Origens – Parte I (Éden Africano)

Conjunto de 3 posts sobre a grande jornada do clado africano dos hominoides. Nesta primeira parte alguns conceitos de biologia evolutiva importantes e a história do nosso primeiro registo no nosso ramo evolutivo.

A biologia moderna está fortemente apoiada no conceito da evolução das espécies, e entende-se que cada ser vivo compartilha ancestrais em maior ou menor grau com os demais seres vivos. Uma forma encontrada para mostrar estas relações entre os seres vivos são representações gráficas denominadas “cladogramas” ou “árvores filogenéticas”. Os cladogramas correspondem a hipóteses sobre a evolução de grupos de organismos, e seu uso, além de permitir trabalhar o conceito de ancestralidade comum.

Figura 1 – A análise filogenética resulta de uma hipótese de relações de parentesco expressa por um cladograma. O cladograma pode ser dividido em : A) Raiz (ramo ancestral de uma análise) ; B) Nós (localizados na divisão de um ramo em dois ou mais. Representam entidades hipotéticas); C) Ramos (representam cada linhagem evolutiva) e D) Terminais (grupos que estão a ser analisados).

De acordo com a metodologia da sistemática filogenética (escola criada pelo etomólogo alemão Willi Henning) um carácter é uma conjetura de homologia (no sentido evolutivo) e o sua consequente confirmação (ou não) é feita através da árvore filogenética.

Microevolução e macroevolução

A expressão microevolução (evolução à escala micro) refere-se às mudanças que ocorrem no interior das espécies, ou seja, entre as populações que a compõem. Tem a ver com a vida de uma espécie (decorre do ponto D – terminal, Foto 1, na árvore filogenética). A expressão macroevolução (evolução à escala macro) é usada pelos paleontólogos e refere-se à história evolutiva das linhagem, como os ruminantes, primatas, etc (árvore filogenética da Figura 1). Esta evolução conta-se por milhões de anos e não por gerações.

Origens da Humanidade

As alterações verificadas no clima da Terra ao longo do tempo estão relacionadas com a origem e evolução do Homem, além de terem criado condições para a sua migração para toda o planeta. Ao longo dos últimos séculos têm sido descobertas pistas que permitem uma imagem inacabada desta origem e evolução do Homem. Vou fazer uma viagem resumida nesta imagem tendo presente à partida as noções de filogenia, micro e macroevolução e outros conceitos que vou explorar à media que for explorando esta imagem da origem humana.

No Deserto do Afar

A bacia do Afar é onde está neste momento a ocorrer os estádios precoces do ciclo de Wilson que correspondem à chamada fase de rifte intracontinental. A dinâmica do interior da Terra nesta região tem levado a um processo de divergência – Rifte do Leste Africano. Nesta região instável da litosfera, os vulcões, os sismos e a lenta acumulação de sedimentos convergiram entre si para enterrar as ossadas e, muito mais tarde, devolveram-nas às superfície sob a forma de fósseis.

Em 2009 os investigadores do projeto Middle Awash, anunciaram ao mundo um achado: a descoberta do esqueleto de um membro da família humana com 4,4 Ma num local denominado Aramis, a cerca de trinta quilómetros a norte do lago Yardi. Os primeiros fósseis atribuídos à nossa linhagem têm entre 7 Ma, quando muito, e um pouco menos de 4,5 Ma. Vieram na Etiópia, no Quénia e no Chade, em locais que eram florestas tropicais e que hoje são terrenos áridos.

Aos vestígios fósseis descritos, os paleoantropólogos chamaram de «ardipitecos», porque os esqueletos, porque o esqueleto mais completo encontrado, que recebeu o nome de Ardi, é de uma fêmea da espécie Ardipithecus ramidus.

Percebe-se por este esqueleto que os ardipitecos tinham uma vida passada nas árvores, com braços muito compridos (mais do que as pernas), e muito fortes. Os dentes, comparáveis aos dos chimpanzés em tamanho e em espessura do esmalte, indicam um nicho ecológico que não seria muito diferente. Os ardipitecos raramente desceriam ao solo e faziam-no menos que os gorilas e ainda menos que os chimpanzés. Eram, segundo o paleontólogo Juan Luís Arsuaga, habitantes do dossel arbóreo.

O registo da linhagem humana, a sua macroevolução, iniciada em África recua até cerca de 7 Ma, Figura 2.

Figura 2 – A Família Humana. Árvore filogenética (Science, 2009). Além de Ardi, os estratos existentes no Afar representam outros 14 períodos cronológicos diferentes e já proporcionaram a descoberta de hominídeos, desde formas ainda mais antigas e primitivas do que o Ardipithecus ramidus até representantes primitivos do Homo sapiens.

Em 1978 foram descobertas pegadas fossilizadas em Laetoli (Tanzânia), que evidenciam marcas de bipedismo. Encontram-se preservadas num nível de cinzas vulcânicas, provenientes do vulcão Sadiman, a 20 km de distância. As cinzas foram consolidadas por água proveniente da chuva, que não destruiu as pegadas. Este nível foi descoberto, posteriormente por mais cinza. Datações com K/Ar permitiram concluir que o nível se formou há 3,6 Ma. durante o pliocénico, Figura 3.

