Viagem ao carso do Maciço Estremenho

Carso” é a palavra usada para descrever um conjunto interessante de formas terrestres e os seus processos de formação. A palavra de origem germânica (Karst), do esloveno Kras (vem de Kara ou Gora, que significa “pedra”), é uma referência a uma região calcária da Eslovénia e Itália, que assim foi nomeada por ser estéril, onde a vegetação era praticamente inexistente. No seu sentido lato, Carso é o termo usado para descrever um estilo especial de paisagem contendo grutas e extensos sistemas fluviais subterrâneos que se desenvolvem em rochas especialmente solúveis como sendo o caso do calcário, gesso e o mármore.

As regiões calcárias são, em geral, caracterizadas por aspetos particulares de relevo e circulação hídrica que constituem o modelado cársico, resultado da ação da água enriquecida em CO2 que dissolve a rocha ao longo das descontinuidades que compartimentam os maciços nas diferentes escalas. A quantidade de rocha que pode ser dissolvida depende de diversas condições, como sejam o seu grau de pureza e composição, espessura e tipos de solos e de fatores climáticos, nomeadamente a temperatura e precipitação, Foto 1.

Cársico esqhemaFoto 1 – Diagrama ilustrativo dos principais fenómenos que ocorrem nos terrenos cársicos. O exocarso corresponde ao conjjunto de formas e processos cársicos que se desenvolvem à superfície da Terra.

Várias são as formas de absorção presentes nas regiões calcárias como as superfícies rochosas sulcadas por fendas mais ou menos alargadas, os lapiás, as depressões fechadas com dimensões e formas variáveis, que podem ir desde as dolinas, com contornos simples e dimensão decamétrica a hectométrica, às uvalas, com contornos mais complexos e dimensão hectométrica, até aos poljes, com grandes extensões, de fundo plano parcialmente coberto por sedimentos e dimensão quilométrica. Os escassos vales presentes nas regiões cársicas podem ser vales cegos, isto é, terminam abruptamente em sumidouros. Se rios com caudal permanente conseguirem atravessar regiões cársicas, podem escavar profundas gargantas com vertentes verticais (vales em canhão), por vezes beneficiando do abatimento do teto de grutas intersectadas.

A água infiltrada nas fendas dos lapiás, nos sumidouros ou no fundo das dolinas e das uvalas, continua o seu processo de dissolução do maciço formando as grutas. As lapas e algares são designações para as grutas cuja entrada é, respetivamente, horizontal ou vertical. As grutas são constituídas por galerias, salas e poços, cuja complexidade aumenta como resultado da progressiva confluência das águas infiltradas, formando-se redes subterrâneas que podem atingir desenvolvimentos da ordem das dezenas de quilómetros. As águas infiltradas desembocam em exsurgências, em geral com grandes caudais de ponta, que podem estar ou não associadas a redes subterrâneas.

Maciço Calcário Estremenho

O Maciço Calcário Estremenho constitui uma unidade geomorfológica definida e individualizada acima da cota dos 200 m, onde as formas cársicas assumem aspetos bem característicos e espetaculares. As rochas que afloram no Maciço Calcário Estremenho são sobretudo os termos do Jurássico (calcários, dolomitos, calcários margosos e margas), ocorrendo também em menor extensão os sedimentos do Cretácico e do Oligocénico e outros mais recentes.  O Maciço Calcário Estremenho é constituído por blocos separados por falhas que segmentam a Bacia Lusitâniana. Esses blocos foram desnivelados ainda durante a distensão (falhas normais), por movimentos diapíricos e por compressões resultantes da passagem de regime distensivo a compressivo durante as várias fases da orogenia alpina.

