um intervalo de tempo o que apoia uma regressão na passagem do Jurássico Superior para o Cretácico.

Miocénico e Cretácico (Zanvial)-2

Foto 7 – Afloramento na arriba oeste com um nível conglomerático em paraconformidade. Quando existem interrupções na sedimentação devido a fenómenos de erosão, não deposição de sedimentos, hiatos, por exemplo, e estas são de apenas, e no máximo, de alguns metros, existem discordâncias que correspondem a um intervalo muito curto de tempo, então são chamadas de Descontinuidades Sedimentares. As Paraconformidade são descontinuidades sedimententares onde não existe qualquer diferença de atitude entre as camadas, mas por vezes  faltam conjuntos litológicos.

Durante o Titoniano na bacia ocidental a sedimentação ocorreu numa  plataforma interna de fraca energia, quase sempre não confinado, com influências continentais.

Em resumo, após a regressão do Caloviano – Oxfordiano, o ciclo de sedimentação do Jurássico superior é transgressivo do Oxfordiano médio a superior ao Kimeridgiano  médio, a que se seguiu um período regressivo que atingiu um máximo, sem emersão, na passagem Titoniano – Cretácico e que durou até ao fim do Berriasiano. Provavelmente esta regressão corresponde a uma descida do nível eustático do mar associada a tectónica continental, uma vez que se formaram estruturas quer compressivas quer distensivas (Terrinha, 1998). Este último evento terá provocado uma uniformização de fácies em toda a bacia. Do ponto de vista ecológico caracteriza-se por faunas amoníticas tipicamente tetisianas. A fase de rifting assinalada na Orla Ocidental no Jurássico superior, parece não ter existido no Algarve,

Fontes consultadas:

Cachão, M., 1992. A Formacao Miocenica de Mem Moniz (Algarve, Portugal). Actas Cong. Geol. Espana I, 492-496.

Cachão, M., 1995a. O Neogenico do Algarve: redefinicao de unidades litostratigraficas. Mem. Mus. Lab. Min. Geol. Fac. Ciencias Univ. Porto 4, 63-67.

Cachão, M., 1995b. Utilizacao de Nanofosseis calcarios em Biostratigrafia, Paleoceanografia e Paleoecologia. Aplicacoes ao Neogenico do Algarve e do Mediterraneo Ocidental (ODP 653) e a problemática de Coccolithus pelagicus. Tese Doutoram. Fac. Cienc. Univ. Lisboa, 356 p.

Correia, F. (1989) – Estudo bioestratigráfico e microfacies do Cretácico carbonatado da bacia sedimentar meridional portuguesa (Algarve). Dissertação apresentada para a obtenção do grau de Doutor em Geologia. Departamento de Geologia da FCUL, Lisboa, 377 p.

Correia, F. (1996) – Estudo do Recuo das Arribas a Leste de Quarteira (Algarve, Portugal) por Restituição Fotogramétrica. Dissertação apresentada à Universidade do Algarve para obtenção do grau de mestre em Estudos Marinhos e Costeiros. Ramo Gestão Costeira. Faro, p.16-18.

Manuppella G. 1992. Carta geológica da região do Algarve na escala 1:100.000, Notícia explicativa da Carta Geológica da região do Algarve. Serv. Geol. Portugal, Lisboa.

Ribeiro A., Antunes M.T., Ferreira M.P., Rocha R.B., Soares A.F., Zbyszewski G., Almeida F.M., Carvalho D., Monteiro J.H. 1979. Introduction à la Géologie Génerale du Portugal. Serv. Geol. Portugal, Lisboa.

Rocha F. 1993. Argilas aplicadas a estudos litoestratigráficos e paleoambientais na bacia sedimentar de Aveiro. Tese de Doutoramento, Universidade de Aveiro.

Rocha R.B. 1976. Estudo estratigráfico e paleontológico do Jurássico do Algarve ocidental. Ciências Terra 2. UNL, Lisboa.

 

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