Figura 3 – O primeiro passo na nossa linha evolutiva, Ardipithecus, com uma parte do seu pé no passado e outra no futuro, caninos já reduzidos, habitando as florestas foi substituído por uma segunda etapa, Australopithecus, ainda com cérebros pequenos mas totalmente bípedes, já não limitados à floresta e com um território que geograficamente se prolongava do Rifte Africano na região da Etiópia até ao Transval, na África do Sul.

Os primeiros bípedes

Os primeiros dos nossos que não oferecem dúvidas sobre a sua filiação são os Australopitecos que viveram desde há mais 4 Ma e até há menos de 2 Ma, numa parte considerável de África. O fóssil mais famoso de um australopiteco é um esqueleto batizado Lucy, uma fêmea de Australopithecus aferensis que viveu onde é hoje a Etiópia. Um outro esqueleto descoberto, também de fêmea, muito mais completo, encontrado na África do Sul e batizado Little Foot.

Não restam dúvidas de que os australopitecos são da nossa própria linhagem, porque a postura era completamente bípede e, no essencial, igual à postura humana atual, com todas as adaptações que tornam possível este tipo e locomoção.

Passavam uma parte considerável do seu tempo nas copas das  árvores, onde consumiriam frutas maduras e estariam a salvo do perigos. Parte da dieta era também obtida em meios menos florestais e mais abertos. Tudo isto faz pensar que o habitat dos australopitecos tenha sido o das florestas fragmentadas, ou seja, um mosaico ecológico. Os antepassados dos gorilas e chimpanzés, permaneceram nas florestas tropicais e contínuas, sem grandes clareiras, da cintura tropical africana, onde os seus descendentes continuam a viver.

A especiação consiste na divisão de uma espécie em duas ou mais espécies, não muito diferentes entre si, que ecologicamente ocupam subzonas adaptativas próximas, nichos muito semelhantes.

Os genomas dos chimpanzés, gorilas e seres humanos, os membros do clado africano dos hominoides, são muito semelhantes, de tal modo que o último antepassado comum (Ponto A – Raiz) não deve estar muito afastado no tempo. Viveu em África há 10 Ma, ou até menos, mas no Mioceno. A linha dos gorilas afastou-se primeiro, mas quase imediatamente separaram-se os chimpanzés e os seres humanos. Há, aproximadamente, 2 milhões de anos, os chimpanzés dividiram-se em duas espécies separadas pelo Rio Congo: os chimpanzés comuns e bonobos.

O último antepassado comum de gorilas, chimpanzés e humanos não era nada parecido com nenhum deles. A partir do último antepassado comum, temos mudado muito (evoluído) nas três linhas.      

Fontes Consultadas

Vida a Grande História – Juan Luis Arsuaga (Temas e Debates, Círculo Leitores)

https://www.sciencemag.org/news/2020/04/lucy-s-baby-suggests-famed-human-ancestor-had-primitive-brain

Praia do Amado

É uma praia ampla, embora não tão extensa nem exposta quanto a Praia da Bordeira, que se estende ao longo de três vales. A norte, dominam os tons vermelhos e laranjas nas arribas e a passagem pelo sítio do Pontal é obrigatória, pela paisagem deslumbrante, pelo lapiás calcário e ainda pelo curioso abrigo de pesca da Zimbreirinha, onde os barcos se fundeiam em plataformas de madeira suspensas na arriba.

A sul, o cinzento dos grauvaques e dos xistos volta a dominar a paisagem. A vegetação encontra-se atapetada pelos ventos frequentes.
O Amado é famoso pelas suas ondas, muito versáteis e diversificadas, o que justifica a presença constante de escolas de surf e bodyboard no local.

Acesso viário alcatroado a partir da entrada sul da Carrapateira, seguindo na direcção do Amado, que se situa a cerca de 2 km. É também possível chegar ao Amado através da Praia da Bordeira, seguindo para sul sobre o topo das arribas (acesso de terra batida em cerca de 500m), passando pelo Pontal, local de grande beleza. Carrapateira e Bordeira vão ser tema um futuro post.

O valor científico e o potencial didático, em termos geomorfológico e paisagístico, desta praia justifica, a opção pela investigação realizada nesta região, tornando pertinente a utilização e a exploração didática destes local, tanto no ensino básico como no ensino secundário.

Um pouco de geologia…

A Bacia do Algarve é uma entidade geológica com cerca de 150 km de extensão e 30 km de largura, na sua porção emersa, tem uma orientação geral ENE- WSW, com sequências sedimentares que espessam e apresentam fácies de maior profundidade para SSE, localizando-se o depocentro da bacia no mar. Desde os estádios iniciais, a formação e desenvolvimento da bacia do Algarve esteve na estreita dependência da fracturação e abertura do oceano Atlântico, por um lado, e da atividade da fronteira de placas tectónicas entre a Península Ibérica e a África, por outro, Foto 1.

