Estuário do Douro

Nas últimas semanas de janeiro de 2020 o rio Douro apareceu com um tom fortemente castanho. Esta cor está relacionada com os materiais sólidos acumulados nas albufeiras da bacia hidrográfica. Habitualmente as barragens não efetuam descargas sucessivas de água, pelo que os materiais sólidos são acumulados nas albufeiras e assim não se tornam visíveis nas povoações mais a jusante do Douro, Foto 1.

Rio Douro AS1

Foto 1 -Na maior parte dos estuários existe uma zona onde os sedimentos finos em suspensão estão muito concentrados – o corpo lodoso). Este núcleo de sedimentos vasosos em suspensão resulta da floculação das argilas em contacto com as águas salinas que circulam para montante ou para jusante de acordo com as marés.

O rio Douro nasce na serra de Urbion (Cordilheira Ibérica), a cerca de 1.700 m de altitude. Ao longo do seu curso de 927 km (o terceiro maior entre os rios da Península Ibérica, depois do Tejo e do Ebro) até à foz no Oceano Atlântico, junto à cidade do Porto, atravessa o território espanhol numa extensão de 597 km e serve de fronteira ao longo de 122 km, sendo os últimos 208 km percorridos em Portugal. A bacia hidrográfica do rio Douro tem uma área total de 97.603 km2 , dos quais 18.643 km2 em Portugal (19% do total) e 78.960 km2 em Espanha (81%), ocupando o primeiro lugar em área entre as bacias dos maiores rios peninsulares. O rio Douro é o único rio português que conserva, até à foz, as suas escarpadas vertentes de canhão, sem que, ao contrário dos outros rios portugueses, forme um estuário amplo e pouco profundo quando chega ao litoral, Foto 2.

Rio Douro AS

Foto 2 -O Rio Douro drena a maior bacia hidrográfica da Península Ibérica. Os 97 600 Km2 de bacia cobrem cerca de 17 % da Península, dos quais 20 % em Portugal e 80 % em Espanha. O rio desagua no Oceano Atlântico, entre as cidades de Porto e Vila Nova de Gaia. Na bacia do Rio Douro existem mais de 50 grandes aproveitamentos hidroeléctricos dispostos ao longo do seu curso principal e efluentes, o último dos quais situa-se a 21,6 km da barra (Crestuma-Lever), tendo entrado em funcionamento em 1985.

Geoconversando sobre o Rio Douro

A topografia de uma região, o clima e a força da gravidade, são as principais condicionantes do trajeto dos cursos de água. Eles tendem sempre a partir da montanha atingir o mar ou um lago interior.

O Norte de Portugal estrutura-se no Maciço Ibérico (MI), uma unidade morfo-tectónica da Península Ibérica caracterizada por rochas metassedimentares  proterozoicas e paleozoicas e abundantes granitoides afetados pela orogenia Varisca e Alpina. O Maciço Ibérico ocupa o setor centro-ocidental da Península Ibérica, constituindo o seu núcleo mais antigo e rígido. Desde a orogenia varisca tem sofrido erosão, gerando, em setores como o NE de Portugal, um relevo pouco  acentuado, designada por Meseta. A desnudação envolveu uma sucessão de ciclos de erosão e meteorização, que deram origem a superfícies de aplanamento e níveis embutidos. Devido às diferenças de resistência à meteorização e erosão do soco varisco, desenvolveu-se no MI um relevo do tipo apalachiano, caracterizado por cristas quartzíticas com orientação NW-SE, que se destacam das amplas superfícies desenvolvidas em granitoides, xistos e metagrauvaques. Durante o Cenozoico desenvolveram-se sobre o Maciço  Ibérico drenagens fluviais, quer para ocidente quer para oriente (Bacia do Douro) e das quais é possível observar testemunhos que permitem a reconstituição da evolução dos modelos aluviais. No Plistocénico, a rede hidrográfica desenvolveu um progressivo encaixe, particularmente profundo no vale do Douro. Durante esta etapa de incisão a evolução dos vales fluviais foi controlado pelos fatores tectónicos, litológicos, eustáticos e climáticos.

Estuário do Douro

Nas margens do estuário desenvolveram-se três concelhos ribeirinhos (Porto, Vila Nova de Gaia e Gondomar), que exercem uma grande pressão antropogénica sobre o ecossistema. Para além de recetor de efluentes tratados e não tratados, o estuário é também utilizado para actividades de lazer (banhos, pesca desportiva, desportos náuticos, etc.) e fins comerciais (pesca profissional, navegação fluvial de turismo, extracção de inertes e navegação entre rio e mar).