Assim o Maciço Calcário Estremenho está individualizado em três blocos elevados: a Serra dos Candeeiros, o Planalto de Santo António e a Serra de Aire e Planalto de S. Mamede. O bloco elevado do Planalto de Santo António está limitado a oeste pela falha da Costa da Mendiga, com direção NNE-SSW, e a leste pelas falhas da Costa de Alvados e da Costa de Minde com direção próxima de NW-SE. A estrutura geral do bloco de Santo António está basculada para sudoeste, com a extremidade norte levantada, o que favorece o aparecimento do Jurássico inferior nesta área. A oeste deste bloco elevado situa-se o bloco abatido da Mendiga e a leste o bloco abatido de Alvados-Minde que se liga a oriente com o bloco elevado de S. Mamede e Serra de Aire através da falha de Vale de Barreiras. A sul, estes blocos contactam com os sedimentos da Bacia do Baixo Tejo por acidentes cavalgantes (falhas do Arrife), Foto 2.

AAAAAFoto 2 – No planalto de Santo António, o topo dos cabeços define uma superfície de iso-altitudes a cotas de 500 a 590 m, designado por “nível das Pias”, que inicialmente foi identificado no Planalto de S. Mamede. O exocarso é representado pelas grandes depressões fechadas, por campos de lapiás de várias géneses, inúmeras pequenas dolinas e vales cegos e vales secos.

Polje de Minde

Os poljes são extensas regiões planas, fechadas, geralmente rebaixadas e com paredes íngremes, cuja origem está relacionada com acidentes tectónicos, como por exemplo falhas. Ao longo dessas falhas a circulação e dissolução das águas é muito intensa, Foto 3.

Polje de Minde (Final)Foto 3 – O Polje de Minde é uma depressão cársica fechada de dimensão quilométrica com 4 km de comprimento por 1,5 km de largura no seu fundo plano regularizado à cota dos 195 m. Para norte, outras depressões fechadas situam-se no mesmo alinhamento, escalonadas em altitude (Mindinho e Chão Mindinho). É enquadrado a ocidente pela imponente escarpa de falha da Costa de Minde e da Costa de Mira, a nordeste pelas vertentes do Planalto de S. Mamede e a sudeste pelas vertentes da Serra de Aire. O Polje de Minde apresenta inundações periódicas em resultado do afluxo proveniente das nascentes temporárias situadas nos bordos norte e este e da fraca capacidade de esgotamento dos sumidouros situados no fundo e no bordo oeste.

Fórnea – o anfiteatro natural

Ribeira da Fórnea, localizada a cerca de 5 Km para SSE de Porto de Mós, ligeiramente a SSW da povoação de Zambujal de Alcaria, ribeira cuja cabeceira entalhou um profundo anfiteatro natural designado por Fórnea Este vale é também conhecido como Barranco do Zambujal (Formação de Barranco do Zambujal). A espessura máxima desta Formação é da ordem de 220-250 m, sendo constituída por margas, calcários margosos e calcários micríticos, mais raramente siltíticos, em geral muito fossilíferos. As amonites e as belemnites são quase sempre abundantes.

A Fórnea é  uma forma em anfiteatro ou cone invertido que tem a sua origem e modelado fatores complexos, estando sempre presente os de natureza cársica. Na cabeceira ficam localizadas uma ou mais exsurgências (emergência à superfície de um cursos de água subterrâneo cujo caudal resulta de infiltrações diversas no maciço carsificado) responsáveis pela erosão remontante, Foto 4.

Fórnea-2

Foto 4 – Fórnea no Maciço Calcário Estremenho. A Fórnea é um anfiteatro natural com cerca de 500 metros de diâmetro e 250 metros de desnível escavado nos calcários margosos, margas e calcários do Jurássico inferior e médio. A Fórnea corresponde a um recuo pronunciado em forma de anfiteatro, de uma zona baixa para dentro de um planalto calcário, começando em Chão das Pias – Serro Ventoso – e descendo até Alcaria. Os habitantes locais chamam-lhe Fórnea devido à sua forma que se assemelha a um forno. A designação de Fórnea advém da explicação científica da formação natural desta depressão. A Fórnea terá resultado duma evolução geomorfológica local condicionada por falhas transversas aos falhamentos NW-SE de Alvados-Alcaria. A água da chuva e as exsurgências, dispostas de forma semicircular e de carater temporário são consideradas responsáveis pela formação da Fórnea, através do processo de erosão regressiva, provocando o contínuo recuo das cabeceiras das linhas de água.

