Nazaré – uma janela do Cretácico

A Nazaré é uma vila piscatória que se situa na costa Atlântica, a pouco mais de cem quilómetros a norte de Lisboa, é situada numa enseada em forma de meia-lua e é desde a sua origem, no séc. XVIII, uma terra marcada pela presença do turismo. Um dos locais de maior interesse turístico e geológico é o famoso Promontório da Nazaré.

Este local é uma das áreas famosas pelas ondas gigantes que atraem surfistas destemidos.

A geologia deste promontório encanta pelas espetaculares formações rochosas da Bacia Lusitaniana. A viagem ao Sítio da Nazaré onde se localiza este promontório permite uma pequena imagem da História Geológica de Portugal durante o  Cretácico.   No final deste post encontram-se as fontes que consultei para preparar esta visita e que permitiram os esquemas das fotografias que resumem um pouco da história geológica dos afloramentos que é possível visitar neste local. Um dos documentos fundamentais para as visitas geológicas turísticas que tenho realizado na orla ocidental abaixo do Porto tem sido “Curso de Campo na Bacia Lusitânica (Portugal) – Rui Pena dos Reis & Nuno Pimentel”.

Breve resumo da história geológica da Bacia Lusitaniana

No final do Paleozoico, os processos tectónicos relacionados com a Orogenia Varisca culminaram com a formação do supercontinente Pangeia. Posteriormente, a fraturação deste continente, na zona que hoje corresponde à região oeste de Portugal continental, levou ao abatimento de vários blocos rochosos, dando origem a uma complexa depressão que foi invadida pela água do mar, a Bacia Lusitaniana.

A Bacia Lusitaniana, localizada na orla ocidental ibérica, formou-se, durante o Mesozoico, num contexto tectónico distensivo associado às primeiras fases de abertura do Atlântico Norte.  No registo mesozoico da Bacia Lusitaniana identificam-se quatro grandes etapas de enchimento que possuem uma clara correspondência com as fases de estruturação do Atlântico.

No Aptiano (Cretácico inferior), deu-se a completa separação da Ibéria e da Terra Nova, com a implantação da dorsal oceânica no sector adjacente à Bacia Lusitaniana.  No final do Campaniano (Cretácico superior), ocorreu importante atividade ígnea e tectónica associada ao diapirismo com a intrusão de três complexos anelares sub-vulcânicos (Sintra, Sines e Monchique).

No final do Miocénico, as fases tectónicas compressivas da orogenia Bética desencadeiam os grandes levantamentos das Montanhas Ocidentais (NNW de Portugal), Cordilheira Central Portuguesa, Maciço Calcário Estremenho.

Ainda nesta óptica é possível individualizar quatro etapas principais no enchimento da bacia, todas elas relacionadas com as diferentes fases de rifting que se registou no Atlântico Norte:

1. a etapa entre o Triásico superior e o Caloviano;
2. a etapa entre o Oxfordiano e o Berriasiano;
3. a etapa entre o Valanginiano inferior e o Aptiano;
4. a etapa entre o Aptiano superior e o Campaniano.


É, ainda, possível definir uma quinta etapa, entre o Campaniano superior e o Maastrichtiano, precursora, ainda que de forma algo incipiente, da inversão tectónica que passou a afectar a Bacia Lusitaniana durante o Cenozóico.

O registo sedimentar define grandes pacotes sedimentares, separados por descontinuidades de grande representatividade assinaladas em toda a bacia e em relação direta com os grandes eventos da geodinâmica que a afetou, Foto 1. Estas sequências sedimentares limitadas por descontinuidades (designadas abreviadamente pela sigla SLD – sequências limitadas por descontinuidades, por adaptação do inglês UBS – unconformity bounded sequence) foram estabelecidas, na Bacia Lusitaniana, após trabalhos desenvolvidos por diferentes autores (Pena dos Reis 1992).

Foto 1 – No afloramento do promontório da Nazaré afloram duas “sequências limitadas por descontinuidades (SLD)”, a quarta e sobretudo a quinta.