O estuário situa-se entre a barra e a barragem de Crestuma-Lever, onde o rio corre num vale encaixado e somente a 2,9 km da barra ocorre o alargamento das margens, atingindo a largura máxima de 1300 m. Com cerca de 22 km de comprimento apresenta uma propagação da maré limitada a montante pela barragem de Crestuma. A penetração salina depende do facto de o caudal do rio não ser contínuo, só sendo atingida a barragem em condições de caudal excecionalmente baixo, ou nulo, e perante marés de elevada amplitude. Descargas elevadas (superiores a 690 m3/s) fazem com que o estuário seja integralmente composto por água doce, independentemente da maré.

As águas do Douro provocam a erosão das margens escarpadas e por vezes urbanizadas que atravessam, e arrastam aluviões que se vão depositar ao longo da costa, ajudando a formar as praias arenosas. A construção de barragens reduziu o fornecimento sedimentar para a costa, estimando-se que atualmente as barragens sejam responsáveis pela retenção de mais de 80% dos volumes de areias. Esta redução associa-se não só ao efeito de retenção sedimentar nas albufeiras, mas também à regularização das velocidades, resultante da atenuação das cheias.

As duas forças essenciais em ação nos estuários são as correntes fluvial e das marés. A importância da corrente fluvial depende, como é evidente, do seu caudal e da sua velocidade. Esta corrente é contrariada pela força da maré enchente. De forma oposta, a maré de vazante vai potenciar a força da corrente. No máximo da maré alta, o nível do mar é mais elevado que o nível da água no rio. Daí a penetração da água do mar ao longo do rio, ou enchente (com formação de uma cunha salina). Pelo contrário, no máximo de maré baixa, o nível da água é bastante mais alto no rio que no mar, porque à água do rio se juntou a água marinha que nele penetrou durante a enchente, originando uma descarga, durante a vazante, que pode atingir velocidades elevadas.

As cheias no estuário do Douro

Quer durante a maré baixa quer durante a maré alta não há corrente alguma e a água está praticamente parada. Este facto tem importantes consequências em termos de sedimentação, já que a ausência de corrente durante a maré alta vai produzir a deposição de sedimentos transportados em suspensão ou resultantes da floculação de argilas em contacto com as águas marinhas ricas em iões. Se numa situação de cheia coincidirem marés altas vivas e uma sobre-elevação meteorológica do tipo storm surge, o rio não consegue escoar a água que transporta. Esta vai-se acumulando, fazendo subir o respetivo nível no estuário, originando cheias. Esse fenómeno pode ser particularmente intenso em rios que se mantenham encaixados até perto da foz, porque num vale estreito a cheia tem tendência a subir mais rapidamente, como é o caso do rio Douro.

Cabedelo – entre o estuário e o atlântico

A restinga é uma grande formação arenosa que separa o estuário do Douro do oceano, situada na margem Esquerda (a Sul) do estuário do rio Douro e que se formou por ação das correntes litorais, Foto 3.

Cabedelo

Foto 3 – Vista do Cabedelo a partir da Praia de Lavadores (Gaia). A construção dos molhes do Douro, produziu efeitos na hidrodinâmica do rio Douro, na evolução da sua restinga, designada Cabedelo, que no curto prazo diminuiu os efeitos das cheias no rio Douro e melhorou a navegabilidade da sua Barra.

Para além das variações cíclicas, sazonais de área, volume e forma, fruto dos elevados caudais fluviais, da ondulação e da ação do vento, a restinga sofreu alterações de longo prazo, com uma tendência clara para o recuo da restinga para montante do Rio Douro. Desde meados do séc. XX que era notório um progressivo recuo do Cabedelo para o interior do estuário, motivado pela diminuição da frequência e intensidade das cheias do  rio, pela diminuição do transporte de sedimentos e pela extração de areia no estuário. Este fenómeno levanta problemas de segurança para as populações ribeirinhas de Gaia e Porto, já que o Cabedelo as defende das investidas do mar durante as tempestades. A total destruição, por ação do Homem, da flora que fixava as dunas do Cabedelo contribuiu, também, para a sua instabilidade. Desde a construção do molhe Norte do Porto de Leixões (1960), diminuiu o transporte de areia ao longo da costa, de Norte para Sul. Por sua vez, com a construção em 1980 sucessivas barragens, tendo sido a última barragem do Douro (Crestuma/Lever) construída nos anos 80, a alimentação do Cabedelo com as areias transportadas pelo rio diminuiu drasticamente Por ação do homem, com a construção dos molhes na foz do rio Douro (2004-2009) a restinga deixou de sofrer tantas variações, tornando mais estável a sua forma, tendo vindo a gradualmente aumentar quer a sua área quer o seu volume.

