Campo de Lapiás (Granja dos Serrões)

As regiões calcárias são, em geral, caracterizadas por aspetos particulares de relevo e circulação hídrica que constituem o modelado cársico, resultado da ação da água enriquecida em CO2 que dissolve a rocha ao longo das descontinuidades que compartimentam os maciços nas diferentes escalas. A quantidade de rocha que pode ser dissolvida depende de diversas condições, como sejam o seu grau de pureza e composição, espessura e tipos de solos e de fatores climáticos, nomeadamente a temperatura e precipitação.

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Na Granja dos Serrões, localizada no concelho de Sintra, Foto 1, afloram calcários do Cretácico superior pertencentes à Bacia Lusitaniana. Esta, é uma bacia sedimentar que se desenvolveu na Margem Ocidental Ibérica durante parte do Mesozóico. A sua dinâmica enquadra-se no contexto da fragmentação da Pangeia, mais especificamente da abertura do Atlântico Norte. Caracteriza-se como uma bacia distensiva, pertencente a uma margem continental do tipo atlântico de rift não vulcânica. Ocupa mais de 20 000 km2 na parte ocidental da Margem Ocidental Ibérica, alongando-se por cerca de 200 km segundo direcção aproximada NNW-SSE e por mais 100 km na direcção perpendicular. Cerca de 2/3 aflora na área continental emersa e a restante área, encontra-se imersa, na plataforma continental.

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Foto 1 –  Calcários do Cenomaniano superior (Cretácico) de Pero-Pinheiro. Foi no Cretácico superior que se deu a colisão entre as placas Africana e Euroasiática, responsável pelo ambiente compressivo na microplaca Ibérica. Neste contexto, ocorreram ciclos magmáticos com importante influência na área da Bacia Lusitaniana.

Durante Cenomaniano (Complexo Carbonatado Cenomaniano) a Bacia Lusitaniana encontrava-se já numa fase de pós-rift e colmatação em margem passiva, em que ocorreu sedimentação de carbonatos, com extensão de plataforma carbonatada para norte, num período em que se registou o máximo da transgressão marinha. Este “Complexo Carbonatado Cenomaniano” é constituído por espesso conjunto de calcários, calcários margosos, calcários dolomíticos, margas e argilas margosas com níveis fossilíferos, Foto 2.

Foto 2 – Engloba-se no Cenomaniano superior os “Calcários com rudistas” e “Camadas com Neolobites vibrayeanus”. Os “Calcários com rudistas” (antigo Turoniano), que constituem o topo do Cenomaniano superior, formaram-se em ambiente recifal. São calcários subcristalinos, fossilíferos, por vezes com níveis nodulados e leitos de sílex nas camadas superiores, correspondendo ao enchimento de canais e lagunas. As “Camadas com Neolobites vibrayeanus” constituem a base do Cenomaniano superior. São constituídas por calcários apinhoados com abundantes alveolinídeos e marcam a transição do Cenomaniano superior para o Cenomaniano médio.

Modelado Cársico

Várias são as formas de absorção presentes nas regiões calcárias como as superfícies rochosas sulcadas por fendas mais ou menos alargadas, os lapiás, as depressões fechadas com dimensões e formas variáveis, que podem ir desde as dolinas, com contornos simples e dimensão decamétrica a hectométrica, às uvalas, com contornos mais complexos e dimensão hectométrica, até aos poljes, com grandes extensões, de fundo plano parcialmente coberto por sedimentos e dimensão quilométrica. Os escassos vales presentes nas regiões cársicas podem ser vales cegos, isto é, terminam abruptamente em sumidouros. Se rios com caudal permanente conseguirem atravessar regiões cársicas, podem escavar profundas gargantas com vertentes verticais (vales em canhão), por vezes beneficiando do abatimento do teto de grutas intersectadas, Figura 1.

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Figura 1 – Diagrama ilustrativo dos principais fenómenos que ocorrem nos terrenos cársicos. No processo de carsificação a água é o agente elementar, envolvendo os mecanismos de meteorização química, como ainda, nas dinâmicas de erosão por desagregação física das rochas de natureza calcária. A solubilidade da calcite (carbonato de cálcio), constituinte das formações carbonatadas, e a estrutura destas constituem as principais particularidades que determinam a evolução do modelado cársico superficial e em profundidade.

A água infiltrada nas fendas dos lapiás, nos sumidouros ou no fundo das dolinas e das uvalas, continua o seu processo de dissolução do maciço formando as grutas. As lapas e algares são designações para as grutas cuja entrada é, respetivamente, horizontal ou vertical. As grutas são constituídas por galerias, salas e poços, cuja complexidade aumenta como resultado da progressiva confluência das águas infiltradas, formando-se redes subterrâneas que podem atingir desenvolvimentos da ordem das dezenas de quilómetros. As águas infiltradas desembocam em exsurgências, em geral com grandes caudais de ponta, que podem estar ou não associadas a redes subterrâneas.