Sequências limitadas por descontinuidades do afloramento da Nazaré – SLD

A quarta sequência, SLD-4, regista a importante transgressão que terá atingido o seu máximo, provavelmente, no início do final do Turoniano. A placa Ibérica terá iniciado, ainda durante a deposição da SLD-3, um importante movimento de rotação em sentido retrógrado, em consequência da formação de crusta oceânica, inicialmente a ocidente e, a partir do Aptiano, a NW da Galiza, acentuando-se, desta forma, a abertura do Golfo da Biscaia. Na parte Norte da bacia, desde o Aptiano superior até ao Cenomaniano, a sedimentação que então se forma é típica de ambiente fluvial.

A evolução mesozóica da bacia é, ainda, marcada por uma quinta sequência sedimentar, a SLD-5, com início no Campaniano e término no Maastrichtiano. É durante a deposição desta unidade que ocorrem importantes modificações ao nível do campo de tensões regional que afeta toda a bacia, passando a direção de compressão máxima a orientar-se segundo o azimute NNW-SSE. Em consequência destas modificações, os movimentos tectónicos e halocinéticos e o magmatismo acentuam-se, particularmente a Sul do paralelo da Nazaré e no offshore. Assim, a inversão tectónica que afetou a bacia e que viria a ter a sua expressão máxima no Miocénico superior, foi despoletada com as modificações que se geraram durante esta última SLD.

Cretácico do Promontório da Nazaré

O melhor local para observar este afloramento é a partir do Forte de São Miguel o Arcanjo. O afloramento, Foto 2, corresponde a uma série de episódios sedimentares (transgressivos e regressivos) relacionados com eventos geodinâmicos ocorridos entre o Cretácico e o Cenozoico.

Foto 2 – O afloramento do promontório da Nazaré (Farol da Nazaré) situa-se nos acantilados da praia norte (Sítio da Nazaré). O conjunto de unidades que o compõem pertence ao Cretácico superior e registam no seu conjunto o contexto de margem passiva, já com deriva continental e expansão do fundo oceânico. A nordeste da bacia instalou-se durante o Cretácico (SLD-4), um cinturão de leques aluviais (Formação da Figueira da Foz) que evoluíram para ambientes de transição e para uma plataforma marinha (Formação Carbonatada). A parte alta da sequência é composta por depósitos litorais (Formação de Lousões), recobertos por um conjunto fluvial (Formação de Grés Grosseiros Superiores). Finalmente a tecto destas sequência há um silcreto, indicando um hiato sedimentar e um período tectonicamente estável durante o Campaniano. O facto mais relevante durante a SLD-5 é a fase tectónica do Campaniano- Maastrichtiano, instalando-se os complexos sub-vulcânicos de Sintra, Sines e Monchique, as emissões basálticas de Lisboa-Leiria, o diapirismo e a reativação da Falha da Nazaré (Pena dos Reis, 2000).

Sobre os Silcretos

Os silcretos são gerados por ação de águas subterrâneas, referenciados na bibliografia como o “arenitos do deserto”. São os equivalentes siliciosos dos calcretos (formam-se por dissolução, transporte ou não e precipitação de carbonato de cálcio, no âmbito da diagénese meteórica). São acumulações carbonatadas pedogénicas, geradas em ambientes marcados pela planura do terreno e pela relativa secura.

A génese dos silcretos está associada à alteração superficial das rochas e à sua evolução pedológica em áreas aplanadas ou de muito pequeno declive e deficientemente drenadas, em latitudes marcadas por climas de tendência árida, com precipitações fracas, intervaladas por períodos de secura, oscilação que provoca flutuações nos níveis freáticos da capa de alteração o do solo. Na sequência do processo formam-se horizontes ou capas endurecidas, com a aparência de bancadas sub-horizontais.

História Geológica

Na base da falésia afloram litologias da Formação da Figueira da Foz.  No seu conjunto consiste numa sucessão continental na base (conglomerados e arenitos grosseiros) e de transição no teto (arenitos argilosos, margas e lutitos), traduzindo uma tendência geral transgressiva, passando gradualmente à Formação Carbonatada. Sobre esta formação Cretácico inferior, ocorre  Formação Carbonatada do início do Cretácico Superior (Cenomaniano).  É composto por wackestones (calcário essencialmente constituído por vasa carbonatada) e packstones bioclásticos (calcário essencialmente constituído por elementos figurados em contacto entre si) com intercalações métricas de calcários com rudistas e níveis com foraminíferos. O ambiente sedimentar correspondeu um sistema plataforma de baixa energia, situado detrás duma barreira construída por bivalves de concha espessa que viveram nos mares quentes, epicontinentais do Jurássico  e Cretácico (rudistas).

