Arribas e os movimentos de massa

Uma arriba (Cliff) não é mais do que um talude natural com forte declive, que sofre erosão, por vezes intensa no sopé por ação direta da ondulação, e por processos subaéreos, Foto 1.

SPMoel - deslizamento

Foto 1 – Movimento de massa na Praia da Polveira (São Pedro de Moel) Em São Pedro de Moel   a Formação de Água de Madeiros do Jurássico Inferior (Sinemuriano)  está organizada em dois membros: Membro de Polvoeira na base e Membro da Praia da Pedra Lisa no topo. Esta Formação possui 42 m e é constituído por alternâncias de margas e calcários margosos, geralmente de cor cinzenta, com níveis ricos em matéria orgânica. Em termos macrofaunísticos, comporta essencialmente bivalves e braquiópodes na porção inferior que dão lugar, superiormente, a amonóides e belemnites. Estas unidades do Jurássico Inferior em S. Pedro de Moel encontram-se fortemente marcadas pela tectónica diapírica (diapiro de S. Pedro de Moel), dispostas numa estrutura em sinclinal.

As arribas, apesar de em alguns casos apresentarem configuração aparentemente imutável à escala de observação de alguns anos, sofrem evolução contínua das faces expostas aos agentes de erosão marinha.

Assim, a instabilidade dos sistemas litorais de arriba resulta da atuação de diversos processos, que dependem de inúmeros fatores de natureza geológica, morfológica, climática e hidrológica. Em grande parte das litologias e dos contextos climáticos, o aumento do declive proporcionado pela erosão basal propicia a ocorrência de movimentos de massa de vertente, onde o centro de gravidade do material afetado progride para jusante e para o exterior da arriba.

Os movimentos de massa em arribas subverticais são normalmente instantâneos e dificilmente previsíveis, podendo envolver a mobilização de milhares de metros cúbicos de material, podendo provocar danos irreversíveis quer para as ocupações no topo das arribas, quer para os utentes das eventuais praias suportadas pelas arribas. São assim, geradores de situações de risco podendo interferir significativamente com a ocupação humana no litoral, pondo em causa a segurança de pessoas e bens.

A erosão marinha é a principal responsável pelo retrocesso dos litorais rochosos e empreendedora da evolução destes sistemas costeiros. As ondas são o agente erosivo mais importante ao longo da maioria das costas, mas os seus efeitos e eficácia variam de acordo com as suas características, a morfologia costeira e as características das rochas.

A forte erosão marinha está relacionada com a ocorrência de temporais, em particular durante o Inverno, através do sapamento da base da arriba, pela ondulação incidente (aumento da pressão provocada pelo choque e consequente descompressão resultante da sucção provocada pelas correntes de refluxo) e alguma metralhagem na face da arriba.

Glossário

Balançamento/tombamento (“topple”) –  consiste num movimento de queda-livre com a rotação de um bloco em torno de um eixo fixo durante o movimento, ou rotação de uma massa de solo ou rocha, a partir de um ponto ou eixo situado abaixo do centro de gravidade da massa afetada. O movimento ocorre por influência da gravidade e pela ação de forcas laterais, exercidas quer por unidades adjacentes, quer por fluidos presentes em diáclases e fracturas.

Deslizamento (“slide”) – é o cisalhamento sobre uma superfície de deslizamento distinto, e a massa de deslizamento apresenta um movimento em bloco; movimento de solo ou rocha que ocorrem dominantemente ao longo de planos de rutura ou de zonas relativamente estreitas, alvo de intensa deformação tangencial. Os deslizamentos podem ser subdivididos em deslizamento planar e deslizamento rotacional. O primeiro tem uma superfície de deslizamento quase linear, ao passo que o último é de plano circular

Escoada (“flow”) é um movimento com velocidade crescente em direção à parte superior de um corpo em movimento, as escoadas ocorrem em algumas costas compostas por materiais argilosos pouco resistentes originando fluxos de lama (“mudflows”).

Movimentos de massa em costas rochosas – dividem-se em 4 tipos: desabamentos/queda de blocos (“falls”), balançamentos/tombamentos (“topples”), deslizamentos (“slides”) e escoadas/fluxos (“flows”). Estes tipos de movimentos dependem principalmente dos fatores estruturais e litológicos do material que forma a rocha, tais como a estrutura geológica, características estratigráficas e propriedades geotécnicas ou resistência da rocha.

