Caldas de Carlão e São Lourenço

A Hidrologia é a ciência que estuda a água; no seu sentido mais lato, aborda a ocorrência, distribuição, movimento e composição química dos diversos tipos de água existentes no planeta. Da totalidade dessa água, 97% encontra-se nos oceanos. Os restantes 3% correspondem à água doce e distribuem-se da seguinte forma: estão contidos nos glaciares e icebergues 77%, compõem as águas subterrâneas 22%, equivalendo a última porção de 1% aos lagos (61%), à atmosfera e solos (39%) e aos rios (< 0,4%). A água subterrânea é a que circula maioritariamente na chamada “zona saturada”. Esta situa-se abaixo do nível de água, encontrando-se todos os seus vazios preenchidos por água subterrânea; quanto à zona não saturada (ou vadosa), localiza-se entre o nível de água e a superfície do terreno, estando os poros parcialmente preenchidos por ar, vapor de água e água.

Ao longo do seu percurso, a água subterrânea interage com o solo e as formações geológicas, dissolvendo e incorporando substâncias, pelo que é mais mineralizada do que a água superficial. A fim de proceder ao seu aproveitamento para consumo e atividades humanas, a água subterrânea pode ser extraída do solo e das rochas através de poços e furos de captação.

Águas minerais naturais são, para o especialista das águas subterrâneas, as que, por qualquer especificidade físico-química, se distinguem das águas normais de uma dada região. São em geral, mas não necessariamente, águas de circulação profunda e/ou de circuito hidrogeológico longo. As características distintivas mais frequentes são a mineralização e/ou a temperatura elevada. O seu arrefecimento deve-se à mistura com águas frias ou à perda de calor por condução térmica associada a fenómenos de convecção.

Quanto às nascentes, estão frequentemente relacionadas com sistemas hidrogeológicos condicionados pelas condições tectónicas e morfoestruturais. A presença de estruturas tectónicas (especialmente falhas afetando zonas profundas da crusta) origina zonas de escoamento preferenciais, tais como fissuras, diaclases ou falhas.

Caldas de Carlão e São Lourenço

A região Norte de Portugal é a mais rica em ocorrências hidrominerais, quer pela sua quantidade, quer pela diversificação do seu quimismo. Em Portugal continental a grande maioria das águas hidrominerais (com temperaturas de emergência entre os 20 ºC e os 76 ºC) encontram-se localizadas na região Norte e Centro do País.

Relativamente ao aproveitamento geotérmico, na maioria dos casos a temperatura das águas minerais é inferior a 20 °C, pelo que são consideradas “águas frias”. No pólo hidromineral de Chaves ocorrem as águas mais quentes do território continental, com temperatura de aproximadamente 73 °C. O aproveitamento geotérmico é feito principalmente no aquecimento do espaço balnear das Caldas de Chaves. Ao nível das águas minerais de Trás-os-Montes e Alto Douro, também é reconhecido potencial geotérmico nos polos hidrominerais de Moledo, Carlão, São Lourenço, Carvalhelhos e Seixo de Ansiães, embora, até hoje, não se tenham aí efetuado quaisquer tipos de aproveitamentos da energia geotérmica nem a qualificação do recurso como geotérmico.

Uma classificação possível

As águas minerais subterrâneas portuguesas são classificadas em nove tipos hidrogeoquímicos bem definidos, a saber: Bicarbonatada sódica, cálcica e/ou magnesiana; Cloretada sódica; Cloretada sódica em ambiente metalífero; Gasocarbónica; Sulfatada cálcica em ambiente evaporítico; Sulfatada cálcica em ambiente metalífero; Sulfúrea sódica; e Oxidrilada (esta última apenas para a água termal de Cabeço de Vide).

Caldas de Carlão

As Caldas de Carlão localizam-se na região de Trás-os-Montes e Alto Douro, pertencendo ao distrito de Vila Real (concelho de Murça). A uma altitude próxima dos 200 m, este polo hidromineral engloba diversas emergências de águas termais, que desde tempos longínquos têm sido utilizadas com fins terapêuticos, Foto 1.

Foto 1 – Sob o ponto de vista químico, as águas de Carlão são águas sulfúreas, bicarbonatadas, sódicas e fluoretadas, que emergem a uma temperatura de 30ºC. São exploradas com fins medicinais, estando indicadas no tratamento de doenças dermatológicas, reumáticas, músculo-esqueléticas, respiratórias e digestivas através de balneoterapia e ingestão.

