Sapal de Castro Marim

O estuário do Guadiana é um estuário longo e estreito, do tipo de um rio em vale encaixado. A largura média do estuário na zona da embocadura é cerca de 2 km, diminuindo progressivamente para montante, sendo a largura média da ordem de 1 km e a profundidade média da ordem dos 3 metros. Possui regiões de sapal tanto na margem Portuguesa (sapal de Castro Marim), como na margem espanhola (sapal de Ayamonte). O limite de penetração da água salgada no interior do estuário depende do caudal do rio, sendo que, no verão o limite de propagação situa-se na região de Alcoutim (a 40 km da foz) podendo os efeitos das marés serem sentidos em Mértola (a 65 km da foz). As estruturas reguladoras do rio aí existentes impedem a sua propagação mais para montante.

A maioria da região do sapal de Castro Marim na costa da margem Portuguesa e o de Ayamonte na margem Espanhola são zonas protegidas com estatutos de reservas naturais. O sapal de Castro Marim compreende uma área formada por sapais, salinas e esteiros, com zonas secas de xistos, grés vermelho, areias e arenitos.

Criada em 1975, foi a primeira Reserva Natural a ser classificada em Portugal continental e constitui um habitat importante para diversos seres vivos, incluindo para aves aquáticas que aqui encontram condições de nidificação e invernada, Foto 1.

Foto 1 – Reserva Natural do Sapal de Castro Marim e Vila Real de Santo António.

As zonas húmidas abrangem cerca de 66% da área total da reserva. Aqui, alguns sapais integram Áreas de Proteção Total, entre eles sapais primários e sedimentos intermareais adjacentes, com o objetivo de prezar a tranquilidade das atividades diárias das aves e de modo a manter o mínimo de perturbação nos processos naturais.

A salicultura e a agricultura são as duas atividades mais importantes presentes na reserva, com cerca de 60% da área desta. Nas salinas podemos encontrar produções tradicionais, com o sal a ser recolhido manualmente, e produções industriais com maquinaria introduzida. Após a crise neste sector, muitas das salinas foram abandonadas ou convertidas para aquaculturas.

Flora do sapal de Castro Marim.

Designam-se por halófitas as plantas que necessitam, para o seu desenvolvimento normal, de cloreto de sódio, carbonato de cálcio, sulfato de magnésio ou sulfato de sódio e podem suportar soluções salinas muito concentradas.

Confundem-se frequentemente os termos halófita e halófila.

Algumas halófitas podem sobreviver normalmente em solos não salgados logo seu halofilismo é facultativo e só vivem nestes meios porque, na luta competitiva travada com outras plantas em solos normais, são remetida para os salgados, como que por exclusão.

As halófilas, pelo contrário, só se desenvolvem completamente na presença de fortes concentrações salinas, isto é, são halófitas obrigatórias.

As espécies do sapal, apesar de habitarem áreas com Os sapais de Portugal são colonizados por espécies halófitas, Foto 2, sendo as mais comuns a Halimione portulacoides, Sarcocornia fruticosa, Spartina marítima e Juncus maritimus.

Foto 2 – As espécies vegetais do sapal, apesar de habitarem áreas com grande disponibilidade de água, o facto desta ser salgada impõem inúmeras adaptações aos vegetais. Estas plantas podem imobilizar ou mobilizar metais nos sedimentos da rizosfera, consoante a excreção de oxigénio das raízes para o sedimento, influenciando assim os processos redox e ainda alterando o pH . Conseguem suportar períodos em que ficam submersas por várias horas e suportar elevada salinidade. Permitem que se depositem mais sedimentos, que são estabilizados pelas suas raízes e onde é produzida e acumulada mais matéria orgânica. Neste exemplo de um Sapal mediterrânico, observa-se a influência simultânea da submersão pelas águas da maré, da salinidade, da profundidade do lençol freático e da composição florística. A fronteira entre os sapais mediterrânicos e os sapais eurossiberianos verifica-se na lagoa de Óbidos.

As plantas que constituem o sapa de Castro Marim tem um carácter anfíbio, embora um dos fatores que maior influência tem na distribuição das espécies que podem aqui ser encontradas é a submersão bidiária.

O que são os Sapais?

Os sapais são ambientes específicos de estuários, deltas, ou lagos, e são zonas de transição entre ecossistemas marinhos e terrestres. São caracterizados por serem plataformas de sedimentos finos (por deposição fluvial ou por erosão e transporte de ondas) e de matéria orgânica. São alagados consoante as marés e colonizados por plantas, que apresentam características que lhes permitem desenvolver-se neste tipo de ambientes.

