Erosão Glaciar

Existem regiões na Terra onde a neve caída durante a estação fria não é totalmente fundida na estação quente. Esta neve acumulada (nevado) vai-se compactando gradualmente em virtude do seu próprio peso.

Um glaciar corresponde a uma massa de gelo na superfície terrestre que flui de acordo com o declive (por deformação interna e por deslizamento basal), confinada pela topografia (pelas vertentes do vale e pelos cumes das montanhas). Esta topografia será a principal responsável pela morfologia e pela dinâmica glaciar. O glaciar é mantido pela acumulação de neve a montante e equilibrado pela fusão a altitudes mais baixas ou por descargas para o mar, Foto 1.

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Foto 1 – Horn (crista) nos Glaciares do Parque Natural da Vanoise (França) – Geologia (link). Sendo assim, os glaciares correspondem a massas de gelo terrestre em movimento que resultam da acumulação, compactação e recristalização da neve. Movem-se devido ao seu peso e este movimento, que se estima, em termos médios, oscilar entre 5 e 50 m por ano, varia nas diferentes partes do glaciar. Os glaciares talham os vales escavando-os, deixando vertentes vigorosas e criando entre elas cristas sinuosas com picos aguçados que se assemelham a formas piramidais. Sendo assim, os horns resultam da acção de remoção de rocha provocada pelo gelo, especialmente em torno dos circos glaciares.

Tipos de Glaciares

Apesar de cada glaciar ser único e com especificidades locais, é necessário proceder a uma distinção simples entre Glaciares de Vale (ou de montanha/alpinos) e Campos de Gelo (ice fields), ambos glaciares constrangidos pela topografia. Distinguem-se ainda Mantos de Gelo (ice sheets) de Calotes de Gelo (ice caps) em glaciares não constrangidos pela topografia.

 

Ação Erosiva 

Os glaciares transportam no seu interior diversos materiais rochosos resultantes dos fenómenos de gelo e degelo e provenientes da sua própria acção erosiva. Os materiais transportados em contacto com o leito friccionam as rochas aí existentes estriando-as e polindo-as na direção do movimento.

Esta acção erosiva é mútua pelo que as rochas transportadas, além de diminuírem de volume, apresentam também estriação, Foto 2.

Foto 2- Estrias – Museu de História Natural (Londres).  As estrias não são mais do que riscos na rocha ou na superfície de blocos típicos da erosão glaciar. Estas estrias são resultado da abrasão subglaciar. As estrias ocorrem quando blocos, clastos e areias vão sendo arrastados contra a rocha-mãe ou outros blocos criando sulcos. À medida que o glaciar se move, os detritos vão deixando marcas da sua passagem sobre as superfícies.

A fragmentação resultante da congelação da água dentro das fendas das rochas é talvez o principal mecanismo de meteorização física nestas vertentes. A crioclastia ou gelifracção permite que à medida que a água exerce uma força em direcção ao exterior provoque uma fragmentação e separação da rocha. A crioclastia corresponde à fracturação das rochas por congelação da água nos poros e diaclases, que sofre um aumento volumétrico.

À superfície, o glaciar move-se a velocidades superiores ao seu movimento basal, pelo que surgem alterações na superfície associadas a estes diferentes ritmos. Entre a superfície e a base ocorre uma área de deformação plástica que permite ao glaciar apresentar estes dois ritmos diferenciados no seu movimento, já que existe uma deformação do gelo numa área intermédia entre o material de base e aquele que lhe está subjacente. Quando o glaciar se encontra gelado e preso à rocha mãe, o seu movimento ocorre apenas por deformação da camada plástica. As crevasses, são fendas profundas em forma de V formadas na parte quebradiça do glaciar, resultantes da fraturação do gelo em movimento. Variam entre os poucos centímetros e as dezenas de metros de profundidade

As rochas que fizeram parte do leito de um glaciar podem também ser reconhecidas pelas suas superfícies arredondadas, polidas e estriadas. Devido ao efeito visual que provocam, assemelhando-se a rebanhos de ovelhas, denominam-se rochas aborregadas ou arrebanhadas Foto 2.