Em certos casos, a sua localização está dependente de fatores estruturais (litológicos e/ou tectónicos). Para o perfeito modelado das vertentes, podem contribuir processos crionivais herdados de períodos mais frios que o atual, Foto 5.

Fórnea cascalheirasFoto 5 –  Escombreiras de gravidade nas vertentes da Fórnea, formadas no Quaternário.

Na vertente da Fórnea é possível observar a presença de escombreiras de gravidade, verdadeiros cones de materiais, em declives superiores a trinta graus, tratando-se nitidamente de formações não atuais, contemporâneas de períodos mais frios do Quaternário, nas quais se nota uma nítida classificação das dimensões dos elementos rochosos do topo para a base onde se situam os maiores blocos.

Lapiás de origem bioquímica – Pias

No planalto de Santo António é possível encontrar extensas áreas repletas de campos de lapiás. Consideradas como formas cársicas menores, os lapiás, embora englobem as formas cársicas de dimensão mais ou menos reduzida, são os que melhor evidenciam a existência de processo de dissolução ativos à superfície. O termo é utilizado seja para designar uma forma elementar, seja para denominar um conjunto de formas lapiares. Para designar uma área onde as formas lapiares são densas, emprega-se o nome de Campo de Lapiás.

Existem diversas classificações de lapiás, em função da cobertura sedimentar que possuem, quanto à morfologia ou ao tipo de cobertura e as condicionantes estruturais. Existe uma classificação (a que vai aqui ser utilizada) que tende a priviligiar os processos de formação dos lapiás, dando lugar a três conjuntos: lapiás cujo o processo dominante se relaciona com a escorrência da água, um segundo conjunto de formas lapiares, formado pela ação conjunta do escoamento e da dissolução, controlados por fatores estruturais e finalmente um conjunto de lapiás com uma origem bioquímica, resultante da acção conjunta da dissolução e dos organismos vivos, como é o caso das pias de dissolução, Foto 6.

Foto 6  – Pias de origem bioquímica. As populações no planalto de Santo António utilizam estas pias como reservatórios de água para a agricultura.

O maciço encontra-se dividido em três regiões elevadas: a Serra dos Candeeiros, o Planalto de Santo António e o Planalto de São Mamede e Serra de Aire. O planalto de Santo António, com forma triangular e de vértice apontado para norte, é constituído por superfícies altas limitadas por escarpas vigorosas, principalmente a ocidente e a oriente. É nesta região setentrional que termina esta primeira viagem à morfologia cársica e da geologia do Maciço Calcário Estremenho.

Fontes consultadas

  • Crispim, J. A. (1992). Características cársicas das rochas carbonatadas da região central do Maciço Calcário Estremenho (Portugal). Algar – Boletim da Sociedade Portuguesa de Espeleologia(3), 9-18.
  • Crispim, J. A. (1993). Algumas considerações sobre a estrutura geológica dos poljes de Alvados e Minde (Estremadura – Portugal) Algar – Boletim da Sociedade Portuguesa de Espeleologia(4), 13-26.
  • Ford, D. C., & Williams, P. W. (1989). Karst Geomorphology and Hydrology. London: Unwin Hyman.
  • Kullberg, J. C., Rocha, R. B., Soares, A. F., Rey, J., Callapez, P., & Martins, L. (2006). A Bacia Lusitaniana: Estratigrafia, Paleogeografia e Tectónica. In R. Dias, A. Araújo, P. Terrinha, & J. C. Kullberg (Eds.), Geologia de Portugal no contexto da Ibéria (pp. 317-368). Évora: Universidade de Évora.
  • Kullberg, M. C., Kullberg, J. C., & Terrinha, P. (2000). Tectónica da Cadeia da Arrábida. Tectónica das regiões de Sintra e Arrábida. Memórias Geociências. (Vol. 2, pp. 35-84). Lisboa: Museu Nacional História Natural da Universidade de Lisboa.

 

Site no WordPress.com.

EM CIMA ↑