Queda de blocos (“fall”)  – corresponde a movimento de massa que viaja através do ar como um corpo em queda livre, ou deslocação de solo ou rocha a partir de um abrupto, ao longo de uma superfície onde os movimentos tangenciais são nulos ou reduzidos. Podem ser subdivididos em desabamento rochoso, desabamento de detritos, desabamento de terra, de acordo com o tipo de material na arriba antes do movimento.Trata-se de um movimento de massa brusco, caracterizado pela elevada velocidade que pode atingir, em relação à queda livre que ocorre pelo menos em parte da deslocação.

Referências: 

Neves, M. (2004) Evolução atual dos litorais rochosos da Estremadura Norte. Estudo
de Geomorfologia. Dissertação de Doutoramento. Faculdade de Letras da
Universidade de Lisboa, Lisboa. 574 p.

Sunamura, T. (1992) Geomorphology of rocky coasts. John Wiley & Sons, Chichester,
302 p.

 

Campo de Lapiás (Granja dos Serrões)

As regiões calcárias são, em geral, caracterizadas por aspetos particulares de relevo e circulação hídrica que constituem o modelado cársico, resultado da ação da água enriquecida em CO2 que dissolve a rocha ao longo das descontinuidades que compartimentam os maciços nas diferentes escalas. A quantidade de rocha que pode ser dissolvida depende de diversas condições, como sejam o seu grau de pureza e composição, espessura e tipos de solos e de fatores climáticos, nomeadamente a temperatura e precipitação.

Lapiás (Granja dos Serrões)-10

 

Na Granja dos Serrões, localizada no concelho de Sintra, Foto 1, afloram calcários do Cretácico superior pertencentes à Bacia Lusitaniana. Esta, é uma bacia sedimentar que se desenvolveu na Margem Ocidental Ibérica durante parte do Mesozóico. A sua dinâmica enquadra-se no contexto da fragmentação da Pangeia, mais especificamente da abertura do Atlântico Norte. Caracteriza-se como uma bacia distensiva, pertencente a uma margem continental do tipo atlântico de rift não vulcânica. Ocupa mais de 20 000 km2 na parte ocidental da Margem Ocidental Ibérica, alongando-se por cerca de 200 km segundo direcção aproximada NNW-SSE e por mais 100 km na direcção perpendicular. Cerca de 2/3 aflora na área continental emersa e a restante área, encontra-se imersa, na plataforma continental.

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Foto 1 –  Calcários do Cenomaniano superior (Cretácico) de Pero-Pinheiro. Foi no Cretácico superior que se deu a colisão entre as placas Africana e Euroasiática, responsável pelo ambiente compressivo na microplaca Ibérica. Neste contexto, ocorreram ciclos magmáticos com importante influência na área da Bacia Lusitaniana.

Durante Cenomaniano (Complexo Carbonatado Cenomaniano) a Bacia Lusitaniana encontrava-se já numa fase de pós-rift e colmatação em margem passiva, em que ocorreu sedimentação de carbonatos, com extensão de plataforma carbonatada para norte, num período em que se registou o máximo da transgressão marinha. Este “Complexo Carbonatado Cenomaniano” é constituído por espesso conjunto de calcários, calcários margosos, calcários dolomíticos, margas e argilas margosas com níveis fossilíferos, Foto 2.

Foto 2 – Engloba-se no Cenomaniano superior os “Calcários com rudistas” e “Camadas com Neolobites vibrayeanus”. Os “Calcários com rudistas” (antigo Turoniano), que constituem o topo do Cenomaniano superior, formaram-se em ambiente recifal. São calcários subcristalinos, fossilíferos, por vezes com níveis nodulados e leitos de sílex nas camadas superiores, correspondendo ao enchimento de canais e lagunas. As “Camadas com Neolobites vibrayeanus” constituem a base do Cenomaniano superior. São constituídas por calcários apinhoados com abundantes alveolinídeos e marcam a transição do Cenomaniano superior para o Cenomaniano médio.