Rochas aborregadas

Foto 2 – Serra da Estrela. As rochas aborregadas são lombas ou montes, de escala métrica ou decamétrica, assimétricos talhados na rocha-mãe, com evidências de erosão do gelo na face de montante, menos inclinada (stoss) e acumulação de detritos na face abrupta (lee). É comum apresentarem estrias na face stoss e faces polidas na face lee. Assim, estas rochas apresentam-se polidas pelo gelo no seu lado menos inclinado e fracturadas e estriadas no seu lado mais inclinado, exibindo faces abruptas e rugosas. Estas rochas podem variar muito o seu tamanho, desde um metro até centenas de metros de comprimento.

Normalmente, o termo rocha aborregada utiliza-se para designar formas de erosão glaciar assimétricas, sendo que esses declives contrastantes também indicam a direcção do gelo.  O trabalho erosivo dos glaciares cava vales em U, Foto 3.

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Foto 3 – Glaciares do Parque Natural da Vanoise (França) Os vales glaciares são depressões lineares escavadas na rocha-mãe pela acção do gelo, representando os efeitos da erosão glaciar onde o gelo flui confinado pela topografia e canalizado ao longo de um vale. Estes vales são o resultado dos processos de abrasão e fracturação (quarryng) produzindo depressões ingremes com vertentes polidas e lisas. Estes vales são vulgarmente designados por vales em forma de U.

Segundo estudos realizados por investigadores norte-americanos a forma do vale glaciar resulta da capacidade erosiva do glaciar e do tempo a que o vale está sujeito a erosão. No vale em U, a erosão já está concentrada na base do vale e a morfologia do vale permanece relativamente constante já que este está relativamente encaixado na paisagem. Estima-se que seja necessário cerca de 100 000 anos de erosão glaciar para produzir vales de 100 m, atendendo a uma taxa de erosão glaciar de 1 mm/ano.

Acumulação nos Glaciares

As formas de acumulação glaciares constituem a melhor evidência da dinâmica glaciar.
Compreender as formas de acumulação e os depósitos glaciares permite resolver a maioria dos problemas da geomorfologia glaciar. No entanto, esta situação raramente acontece e está sempre envolta em argumentação e controvérsia. A diversidade e complexidade de sedimentos que os glaciares depositam é tal que muitas vezes torna-se difícil encontrar padrões.

Os depósitos sedimentares resultantes da ação dos glaciares apresentam um carácter heterométrico dos seus componentes, uma estrutura caótica e geralmente ausência de estratificação. Estes depósitos distinguem-se dos sedimentos resultantes de outros agentes erosivos pelo facto de apresentarem pouco ou nenhuma meteorização química e uma granulometria muito diversificada. As rochas sedimentares resultantes da compactação e cimentação de sedimentos depositados diretamente pelo gelo glaciário recebem o nome de tilitos. Os tilitos não apresentam estratificação , têm uma granoclassificação pobre e clastos muito angulosos. dentro do tipo de materiais que podem ser identificados neste tipo de depósitos encontram-se a “farinha” glaciária, as areias, os seixos e os blocos.  

O material detrítico transportado pelos glaciares agrupam-se em zonas mais ou menos alinhadas, Foto 3, constituindo as Moreias (Vale de Compadre na Serra do Gerês). Podemos classificar as moreias, conforme a sua situação em:

Moreias laterais – dispõem-se nas margens do glaciar e são constituídas fundamentalmente por detritos de talude e material resultante da erosão da margem do leito do glaciar. São superficiais.

Moreias medianas – ocorrem quando há a junção de dois glaciares, ocupando a zona média do glaciar resultante.

Moreira frontal – constituídas pelos materiais detríticos que se depositam na frente do glaciar.

Moreia Interna – constituída pelo material detrítico que cai nas fendas.

Moreia de fundo – constituída pelo material detrítico que atinge o leito do glaciar.

Moreia (Esquema)Foto 3 – Na parte terminal de uma moreia frontal pode constituir-se uma torrente glaciária ou um rio. Quando os glaciares retrocedem  devido à elevação da temperatura, podem constituir-se depressões limitadas por moreias que são preenchidas pela água resultante da fusão do gelo formando lagos de barragem. Nas áreas glaciadas de vale são comuns as formas e depósitos estratificados resultantes da acumulação de material detrítico transportado pelo glaciar mas posteriormente depositado pela água proveniente do degelo.

Depósitos Fluivioglaciares

Os depósitos fluvioglaciares, associados a ambientes proglaciares apresentam fácies que resultam da reorganização dos materiais por fusão de água, o que pode produzir estruturas sedimentares. Os depósitos são geralmente bem calibrados. Em ambientes proglaciares associados a ambientes periglaciares, o congelamento-descongelamento provoca uma melhor estratificação.

