Ostracodos – indicadores estratigráficos e ambientais

Os ostracodos, do grego ostrákon, que significa carapaça, são microcrustáceos com carapaça bivalve de natureza carbonatada que envolve todo o corpo e os respetivos apêndices.

A principal característica dos crustáceos é a presença de 2 pares de antenas. Exibem no seu corpo apêndices com formas e funções variadas. O sistema digestivo é completo com boca e ânus. O sistema circulatório é aberto ou lacunar, com hemocianina como pigmento respiratório. As troca gasosas são feitas através de brânquias. A excreção é feita pelas glândulas verdes e o sistema nervoso é constituído por uma cadeia ganglionar ventral.

Os ostracodos possuem diferentes estilos alimentares, podendo ser filtradores, escavadores, detritívoros, herbívoros ou carnívoros predadores. Relativamente aos modos de vida, segundo os ostracodos podem ser: bentónicos, planctónicos, podem viver em ou entre plantas e colónias de animais, podem ser parasitas ou viver em comensalismo com outros crustáceos e equinodermes.

A carapaça adulta tem em média um comprimento entre 0,5 e 8 mm, por ser de natureza carbonatada, facto que permite o seu registo fóssil. O seu registo fóssil é extenso, existindo desde o início do Ordovícico até à atualidade, em sedimentos marinhos e não marinhos, fornecendo uma fonte para perceber a evolução dos dados ecológicos.

Os ostracodos são encontrados em todos os ambientes aquáticos e semiterrestres e algumas espécies apresentam que várias espécies mostram grande tolerância a flutuações de temperatura e salinidade e desenvolvem-se em condições extremas, como fontes termais.

Como grande parte dos géneros de ostracodos do Mesozoico não possuem representantes atuais, as interpretações paleoecológicas são feitas por comparações com géneros recentes semelhantes, com base no contorno e ornamentação da carapaça, presença de bolsa incubadora, sulcos e outros elementos morfológicos. Através de variações visíveis de tamanho, ornamentação e ocorrência ou desaparecimento de espécies, é possível obter dados úteis sobre a ecologia, hidrologia e química da água em ambientes onde outros organismos não o possibilitam.

A diversidade entre espécies é definida pela sensibilidade dos ostracodos a fatores ambientais como a salinidade, temperatura, profundidade, alimento disponível, substrato e oxigénio dissolvido. A carapaça dos ostracodos é uma fonte de calcite viável para análise geoquímica através da partição de elementos-traço (por exemplo, O2 e C) e fracionamento de isótopos estáveis (por exemplo, Mg, Ca e Sr).

Em ambientes margino-marinhos, os parâmetros físicos e químicos da água podem sofrer alterações fortes numa escala de tempo curta e o grau de variabilidade destes parâmetros pode mudar dependendo da estação do ano e clima local. Como resposta a essa variabilidade ocorre a presença ou desaparecimento de espécies de ostracodos ao longo do tempo.

Os ostracodos são bons indicadores estratigráficos e ambientais sendo utilizados como proxies na reconstrução de alterações ambientais. A ocorrência dominante de determinada espécie numa associação, e a composição dessa associação, combinando a geoquímica da carapaça e os dados obtidos por outros microfósseis permite obter uma ideia das fases transgressivas e regressivas, a variação do nível do mar e a influência entre águas marinhas e água doce em ambientes margino-marinhos.

A principal vantagem dos ostracodos em relação a outros grupos de microfósseis reside no facto de estarem presentes em todos os tipos de ambientes aquáticos. Por isso podem ser usados na determinação de biozonas estratigráficas em todos os tipos de fácies, são especialmente úteis em depósitos lacustres e salobros por serem dos poucos organismos presentes.

Como crustáceos, o seu crescimento é feito através de mudas sucessivas da carapaça. Um espécime de ostracodo passa em média por 8 mudas, até atingir o último estádio ontogénico, a forma adulta.

A reprodução nos ostracodos ocorre maioritariamente de forma sexuada, podendo em algumas espécies de água doce, onde não foram identificados machos nas associações, fazer-se por partenogénese, como é o caso da espécie Callistocythere littoralis.

Para que a reprodução ocorra e que seja garantida a diversidade das espécies é necessário que o meio seja oxigenado, que a temperatura e a espessura da coluna de água tenham um determinado valor específico e que estejam disponíveis alimentos e nutrientes suficientes. Caso estes fatores não coexistam, a diversidade será restrita.

Figura 1 A classe Ostracoda é hoje dividida em duas subclasses, Myodocopa e Podocopa. A primeira divide-se nas ordens Myococopida e Halocyprida que contêm géneros exclusivos de ambiente marinho. A segunda está dividida em 3 ordens, Platycopida, Podocopida e Paleocopida. A ordem Platycopida contém espécies exclusivamente marinhas. A ordem Podocopida é a mais diversa e ampla e contém espécies que habitam ambientes marinhos, salobros e de água doce. A ordem Paleocopida contém sobretudo espécies de ambientes marinhos superficiais.

Fontes consultadas:

Horne, D. J.; Cohen, A. & Martens, K. (2002). Taxonomy, Morphology and Biology of Quaternary and Living Ostracoda, in Holmes, J. A. & Chivas, A. R. (Eds). The Ostracoda: Applications in Quaternary Research. American Geophysical Union, Geophysical Monograph, 131, pp. 5-36

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