Modelado Cársico

Várias são as formas de absorção presentes nas regiões calcárias como as superfícies rochosas sulcadas por fendas mais ou menos alargadas, os lapiás, as depressões fechadas com dimensões e formas variáveis, que podem ir desde as dolinas, com contornos simples e dimensão decamétrica a hectométrica, às uvalas, com contornos mais complexos e dimensão hectométrica, até aos poljes, com grandes extensões, de fundo plano parcialmente coberto por sedimentos e dimensão quilométrica. Os escassos vales presentes nas regiões cársicas podem ser vales cegos, isto é, terminam abruptamente em sumidouros. Se rios com caudal permanente conseguirem atravessar regiões cársicas, podem escavar profundas gargantas com vertentes verticais (vales em canhão), por vezes beneficiando do abatimento do teto de grutas intersectadas, Figura 1.

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Figura 1 – Diagrama ilustrativo dos principais fenómenos que ocorrem nos terrenos cársicos. No processo de carsificação a água é o agente elementar, envolvendo os mecanismos de meteorização química, como ainda, nas dinâmicas de erosão por desagregação física das rochas de natureza calcária. A solubilidade da calcite (carbonato de cálcio), constituinte das formações carbonatadas, e a estrutura destas constituem as principais particularidades que determinam a evolução do modelado cársico superficial e em profundidade.

A água infiltrada nas fendas dos lapiás, nos sumidouros ou no fundo das dolinas e das uvalas, continua o seu processo de dissolução do maciço formando as grutas. As lapas e algares são designações para as grutas cuja entrada é, respetivamente, horizontal ou vertical. As grutas são constituídas por galerias, salas e poços, cuja complexidade aumenta como resultado da progressiva confluência das águas infiltradas, formando-se redes subterrâneas que podem atingir desenvolvimentos da ordem das dezenas de quilómetros. As águas infiltradas desembocam em exsurgências, em geral com grandes caudais de ponta, que podem estar ou não associadas a redes subterrâneas.

Os principais tipos de lapiás em que o processo dominante (associado à dissolução) se relaciona com o escoamento superficial da água, são os lapiás em sulcos ou regueiras (Rinnenkarren), os lapiás meandriformes (Meanderkarren), os lapiás em caneluras (Rillenkarren), os lapiás em sulcos suavizados (Hohlkarren) e os lapiás em sulcos arredondados (Rundkarren). Um segundo conjunto de formas lapiares é formado pela acção conjunta do escoamento e da dissolução, controlada por fatores estruturais. Dele fazem parte os lapiás em fendas ou ranhuras (Kluftkarren), os lapiás em mesa (Karrentisch ou Flachkarren), os corredores de dissolução (bogaz) e os lapiás em agulhas (Spitzkarren). É este segundo conjunto que melhor pode ser observado no Geossítio da Granja dos Serrões.

Lapiás em fendas ou ranhuras (Kluftkarren) resultam da presença de fraturas existentes nas rochas calcárias. Estas descontinuidades estruturais podem corresponder a falhas, diáclases, juntas de estratificação, etc. Desenvolvem-se predominantemente em superfícies rochosas horizontais ou sub-horizontais com exposição subaérea, embora possam evoluir sob cobertura parcial ou total, Foto 2.

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Foto 2Lapiás em fendas. Possuem dimensões variadas em função da progressão dos processos de dissolução, desde poucos centímetros a vários metros de profundidade e largura até 2 metros. Inicialmente as fendas apresentam formas em V, podendo, com o alargamento progressivo, mostrar formas em U ou de fundo plano (nuas ou parcialmente entulhadas por materiais finos e clastos calcários).

Lapiás em mesa (Karrentisch ou Flachkarren) –  constituem lapiás em fendas que se desenvolvem segundo o sistema de fracturação ortogonal, definindo, assim, blocos calcários com formas superficiais quadrangulares ou retangulares, Foto 3.

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Foto 3 – Lapiás em mesa. Conservam-se com mais facilidade em calcários maciços, sendo a dimensão das mesas função da densidade da fraturação.

Corredores de dissolução (bogaz) formam-se pela abertura progressiva das fendas por dissolução. Em casos particulares podem corresponder também ao abatimento do teto de condutas cársicas (normalmente fósseis), situadas próximo da superfície topográfica. A grande dimensão destes lapiás (largura e profundidade superior a 2 m) constitui a sua principal característica, sendo conhecidos por megalapiás, Foto 4.

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Foto 4Bogaz. Possuem grandes dimensões (largura e profundidade superior a 2m) e apresentam o fundo plano normalmente coberto por materiais diversos propícios ao desenvolvimento da vegetação.