Concluindo, os glaciares são massas de gelo, geralmente deslizantes, originadas pela acumulação e recristalização da neve. Há vários tipos de glaciares que estão relacionados com a topografia do terreno onde se constituem. A ação geológica dos glaciares é erosiva, de transporte e sedimentação.

Pequeno Glossário

Abrasão – consiste na forma como a superfície das rochas responde ao movimento do glaciar. As formas mais típicas são as estrias e o polimento, onde as pequenas protuberâncias vão sendo eliminadas.

Blocos erráticos – Blocos rochosos transportados pelos glaciares, por vezes para longas distâncias, podendo ter uma constituição litológica diferente do substrato.

Crevasses – Fratura de gelo perto da superfície, resultante de tensões que se geram durante a deslocação do glaciar.

Covão (ombilic)  opõe-se ao verrou, já que designa um alargamento e aprofundamento do fundo do vale e corresponde a depressões de escavamento subglaciar.

Diamictons – correspondem a conjuntos de sedimentos não calibrados ou mal calibrados, não consolidados, com uma granulometria muito variada. São depósitos pouco seleccionados, contendo fragmentos que vão desde argilas e grãos de areia até grandes blocos que são depositados indiscriminadamente. O silte e a argila formam uma matriz na qual os sedimentos maiores estão envoltos. Normalmente o till não apresenta camadas bem definidas, sendo muito heterométricos com blocos grandes e numerosos, angulares ou arredondados e muitos provenientes de lugares distantes. Alguns blocos poderão apresentar faces estriadas e polidas.

Drumlins –  são formas de acumulação glaciares que resultam da presença de gelo glaciar sobre uma grande área de solo. A sua forma característica é suavemente arredondada e convexa, assemelhando-se a uma colher invertida com o lado convexo para cima, uma espécie de colina alongada. O drumlin tem uma extremidade abrupta e outra cónica, o que por sua vez, ajuda a indicar a direcção do movimento do gelo glaciar, já que a parte abrupta indica a área a montante, enquanto o lado menos inclinado indica a parte jusante do glaciar. Esta forma é paralela à direcção do movimento e a face menos inclinada indica o seu sentido. Os drumlins normalmente aparecem em campos mais amplos do que as moreias raramente ocorrem isoladamente. Os drumlins apresentam um núcleo interior que pode ser constituído por rocha ou pela moreia. A origem desta forma de acumulação glaciar é ainda pouco consensual.

Estrias – riscos na rocha ou na superfície de blocos típicos da erosão glaciar. Estas estrias são resultado da abrasão subglaciar.

Glaciar –  corresponde a uma massa de gelo terrestre que flui por acção da gravidade (por deformação interna e/ou deslizante na base) e é limitada por tensão interna e atrito na base e nos lados. Um glaciar é mantido pela acumulação da neve em altitudes elevadas e equilibrado pela fusão a baixas altitudes ou descargas para o mar.

Glaciares de vale de tipo alpino (Transection glaciers) –  correspondem a paisagens glaciadas de montanha profundamente dissecadas, onde a cobertura de gelo tende a formar glaciares que se estendem em língua ou sistemas interligados de glaciares do vale.

Glaciares de Circo – são glaciares confinados ao circo glaciar na montanha; Glaciares de vale de tipo alpino (Transection glaciers) correspondem a paisagens glaciadas de montanha profundamente dissecadas, onde a cobertura de gelo tende a formar glaciares que se estendem em língua ou sistemas interligados de glaciares do vale.

Glaciares Piedmont – resultam de glaciares alpinos que abandonaram os vales, espalhando-se por áreas vastas em forma de leque; Glaciares de Nicho,

Glaciar rochoso –  como uma massa de calhaus mal calibrados, angulares e com material fino, apresentando gelo intersticial, cerca de um metro abaixo da superfície (cimentada de gelo) ou contendo um glaciar de gelo enterrado (ice-cored). É frequente ocorrer em alta montanha, numa área de permafrost e deriva de uma parede de circo ou outravertente íngreme.

Glaciares de Vale – correspondem a situações em que o gelo é descarregado a partir de um Campo de Gelo ou de um circo para um vale rochoso.