Os principais tipos de lapiás em que o processo dominante (associado à dissolução) se relaciona com o escoamento superficial da água, são os lapiás em sulcos ou regueiras (Rinnenkarren), os lapiás meandriformes (Meanderkarren), os lapiás em caneluras (Rillenkarren), os lapiás em sulcos suavizados (Hohlkarren) e os lapiás em sulcos arredondados (Rundkarren). Um segundo conjunto de formas lapiares é formado pela acção conjunta do escoamento e da dissolução, controlada por fatores estruturais. Dele fazem parte os lapiás em fendas ou ranhuras (Kluftkarren), os lapiás em mesa (Karrentisch ou Flachkarren), os corredores de dissolução (bogaz) e os lapiás em agulhas (Spitzkarren). É este segundo conjunto que melhor pode ser observado no Geossítio da Granja dos Serrões.

Lapiás em fendas ou ranhuras (Kluftkarren) resultam da presença de fraturas existentes nas rochas calcárias. Estas descontinuidades estruturais podem corresponder a falhas, diáclases, juntas de estratificação, etc. Desenvolvem-se predominantemente em superfícies rochosas horizontais ou sub-horizontais com exposição subaérea, embora possam evoluir sob cobertura parcial ou total, Foto 2.

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Foto 2Lapiás em fendas. Possuem dimensões variadas em função da progressão dos processos de dissolução, desde poucos centímetros a vários metros de profundidade e largura até 2 metros. Inicialmente as fendas apresentam formas em V, podendo, com o alargamento progressivo, mostrar formas em U ou de fundo plano (nuas ou parcialmente entulhadas por materiais finos e clastos calcários).

Lapiás em mesa (Karrentisch ou Flachkarren) –  constituem lapiás em fendas que se desenvolvem segundo o sistema de fracturação ortogonal, definindo, assim, blocos calcários com formas superficiais quadrangulares ou retangulares, Foto 3.

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Foto 3 – Lapiás em mesa. Conservam-se com mais facilidade em calcários maciços, sendo a dimensão das mesas função da densidade da fraturação.

Corredores de dissolução (bogaz) formam-se pela abertura progressiva das fendas por dissolução. Em casos particulares podem corresponder também ao abatimento do teto de condutas cársicas (normalmente fósseis), situadas próximo da superfície topográfica. A grande dimensão destes lapiás (largura e profundidade superior a 2 m) constitui a sua principal característica, sendo conhecidos por megalapiás, Foto 4.

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Foto 4Bogaz. Possuem grandes dimensões (largura e profundidade superior a 2m) e apresentam o fundo plano normalmente coberto por materiais diversos propícios ao desenvolvimento da vegetação.

Lapiás em agulhas (Spitzkarren) são característicos pelas suas formas aguçadas e rendilhadas, desenvolvem-se em calcários intensamente fraturados, Foto 5.

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Foto 5Lapiás em agulhas.  A sua génese é controlada pela tectónica e pela litologia, pois desenvolvem-se em calcários intensamente fracturados, ao longo das juntas de estratificação de camadas com pendor muito forte e em rochas com elevada percentagem de carbonatos.

A morfologia cársica na Granja dos Serrões e em outros afloramentos na região de Sintra é facilmente detetável e bastante variada, destacando-se tanto à superfície as diversas formas exocársicas. As formas cársicas que se observam à superfície diferem desde os lapiás de diáclases, ou lapiás em fendas ou ranhuras (Kluftkarren), que se apresentam como sulcos retilíneos e entrecruzados com uma profundidade e largura relativamente reduzida, resultado do alargamento das diáclases por dissolução, onde no fundo destes sulcos se depositaram materiais argilosos, constituindo o sedimento residual (terra rossa), permitindo o desenvolvimento de bolsas de vegetação espontânea.

Referências:

ALMEIDA, C. A.; MENDONÇA, J. J. L.; JESUS, M. R.; GOMES, A. J. (2000). Sistemas Aquíferos de Portugal Continental. Centro de Geologia da Universidade de Lisboa e Instituto da Água, Lisboa. 337 pp

CRISPIM, J. A. (2010). Aspectos relevantes do património cársico da Orla Ocidental. Actas do VIII Congresso Nacional de Geologia, e-Terra Volume 18 – n.º 4. Braga. 1 – 4.

CRISPIM, J. A.; ALMEIDA, C.; FERREIRA, P.; DIAS, N.; RAMOS, P. (2001). Parecer sobre a Susceptibilidade Hidrogeológica e Geomorfológica do Vale da Ribeira do Mogo (Alcobaça). Centro de Geologia da Universidade de Lisboa, Lisboa. 24 pp.

DERRUAU, M. (1988). Précis de Géomorphologie. 7ème édition Masson, Paris. 533 pp.

DERRUAU, M. (1990). Les Formes du Relief Terrestre – Notions de géomorphologie. 5
ème édition Masson, Paris. 115 pp.

 

 

 

 

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