Lapiás em agulhas (Spitzkarren) são característicos pelas suas formas aguçadas e rendilhadas, desenvolvem-se em calcários intensamente fraturados, Foto 5.

Lapiás (Granja dos Serrões)

Foto 5Lapiás em agulhas.  A sua génese é controlada pela tectónica e pela litologia, pois desenvolvem-se em calcários intensamente fracturados, ao longo das juntas de estratificação de camadas com pendor muito forte e em rochas com elevada percentagem de carbonatos.

A morfologia cársica na Granja dos Serrões e em outros afloramentos na região de Sintra é facilmente detetável e bastante variada, destacando-se tanto à superfície as diversas formas exocársicas. As formas cársicas que se observam à superfície diferem desde os lapiás de diáclases, ou lapiás em fendas ou ranhuras (Kluftkarren), que se apresentam como sulcos retilíneos e entrecruzados com uma profundidade e largura relativamente reduzida, resultado do alargamento das diáclases por dissolução, onde no fundo destes sulcos se depositaram materiais argilosos, constituindo o sedimento residual (terra rossa), permitindo o desenvolvimento de bolsas de vegetação espontânea.

Referências:

ALMEIDA, C. A.; MENDONÇA, J. J. L.; JESUS, M. R.; GOMES, A. J. (2000). Sistemas Aquíferos de Portugal Continental. Centro de Geologia da Universidade de Lisboa e Instituto da Água, Lisboa. 337 pp

CRISPIM, J. A. (2010). Aspectos relevantes do património cársico da Orla Ocidental. Actas do VIII Congresso Nacional de Geologia, e-Terra Volume 18 – n.º 4. Braga. 1 – 4.

CRISPIM, J. A.; ALMEIDA, C.; FERREIRA, P.; DIAS, N.; RAMOS, P. (2001). Parecer sobre a Susceptibilidade Hidrogeológica e Geomorfológica do Vale da Ribeira do Mogo (Alcobaça). Centro de Geologia da Universidade de Lisboa, Lisboa. 24 pp.

DERRUAU, M. (1988). Précis de Géomorphologie. 7ème édition Masson, Paris. 533 pp.

DERRUAU, M. (1990). Les Formes du Relief Terrestre – Notions de géomorphologie. 5
ème édition Masson, Paris. 115 pp.

 

 

 

 

Sistema ABO

Em situações de emergência médica, quando um paciente necessita de efetuar transfusões sanguíneas, administra-se o tipo sanguíneo dador universal (O), uma vez que atualmente não existe nenhum equipamento comercial capaz de determinar o tipo sanguíneo do paciente no local de emergência, de uma forma rápida e fiável. Este procedimento leva frequentemente à rutura de stock deste grupo sanguíneo.

Constituição do Sangue 

O sangue é um composto existente em todos os seres humanos, é um tecido líquido capaz de combater hemorragias, infeções e transportar o oxigénio e os nutrientes às células do organismo.

O sangue é constituído por uma parte líquida, denominado plasma sanguíneo e por elementos celulares sólidos designados por plaquetas, glóbulos vermelhos e glóbulos brancos. O plasma sanguíneo, composto maioritariamente por água (cerca de 92%), é constituído por sais minerais e vários tipos de proteínas. A sua função resume-se ao transporte dos açúcares, proteínas e gorduras ao resto do corpo. As plaquetas são células de reduzidas dimensões e (aproximadamente 0.003mm), encarregues de sarar as feridas que possam existir nos vasos sanguíneos. Os glóbulos vermelhos, também denominados hemácias ou eritrócitos, são as células existentes em maior quantidade no sangue (cerca de 45% do sangue). Conhecidas também como células vermelhas, são células simples, sem núcleo e com a forma de um disco achatado. Têm a função de transportar o oxigénio e retirar dióxido de carbono das células. No seu interior existe um pigmento denominado hemoglobina, que é responsável pela coloração do sangue. Por fim, os glóbulos brancos ou leucócitos são células com núcleo, maiores do que os glóbulos vermelhos e podem-se distinguir cinco variedades: neutrófilos, eosinófilos, basófilos, linfócitos e monócitos. Estas células têm a função essencial de defender o organismo contra elementos desconhecidos, por exemplo vírus, bactérias ou fungos.