A teto destas rochas sedimentares encontramos a Formação Arenitos de Lousões. Durante o depósito desta formação produziu-se, nesta parte da Bacia Lusitânica, uma mudança da plataforma carbonatada precedente para uma plataforma mista, Foto 3.

Foto 3 – Arenito da Formação de Lousões, membro superior. Distinguem-se dois membros: o inferior carbonatado e o superior terrígeno, que refletem essa transição. O membro inferior que está separado da Formação Carbonatada por uma superfície marcada por um nível de brechas de dissolução. Nesta formação observam-se estruturas de colapso, que têm sido associadas a paleossismitos e a abatimentos de origem cársica.

No topo desta formação, próximo do Forte de S. Miguel, aflora um complexo filoniano de basaltos olivínicos correlacionados com o Complexo Basáltico de Lisboa.

A Formação Conglomerados do Sítio da Nazaré corresponde à parte mais alta da secção visitada. Consiste numa orla de leques aluviais coalescentes que respondem às mudanças paleogeográficas originadas pela atividade vulcânica, a halocinese (movimentação ascendente e/ou lateral de importantes massas salíferas, dando origem a estruturas diapíricas ou tifónicas) e a reativação da Falha de Nazaré que levantou o bloco sudeste (SE) durante os tempos maastrichtianos (Cretácico Superior).

A compressão que durante o Cretácico Médio-Superior afetou esta zona, provocou o levantamento e a progressiva diminuição da profundidade do bloco, com a sequente invasão de terrígenos. Com a progradação também avançou a frente de meteorização, incrementando-se o desenvolvimento do carso e produzindo-se uma mudança rápida desde condições diagenéticas marinhas até ao domínio meteórico, que se observa nas unidades carsificadas.

Fontes Consultadas

Corrochano, A., Pena Dos Reis, R. P. B. & Armenteros, I. (1998) Um paleocarso no Cretácico Superior do Sítio da Nazaré (Bacia Lusitânica, Portugal central). Características, controlos e evolução. V Congresso Nacional de Geologia, Lisboa (Portugal), Livro Guia das Excursões, Tomás Oliveira, J. & Dias, R. Ed., Excursão 1-O Mesozóico da Bacia Lusitânica.

Cunha, P. P. & Pena Dos Reis, R. P. B. (1993). The Cretaceous unconformitybounded sequences (Upper Aptian-Lower Campanian and Upper CampanianMaastrichtian?) in the Lousã-Pombal region. Field trip guide, I st General meeeting – IGCP Project 362 – Tethyan and Boreal Cretaceous, 5-18.

Dinis, J. M. L. & Pena Dos Reis, R. P. B. (1989). Litostratigrafia e modelos deposicionais nos “grés belasianos”(Cretácico) a Leste de Leiria (Portugal central). Geociências, Rev. Univ. Aveiro; 4, 2; 75-96.

Pena Dos Reis, R. P. B. & Cunha, P. M. R. (1989) A definição litostratigráfica do Grupo do Buçaco, na região de Lousã, Arganil e Mortágua (Portugal). Com. Serv. Geol. Portugal, 75; 99-109.

Pena Dos Reis, R. P. B. (1983) A sedimentologia de depósitos continentais. Dois exemplos do Cretácico SuperiorMiocénico de Portugal. Tese de doutoramento (não pub.) Universidade de Coimbra; 403 p.

Pena Dos Reis, R. P. B. (2000) Depositional systems and sequences in a geological setting displaying variable sedimentary geometries and controls: Example of the Late Cretaceous Lusitanian Basin (central Portugal). Com. Inst. Geol. e Mineiro, t. 87, 63-76.

Pena dos Reis, R. P. B., Corrochano, A., Bernardes, C., Cunha, P. Proença & Dinis, J. L. (1992). O Meso-Cenozóico da margem atlântica portuguesa. Guias de las excursiones geológicas-III Congreso Geologico de España y VIII Congreso Latinoamericano de Geologia. Ed. Universidad de Salamanca, 115-138.

Soares, A. F. (l980). A “Formação Carbonatada” Cenomano-Turoniana na região do Baixo Mondego, Comunicações dos Serviços Geológicos de Portugal 66, 99-109.

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