O sistema aquífero hidromineral das Caldas do Carlão tem origem nas águas meteóricas que se infiltram em pontos de cotas elevadas na região envolvente. As águas circulam a profundidades médias e têm tempo de residência elevado, dado que são praticamente desprovidas de trítio. A circulação tanto superficial como subterrânea dá-se de preferência de NE para SW. Várias  emergências sob a forma de nascentes ocorrem na base da encosta norte do vale encaixado do rio Tinhela, próximo da zona de contacto entre xistos e granitos. Estão no geral associadas a zonas de interseção das duas famílias de falhas predominantes, caracterizadas por corredores de intensa fraturação. O ambiente litológico no qual se enquadram as Caldas de Carlão é constituído por granitos variscos sintectónicos que intruíram os metassedimentos do  Supergrupo Dúrico-Beirão (Complexo Xisto-Grauváquico). As nascentes surgem próximo da zona de contacto entre estes granitos e a Formação da Desejosa – Grupo do Douro ( integrada no Supergrupo Dúrico-Beirão). Em consequência da ação das tensões inerentes à orogenia alpina (Mesozoico) formou-se uma rede de falhas orientadas NNE-SSW, NE-SW e NW-SE, cortadas por outras, transversais, que dividiram aquele maciço em blocos.

Caldas de São Lourenço

O contexto geológico das Caldas de São Lourenço, a sul das Caldas de Carlão e localizadas na margem esquerda do rio Tua, é marcado sobretudo pela ocorrência de quartzodioritos e de tonalitos, Foto 2.

Foto 2Caldas de São Lourenço (Concelho de Carrazeda de Ansiães – distrito de Bragança). É uma água sulfúrea do sub-grupo de pH inferior a 8.35. ( Estudo físico-quimico das águas das termas de S. Lourenço, Direcção Geral de Geologia e Minas, Janeiro de 1993).    As águas sulfúreas, invulgares a nível mundial, são contudo o tipo hidrogeoquímico predominante em Portugal Continental, podendo ser encontradas sobretudo na Zona Centro-Ibérica. Fotografias de Tonalito e afloramentos do Granodiorito de São Lourenço.

A  rocha xistenta como micaxisto biotítico com mica branca, lépido-granoblástico médio a grosseiro, atravessado por vénulas de quartzo granular dispostas a favor da foliação da rocha. A rocha granítica, que representa a maioria da área, corresponde a um granito varisco de duas micas, sin-tectónico relativamente a D3, de grão fino a médio. Por vezes regista a presença de turmalina, e também de massas feldspáticas de pequenas dimensões, Foto 3.

Foto 3A zona de contacto entre as rochas do Supergrupo Dúrico-Beirão e os granitos é atravessada por diversos filões quartzosos e aplitopegmatíticos.  A intrusão aplito-pegmatítica desempenhou um papel fundamental constituindo a via de circulação da água mineral. Afloramento do Granodiorito de São Lourenço que aflora nas imediações da localidade de Franzilhal (concelho de Alijó), onde ocorrem diversas intrusões de granitóides variscos, cujas fácies principais correspondem ao granito fino de Franzilhal e aos granito de grão médio a grosseiro de Vilar de Maçada. A fraturação NNE-SSW condiciona a emergência das águas sulfúreas de São Lourenço.

Sobre este Granodiorito consultar o post: https://blacksmoker.wordpress.com/2018/06/12/granodiorito-de-sao-lourenco/

Decorrente principalmente de fatores de natureza geológica, a região de Trás-os-Montes e Alto Douro é impar no panorama dos recursos hidrominerais portugueses, não só pelo elevado número de emergências conhecidas, mas também pela significativa diversidade de tipologias hidroquímicas.

Desde os usos efetuados há longa data em práticas terapêuticas populares, até às modernas práticas de exploração termal e de bem-estar, ao engarrafamento (no caso das águas minerais gasocarbónicas) e à utilização geotérmica (mais recentemente), estas águas têm sido aproveitadas, embora de forma muito desigual.

Powerpoint – Biologia e Geologia 11º

FONTES :

https://digitalis-dsp.uc.pt/jspui/bitstream/10316.2/31478/1/42-Para_conhecer_a_Terra_artigo.pdf?ln=pt-pt

Acciaiuoli, L. M. C., 1952. Le Portugal Hydromineral, Direction Générale des Mines et
Services Géologiques, Lisbonne, Vol.I, pp. 284.

Calado, C., 2001. A ocorrência de água sulfúrea alcalina no Maciço Hespérico: quadro hidrogeológico e quimiogénese. Tese de Doutoramento, Universidade de Lisboa.

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