Sistema ABO

O sistema ABO é assim denominado devido a Landsteiner ter conseguido descobrir que existiam apenas dois antigénios, A e B nos eritrócitos ou glóbulos vermelhos. Assim resolveu designar os grupos sanguíneos consoante a presença ou ausência desses antigénios nos glóbulos vermelhos. Designou-se que um indivíduo possui o tipo sanguíneo A quando os seus glóbulos vermelhos possuem apenas antigénios do tipo A e por sua vez, um indivíduo que possua o tipo sanguíneo B, tem apenas antigénios B nos glóbulos vermelhos. Por sua vez, um indivíduo que tenha antigénios A e B simultaneamente nos seus eritrócitos possui tipo sanguíneo AB. Por fim, não tendo nenhum dos antigénios nos eritrócitos, possui o tipo sanguíneo O.

Também o plasma sanguíneo difere entre as pessoas, dependendo do seu grupo sanguíneo. Este contém anticorpos que podem reagir com os antigénios existentes nos grupos sanguíneos respetivos, onde os glóbulos vermelhos se aglomeram formando camadas mais espessas visíveis a olho nu, dando-se o fenómeno de aglutinação.

Aos anticorpos do plasma sanguíneo, capazes de aglutinar com a substância A ou B existente nos glóbulos vermelhos de indivíduos que possuem o tipo sanguíneo A ou B, chamam-se anti-B ou anti-A, respetivamente. Assim, o tipo sanguíneo AB, não tem qualquer anticorpo existente no seu plasma sanguíneo (uma vez que ambos estão presentes nos seus eritrócitos) e contrariamente a este, o tipo sanguíneo O, tem os dois anticorpos.

Fator Rhesus

Landsteiner, 40 anos depois de descobrir que os tipos sanguíneos diferiam entre si, descobriu também que o sangue humano continha um outro antigénio designado por Rhesus (devido ao facto de, nas suas experiências utilizar um macaco de uma raça assim designada), Figura 1.

Grupos sanguíneos 4

Figura 1 – Entende-se por transfusão sanguínea a doação por parte de uma pessoa de uma porção de sangue a outra que por razões de saúde sofreu uma perda significativa do mesmo. Deste modo, para efetuar uma transfusão sanguínea é necessário efetuar previamente a determinação do grupo sanguíneo do paciente, para que, os antigénios existentes nas suas hemácias não aglutinem com os anticorpos existentes no plasma sanguíneo.

Assim, os portadores deste antigénio Rh, designam-se por Rh+ , não possuem no seu plasma sanguíneo anticorpos que aglutinem com este antigénio. Por conseguinte, não  possuindo este antigénio nos seus eritrócitos, são denominados por Rh e produzem anticorpos anti-Rh, quando entram em contato com portadores de Rh.

Assim, para se efetuar uma transfusão sanguínea, é necessário efetuar a determinação deste fator no sangue do doador e do recetor. Pois, se no caso do recetor tiver ausência do fator Rh (Rh- ) e o doador Rh+ , mesmo tendo o sistema ABO compatível, a transfusão sanguínea não pode ser realizada, sendo possível apenas quando o doador não possui o fator Rh.

Referência:

D.Silva V.Moreira, “Determinação do Tipo Sanguíneo”, Universidade do Minho,
Guimarães, Relatório Final de Projeto II, 2010.

 

 

 

Hemofilia e a Família Real Europeia

As Hemofilias A e B são as deficiências de fatores da coagulação mais comuns e definem-se pela ausência ou diminuição dos níveis de FVIII e FIX, respetivamente. Resultam de mutações nos genes que codificam os referidos fatores e caracterizam-se pela sua hereditariedade ligada ao sexo.

A terapêutica da hemofilia sofreu uma tremenda evolução nas últimas três décadas. Atualmente, dispõe-se de concentrados de fator derivados de plasma e recombinantes que, especialmente em países desenvolvidos, permitem a sua administração pelo doente ou família, na sua própria casa. Este progresso permitiu um considerável aumento na sobrevivência e uma marcada redução da incapacidade devidas aos danos articulares característicos da hemofilia. As recomendações terapêuticas assentam numa abordagem profilática contínua iniciada precocemente e mantida pelo menos até ao início da vida adulta.