Os sapais podem ser definidos como áreas entre-marés de sedimentos finos transportados por água e estabilizados por vegetação). Os sapais são formações de vegetação tolerante à salinidade da água dos ambientes em que se inserem. Fazem parte de sistemas estuarinos, costeiros e por vezes lagunares. Para a sua formação e manutenção, os sapais dependem dos processos e inputs destes sistemas maiores onde estão inseridos. Podem ser considerados como um “banco de sedimentos” dos estuários ou baías. São constituídos, geologicamente, por lamas e partículas finas de areia. Pela sua fragilidade, os sapais são dos ecossistemas mais ameaçados do mundo, em consequência das pressões antropológicas que lhes são exercidas.

Flora nos sapais

As espécies dos sapais, apesar de habitarem áreas com grande disponibilidade de água, o facto desta ser hipertónica, impões inúmeras adaptações aos vegetais. Só algumas plantas desenvolveram para suportar estas condições extremas adaptações do seu metabolismo tais como o desenvolvimento da suculência, absorção em alto grau de certos iões, capacidade de acumulação, em certas partes da planta, de grandes quantidades de sais provenientes do seu metabolismo, de depois eliminam juntamente com os órgãos que os armazenavam e existência de glândulas de sal responsável pelo conteúdo mineral de muitos halófitos.

Para a criação de um sapal, por processos naturais, alguns fatores têm de ocorrer.

Primeiro que tudo, a sua localização e ocorrência não é aleatória, já que estes ocorrem inseridos noutros sistemas de maior envergadura e mais complexos: estuários, baías ou conjuntos lagunares costeiros, onde existe influência de água doce.

A morfologia destes sistemas tem um papel fundamental para a criação de sapais: todos têm potenciais zonas abrigadas das correntes das marés e também da ação da ondulação.

Os sedimentos finos em suspensão, de origem marinha e de origem fluvial, são transportados pelas correntes de maré até aos diversos pontos nestes sistemas, mas é onde e quando o conjunto de energias envolvidas neste processo é mais baixa que os sedimentos podem repousar e fixar-se. Ou seja, os sedimentos fixam-se nas zonas intertidais e quando a energia da maré é mais baixa, altura em que a água se move mais lentamente, – na preia-mar. Estes sedimentos, pela permanente atividade das marés, estratificam-se consoante os seus pesos e volumes, onde, por último, os lodos se depositam apenas quando a energia da água é próxima de nula.

Ao longo do tempo, estes depósitos de sedimentos aumentam e dão origem a condições para alguma vegetação se fixar e desenvolver, começando assim a colonizar «terra nova». Com o crescimento e fixação das plantas aumenta a capacidade de atenuação da velocidade das marés, e consequentemente, a deposição de sedimentos também irá aumentar, assim como a adição de matéria orgânica.

Enquanto o sapal se desenvolve, a deposição e adição de nova matéria vai elevar o nível da nova superfície em relação ao do mar, diminuindo assim a frequência e a duração das submersões pelas marés. Assim, possibilita a colonização de plantas menos tolerantes à salinidade e à submersão, criando comunidades mais complexas à medida que o sapal se desenvolve.

Os sedimentos que vão sendo depositados nestas zonas são, por norma, muito finos e uma das suas propriedades é a grande capacidade de adsorção. Ora, devido a esta condição, o sapal consegue reter elementos poluentes que se encontrem em suspensão ou diluídos na água, com a ajuda das plantas, neutralizando-os. Ou seja, o conjunto de atuantes num sapal consegue filtrar, reter e degradar matéria. Diversos estudos demonstraram que os sapais tem a capacidade de reter compostos considerados poluentes, entre eles, herbicidas, pesticidas e metais pesados.

Com a génese de um sapal, é criado um ecossistema único e especial, onde desde o mais pequeno ser até predadores encontram refúgio, alimento e também um local de ovação/nidificação. Não só as espécies animais endémicas se refugiam nestes locais, mas também é um destino privilegiado de aves migratórias, provenientes do resto da Europa e do Norte de África. Em termos florísticos, os sapais criam um habitat tão específico que apenas certas plantas, geograficamente restritas, tolerantes à salinidade e à submersão conseguem formar aqui comunidades.

Os sapais são igualmente limitadores naturais de cheias e de dinâmicas erosivas, sendo a primeira linha de defesa contra a força das ondas e marés, já que têm a capacidade de dissipação da energia das ondas. Esta capacidade é refletida na diminuição da altura das ondas.

Com a presença de sapais, os custos para a manutenção das frentes costeiras e ribeirinhas diminuem substancialmente, devido às estruturas de contenção não precisarem de ser tão robustas. Esta proteção contra as ondas não é tão eficaz contra condições extremas de ondulação. Contudo, o valor destes sapais como uma proteção funcional, natural e potencialmente sustentável tem sido meritoriamente reconhecido.

Fontes Consultadas

Adam, P. (1990). Saltmarsh Ecology (1ª edição). UK: Cambridge University Press, Cambridge

Antunes Dias, A. & Marques, J., 1999. Estuários. Estuário do Tejo: o seu Valor e um pouco da sua História. Alcochete: Reserva Natural do Estuário do Tejo.

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