Estuário e biodiversidade

Aos estuários chegam os nutrientes e a matéria orgânica que os rios transportam. Por isso os ecossistemas estuarinos são dos mais produtivos do Planeta. Foi para aproveitar essa produtividade, nomeadamente a grande riqueza em peixe (sável, lampreia, enguia, etc.) e em bivalves (berbigão, por exemplo) que desde tempos imemoriais o homem se fixou junto aos estuários. Os estuários têm ainda, uma função importantíssima na manutenção dos recursos piscícolas, já que funcionam como verdadeiras “maternidades”. É nos estuários, que muitos peixes desovam e se desenvolvem nas primeiras fases de vida, antes de se aventurarem nas águas mais profundas e agitadas do oceano. A  pesca costeira depende em grande parte dos estuários, rias e lagoas do litoral. O estuário está no encontro de dois ecossistemas diferentes: um de água doce (o rio) e outro de água salgada, o ecossistema marinho. Sujeito à influência das marés, as águas do estuário vão variando o seu grau de salinidade e a sua profundidade. Os aluviões que o rio arrasta sedimentam em grande quantidade nas águas calmas do estuário, formando bancos de areia que cobrem e descobrem com as marés. Uma formação típica dos estuários são os sapais, formações aluvionares periodicamente alagadas pela água salgada e ocupadas por vegetação halofítica, como o da Baía de São Paio.

A criação da Reserva Natural Local do Estuário do Douro, teve como objetivo de proteger aves e a paisagem local. A reserva serve de refúgio a aves migradoras, como a garça-real e o corvo-marinho, de nidificação a limícolas, como o peneireiro. A reserva desempenha também um papel de maternidade para espécies piscícolas de importância comercial, como a solha e enguia, ou ambiental, como os góbios, integrando ainda um sapal, populações de bivalves e diversa vegetação dunar.

As areias intertidais absorvem o excesso de nutrientes oriundos de montante, funcionando como estações de depuração da água estuarina, retendo também os lodos com metais pesados e outros poluentes. A reserva A Reserva Natural Local do Estuário do Douro pode ser classificada como um ecossistema de rara diversidade, tendo em maio de 2012 passado a integrar a Rede Nacional de Áreas Protegidas. Os limites da reserva são coincidentes com os limites da Baía de São Paio, abrangendo parte da restinga.

Glossário

Cartas náuticas – inicialmente em papel agora digitais, registam de forma precisa a localização dos perigos e das ajudas à navegação, permitindo definir de acordo com o calado as melhores rotas para uma navegação segura. No entanto, é fundamental relacionar demais condicionantes, como sejam, os fatores atmosféricos (ex.: vento), o estado do mar (ex.: correntes, agitação marítima), as variações da maré (ex.: restrições calado em navegação de canais estreitos, no acesso aos portos, realização de manobras, o cálculo da carga dos navios e da velocidade de navegação dos navios), as oscilações registadas pelos sensores de movimento do navio (velocidade de navegação, alterações do regime das máquinas dos motores, as oscilações na linha de água, inclinação horizontal e vertical).

Estuário –  corpo de água costeiro semi-fechado que se estende até ao limite efetivo da influência da maré, em que no seu interior penetra água salgada proveniente de uma ou mais conexões livres com o mar aberto, ou outro qualquer corpo de água salino costeiro, sendo significativamente diluído pela água doce proveniente da drenagem continental e, consegue sustentar espécies biológicas eurihalinas durante todo ou parte do seu ciclo de vida.

Hidrografia é a ciência que estuda e descreve as características físicas dos corpos de água, inclui, nomeadamente, a batimetria, a forma e as características da linha de costa, as características de marés, correntes e ondas, e as propriedades físicas e químicas da própria coluna de água, bem como a sua evolução e a previsão das suas alterações ao longo do tempo.

Referências

Veloso-Gomes, F., S. Sena (2003). Zonas inundáveis pelo rio Douro na área de intervenção do programa Polis em Vila Nova de Gaia. Relatório técnico, Instituto de Hidráulica e Recursos Hídricos – IHRH, 53.

Veloso-Gomes, F., F. Taveira-Pinto, G.M. Paredes (2009). Estudo da evolução da fisiografia da restinga do Rio Douro desde 2002. Quartas Jornadas de Hidráulica, Recursos Hídricos e Ambiente, FEUP, 10.

Veloso-Gomes, F. (2010). Contributos para o Plano de Ordenamento do Estuário do Douro. Quintas Jornadas de Hidráulica, Recursos Hídricos e Ambiente, FEUP, 7. Vieira, M., A. Bordalo (2000). The Douro estuary (Portugal): a mesotidal salt wedge. Oceanologica Acta, 23(5), 585-594.

 

 

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