Horn – Os glaciares talham os vales escavando-os, deixando vertentes vigorosas e criando entre elas cristas sinuosas com picos aguçados que se assemelham a formas piramidais. Sendo assim, os horns resultam da acção de remoção de rocha provocada pelo gelo, especialmente em torno dos circos glaciares.

Moreias – Acumulação de sedimentos transportados pelo glaciar. Caracterizam-se por serem de diferente granulometria (dos blocos às argilas) e por não apresentarem estratificação.

Permafrost corresponde a uma camada de solo que se encontra permanentemente gelada, cujas temperaturas se mantêm abaixo dos 00 C, e cuja camada superficial (permafrost activo ou camada activa) apresenta um descongelamento sazonal.  A espessura da camada activa depende da profundidade a que se processa o descongelamento e da forma como este penetra no solo gelado. Esta estará directamente relacionado com o gradiente geotérmico em profundidade e com a temperatura atmosférica. A vegetação, a cobertura de neve e a matéria orgânica podem isolar o solo e formam uma camada que reduz a amplitude das oscilações sazonais de temperatura no solo.

Polimento das rochas –  é uma forma de abrasão bastante típica dos ambientes glaciares. Consiste no amaciar ou alisar da superfície da rocha removendo as protuberâncias litológicas ou produzidas pelo contacto com outras rochas e gelo. É muito comum as duas formas associadas, rochas polidas que exibem estrias, já que à medida que é feito o polimento da rocha, clastos e areias podem produzir estrias. Sendo assim, estrias e rochas polidas são formas complementares do mesmo processo.

Rochas estriadas – rochas que revelam a ação erosiva de um glaciar, no qual o arrastamento de material rochoso transportado pelo glaciar formou estrias.

Tarn – é um pequeno lago glaciar de montanha. O tarn é formado quando o gelo derrete e a água se acumula nas áreas deprimidas. Geralmente, os tarns ocupam o fundo do circo glaciar após o recuo ou desaparecimento do glaciar, no entanto, podem aparecer tarns em situações em que as moreias bloqueiam a drenagem.

Tills – As moreias constituem as principais formas de acumulação glaciar e são compostas por tills, sedimentos deixados directamente pelo transporte do glaciar. Independentemente do tipo de moreia, todas elas são compostas por tills. Ao contrário dos depósitos de vertente, o till não apresenta qualquer estratificação ou granulometria bem definida, já que é mal calibrado. Os clastos que o compõem podem ser de variados tamanhos, incluindo argilas, areias, calhaus e blocos, nomeadamente blocos erráticos.

Tills glaciares – Correspondem ao material depositado directamente do gelo com pouca ou nenhuma triagem pela água. Pelas características sedimentares gerais dos tills, independentemente da sua génese, são geralmente designadas por diamictons  quando não têm absoluta certeza se se trata de um till ou de depósitos tipo till.

Tilitos – Resultam da consolidação dos sedimentos depositados na moreia e revelam ausência de estratificação e reduzida calibração dos sedimentos. 

Torrente subglaciar – Curso de água resultante do degelo do glaciar, que pode transportar sedimentos em suspensão (conferem uma tonalidade leitosa)

Vales glaciares – são depressões lineares escavadas na rocha-mãe pela acção do gelo, representando os efeitos da erosão glaciar onde o gelo flui confinado pela topografia e canalizado ao longo de um vale.

Verrou (ferrolho) –  é uma forma glaciar que corresponde a uma saliência rochosa no fundo do vale glaciar, resultando de uma maior resistência da rocha-mãe à erosão glaciar.

Referências:

  • Aber, J. S., e Ber, A., (2007) Glaciotectonism. Developments in Quaternary Science 6. Amsterdam, ElsevierBenn, D. I., e Evans, D. J. A., (1996) The interpretation and classification of subglacially deformed materials. Quaternary Science Reviews, 15, 23–52.
  • Benn, D. I., e Evans, D. J. A., (1998). Glaciers and Glaciation. London: Arnold.
  • Benn, D. I., e Evans, D. J. A., (2010). Glaciers and Glaciation. London: Arnold. 2º edition.
  • Benn, D.I. (2006) Glaciers. Progress in Physical Geography 30, 432-442.Boulton, G.S., (1972) Modern Arctic glaciers as depositional models for former ice sheets. Journal
    of the Geological Society of London, 128, 361–393.

 

 

 

 

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