Praia do Abano e a Ponta da Abelheira

Situada no extremo norte da costa oeste de Cascais, é uma praia discreta de pequenas dimensões encaixada entre os promontórios rochosos que antecedem o Cabo da Roca. Localizada no seguimento da praia do Guincho, é normalmente ventosa e com ondulação forte. A chegada à praia faz-se por um caminho de terra, acessível a partir da Estrada do Guincho.

As rochas mais antigas que afloram no território do Concelho de Cascais têm cerca de cento e cinquenta milhões de anos e correspondem às espessas séries calcárias do Jurássico Superior, que foram trazidas à superfície pela intrusão do Maciço eruptivo de Sintra. O calor libertado pelos magmas do maciço foi suficiente para recristalizar os calcários do contacto e transformá-los em mármore. Até ao final do Jurássico depositou-se um possante conjunto de camadas de calcários com intercalações de margas cuja espessura atinge os 1.500m.

Esquema do Abano

Foto 1 – Vista sobre a costa norte da praia do Abano. Ao fundo vê-se a arriba granítica de cor avermelhada do Maciço Eruptivo de Sintra, em contacto com os calcários acinzentados do Jurássico Superior, por vezes atravessados por filões magmáticos, cuja idade vai diminuindo para Sul.
Calcários do Jurássico Superior

Camadas de calcários e margas espessas, mostrando, ao longo do litoral a norte da praia do Abano, intercalações brechas com fragmentos mais ou menos grosseiros, provenientes da destruição de uma zona recifal, Foto 2.

A1

Foto 2A : Os fósseis de corais são bons fósseis de fácies. Estes fósseis permitem inferir do ambiente de formação da rocha em que se encontram. Este tipo de fósseis pertence a organismos que tiveram uma fraca distribuição geográfica, mas que viveram um largo período de tempo. Os recifes de coral são comunidades constituidas por uma grande diversidade de seres vivos . Os corais, são animais que pertencem ao mesmo filo das anémonas. Os esqueletos dos animais mortos constituem a base do recife. Estes recifes de coral são edificados em águas tropicais quentes, pouco profundas e com pouca carga de sedimentos. B: Calcários do Jurássico Superior com estratificação bem marcada vendo-se a rede de diáclases à superfície e no interior das camadas. Calcários argilosos e margas, por vezes com níveis nodulares provocados pela bioturbação (galerias escavadas por crustáceos, que viviam no interior do sedimento). A deposição ocorre principalmente em meio aquático, originando normalmente, camadas sobrepostas de forma horizontal e dispostas paralelamente – os estratos. Cada estrato é delimitado por um tecto, estrato que se encontra acima, e por um muro, estrato que fica por baixo. A superfície de separação entre estratos chama-se junta de estratificação. Os estratos observados em B não se encontram na sua posição original sendo os mais antigos os localizados mais à direita.

O estudo dos microfósseis (foraminíferos, ostracodes e algas) permitiu concluir que o ambiente de deposição destes calcários e margas do Jurássico Superior correspondia a uma laguna marinha confinada, cuja profundidade foi diminuindo ao longo do tempo, tendo tido, no final, influências de água doce (espessura com cerca de 400m).

Maciço eruptivo de Sintra

O Maciço eruptivo de Sintra corresponde a um corpo magmático com um núcleo sienítico, associado a brechas ígneas, envolvido por uma importante massa de granitos e afloramentos dispersos de gabro-dioritos. A este maciço devem estar ligados numerosos filões (basaltos, aplitos, microssienitos, etc). O calor libertado pelo magma provocou a recristalização dos calcários que envolviam o maciço, transformando-os em mármores.

Estas rochas magmáticas constituem o relevo mais importante da região, a Serra de Sintra, consequência não só dos movimentos verticais de ascensão do magma, mesmo após a sua consolidação, mas também à erosão diferencial que desmantelou mais rapidamente as rochas sedimentares que envolviam o maciço. A idade da intrusão deste maciço está calculada entre setenta e cinco a noventa e cinco milhões de anos, portanto próxima do final do Cretácico e terá sido posto a descoberto pela erosão da cobertura sedimentar só cerca de quarenta milhões de anos depois, no Terciário Inferior (Oligocénico). A maior parte dos sedimentos que cobriam o maciço foi destruída pela erosão. Considera-se que a instalação deste maciço esteja relacionada com os fenómenos de distensão da crusta terrestre, relacionados com uma das fases de abertura e desenvolvimento do oceano Atlântico, Foto 3 .

As rochas de idade mesozoica afloram na parte sul e sudeste do Maciço de Sintra, contornando-o regularmente numa série monoclinal, apresentando as camadas em contacto com a rocha eruptiva, uma inclinação máxima de 60º , a qual vai decrescendo regularmente à medida que se afasta do maciço.

Falha 1

Foto 3 – Afloramento da Praia do Abano onde é possível observar uma sucessão de ocorrências geológicas relacionadas com a distensão mesozóica, com a inversão da Bacia Lusitaniana e, principalmente, com a instalação do Complexo Ígneo de Sintra. Na foto é possível observar um dos principais desligamentos (NNW-SSE) com exposição do espelho de falha apresentando uma área considerável, que poderá ter uma história geológica complexa.

Os Calcários nodulares e compactos com algumas intercalações margosas de idade Titoniana (Jurássico superior) depositaram-se em ambiente lagunar marinho, mais ou menos confinado, em que as influências salobras se fazem sentir nitidamente na passagem para o Cretácico.

No afloramento da Ponta da Abelheira observam-se (com grande área e qualidade de exposição) com múltiplos filões, de composições (máficos e félsicos), géneses e geometrias diferentes (complexo radial e sistema de cone sheets ), mostrando relações de corte (inteseção) permitindo conclui que os filões radiais são mais recentes, Foto 4.

filões cruzados

Esquema do abano com filões

Foto 4 – Afloramento da Ponta da Abelheira. A – xenólito de calcário no interior do filão 3 – Princípio da inclusão. Nas rochas magmáticas é frequente encontrarem-se encraves (xenólitos) de outras rochas que não foram assimiladas pelos processos de magmatismo. Nestas condições, os xenolitos são mais antigos que a rocha que os contém. Os filões 1,3,3 intersectam-se e intersectam a estratificação “horizontal” e “vertical”. O mais antigo é o filão 1 e o mais recente o 3. A observação de afloramentos de rochas intrusivas, contendo falhas e rochas sedimentares com superfícies de erosão, permitiu estabelecer o princípio da intersecção. Este princípio postula que qualquer estrutura geológica que interseta outra é mais recente.

À intrusão do Maciço de Sintra deve estar ligado um enorme conjunto de filões eruptivos, de composição diversa (riólitos, basaltos, doleritos) que se dispõem quer concentricamente em relação àquele maciço, quer radialmente como estes observados na Ponta da Abelheira.

Fontes consultadas:

http://geossitios.progeo.pt/geositecontent.php?menuID=3&geositeID=1028

Click to access Carta-Geologica-de-Portugal-na-escala-de-1-50-000-Noticia-explicativa-da-Folha-34-C-Cascais.pdf

Click to access Kullberg%20%26%20Kullberg%20%28Sintra_2000%29.pdf

Click to access Caminhando%20com%20a%20Geologia%20na%20Serra%20de%20Sintra.pdf

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