A hemofilia tem sido reconhecida desde tempos muito antigos como uma entidade responsável pela ocorrência de hemorragias anormais em indivíduos do sexo masculino, afetando vários elementos de uma mesma família. Este facto despertou grande curiosidade na comunidade científica quando se manifestou na Família Real Europeia, mais concretamente nas gerações descendentes da Rainha Victória, acabando por afetar também as famílias reais da Alemanha, Rússia e Espanha no século XIX e XX.

Após ter sido identificada pela primeira vez como uma entidade clínica no ano de 1813, foi apelidada de “haemorraphilia” em 1828, termo que eventualmente evoluiu para o atual “Hemofilia”.

Powerpoint – A confirmação diagnóstica de hemofilia depende da realização de exames que confirmem a apresentação do seu fenótipo, ou seja, diminuição dos níveis de fator VIII ou IX, ou que mostrem a presença de alterações características no seu genótipo. O diagnóstico genético implica a análise do ADN que, atualmente, consegue identificar aproximadamente 98% das mutações responsáveis pela hemofilia A e B. Embora a hemofilia seja uma doença que afeta essencialmente indivíduos do sexo masculino e as mulheres sejam apenas portadoras.

De forma simplista, a hemostase consiste num processo complexo que visa impedir o extravasamento de sangue em situações de lesão vascular, mantendo um equilíbrio entre os processos fisiológicos que levam à formação do tampão hemostático em caso de lesão, e os que preservam o sangue no seu estado fluido em circunstâncias normais.

 Este processo está dependente da interação entre o endotélio vascular, plaquetas e fatores pró e anticoagulantes. De entre estes fatores, destacam-se o FvW e os fatores envolvidos na cascata da coagulação. Por fim, terá que ser ativado o sistema de fibrinólise para que se mantenha o equilíbrio.

Os distúrbios hemorrágicos poderão ser causados quer por alterações vasculares e/ou plaquetárias, quer por anomalias no processo de coagulação, associadas à deficiência de um dos seus fatores, podendo esta deficiência ser hereditária ou adquirida. Os fatores mais frequentemente envolvidos neste processo patológico são o FVIII, FIX e FvW, cuja deficiência dá origem, respetivamente, à Hemofilia A, Hemofilia B e DvW.

As Hemofilias A e B são deficiências hereditárias ligadas ao sexo, respetivamente do FVIII e FIX, que resultam de mutações nos genes que os codificam, que se localizam junto à extremidade do braço longo do cromossoma X. Apesar da hereditariedade desta condição, até 1/3 dos doentes não têm história familiar, estando presente uma mutação de novo.

Embora seja rara a existência de doença severa ou moderadamente severa em mulheres, esta poderá estar presente em situações como homozigotia ou heterozigotia composta de mutações em F8 e lionização – inativação aleatória de um cromossoma X.

O tratamento da hemofilia assenta em dois aspetos fundamentais: a prevenção e o tratamento de hemorragias. Para isso, dispomos atualmente de concentrados de fatores de coagulação, que nos permitem substituir o fator em falta, entre outros produtos adjuvantes.

A terapia génica constitui a única possibilidade de tratar a longo-prazo doenças congénitas. A hemofilia apresenta-se como uma das patologias com maior potencial neste campo devido ao facto de ser uma doença monogénica, na qual uma pequena elevação nos níveis do fator em falta (para 2 a 5%) é suficiente para controlar as suas mais graves complicações.

Para isso, é necessário que se consiga uma transferência do gene com sucesso, ou seja, que se consiga uma expressão persistente de níveis terapêutico de FVIII e FIX sem que o vetor cause toxicidade significativa e sem que exista resposta imunológica ao FVIII/FIX formado.

No que diz respeito à transferência génica, foram já tentadas transferências ex vivo em humanos.  contudo, tanto para o FVIII como para o FIX, os resultados não foram satisfatórios, já que, na maioria dos doentes, não houve um aumento significativo nos níveis de fator. Nos que conseguiram níveis superiores a 1%, estes mantiveram-se apenas durante umas semanas, até voltarem aos seus níveis basais. Mais recentemente, têm sido feitos estudos em ratos usando vectores retrovirais para transferir o transgene para as suas células estaminais hematopoiéticas, cujos resultados parecem promissores, estando ainda a decorrer testes em modelos animais de maior tamanho.

Fonte consultada:

National Hemophilia Foundation. History of Bleeding Disorders [cited 2014 23/11/2014]. Available from: https://www.hemophilia.org/Bleeding-Disorders/Historyof-Bleeding-Disorders.

 

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