Praia do Amado-11

Foto 1 – A região compreendida entre a Carrapateira e a Ponta do Telheiro mostra uma grande diversidade geológica englobando dois tipos de terrenos: o Soco Varisco do Paleozóico Superior pertencente à Zona Sul Portuguesa, e a Cobertura Ceno-Mesozóica.

O enchimento sedimentar desta bacia passou por várias etapas deposicionais, relacionadas com um regime tectónico distensivo (conjunto de movimentos/forças distensivas com orientação noroeste-sudeste e norte-sul), que terá levado à diminuição da espessura litosférica com rutura posterior, regime associado ao início do processo de formação do Oceano Atlântico norte e central (com provável expansão do oceano Tétis para ocidente), aquando da fragmentação da Pangea. Estes processos relacionam-se com a deriva diferencial da placa Africana (que migrou para oriente) em relação à Euroasiática/microplaca Ibérica.

Assim, na Bacia Algarvia, terá ocorrido, entre o Mesozoico e o Cenozoico, a precipitação e a deposição de 3 000/4 000 metros de sedimentos (evaporitos, calcários, dolomitos, margas, arenitos, argilitos e areias finas), atualmente visíveis, em discordância angular e com lacuna estratigráfica, sobre o Soco paleozoico.

A região compreendida entre a Carrapateira e a Ponta do Telheiro mostra uma grande diversidade geológica englobando dois tipos de terrenos: o Soco Varisco do Paleozóico Superior pertencente à Zona Sul Portuguesa, e a Cobertura Ceno-Mesozóica.

A Praia do Amado situa-se a cerca de 2 km a sul da povoação da Carrapateira. Nas arribas da parte norte da praia (Praia do Cavaleiro) observam-se sedimentos pertencentes aos denominados “Grés de Silves” de idade Triásico Superior – Jurássico Inferior, enquanto que os afloramentos da parte central  sul correspondem a xistos argilosos negros pertencentes à Formação Bordalete de idade Tournaisiano (Carbonífero Inferior). Ambas as sucessões encontram-se intruídas por numerosos filões de rochas básicas alguns dos quais correspondem aos segmentos terminais do grande filão dolerítico de Messejana. Para além das rochas intrusivas, os afloramentos da parte norte da praia terminam com um episódio de vulcanismo extrusivo datado do Kimeridgiano (Jurássico superior).

A abertura do Atlântico – Grés de Silves

Rochas sedimentares detríticas, de coloração avermelhada, devido à oxidação dos minerais de ferro, fenómeno relacionado com as condições paleoclimáticas, quentes e áridas, compatíveis com a posição geográfica, central e próxima do equador, o durante o Triásico.

A sucessão estratigráfica observada na parte norte da praia do Amado inicia-se com arenitos de cor vermelha formando uma sequência formada por conglomerados na base que passam para o topo para arenitos grosseiros a médios, Foto 2.

Foto 2 –  Datada do Triásico Superior (cerca de 230 Ma a 210/200 Ma), a Formação dos Arenitos de Silves (por vezes chamada Formação do Grés de Silves), constituída por argilas, arenitos, argilitos, siltitos e conglomerados (com clastos do Soco varisco), de natureza continental e com tonalidades avermelhadas e amareladas, representa a base da Bacia Algarvia. Estas litologias apresentam estruturas sedimentares bem preservadas e definidas, como no caso da estratificação cruzada/entrecruzada e dos “ripple marks”.

As estruturas sedimentares observadas nesta sequência e a sua organização vertical, sugerem sedimentação continental aluvionar por ação de correntes unidireccionais, tendo-se acumulado, possivelmente, em leques aluvionares sob condições climáticas de aridez, denotado pela cor vermelha que mostram resultado da intensa oxidação que sofreram. Por correlação litológica com outros locais da Bacia Algarvia a sul, estes arenitos correspondem aos “Grés de Silves” de idade Triásico Superior.

Jurássico inferior – O Atlântico a abrir

Ao longo do Jurássico Inferior, a rutura dos blocos rochosos, numa fase distensiva (falhas com orientação este-oeste), associada à continuação do processo de fragmentação da Pangea, terá permitido que as águas marinhas invadissem, progressivamente, as regiões situadas entre as massas continentais, levando à formação de lagos/lagoas temporários. Na presença das condições paleoclimáticas existentes (clima quente e seco) terá ocorrido, nesses sistemas lagunares, a evaporação da água salgada e a precipitação posterior de quantidades significativas de gesso, anidrite e sal-gema (depósitos evaporíticos), encontrados, atualmente, em diversas zonas do Algarve. Devido à plasticidade destes materiais evaporíticos, verificam-se, mais tarde (no período Paleogénico), movimentos ascendentes do gesso, ao longo de fraturas existentes, muitas vezes sob a forma de diapiros, Foto 3.

Foto 3 – Em concordância estratigráfica com os arenitos sucede-se uma sequência, constituída maioritariamente por argilitos de cor vermelha. Intercalados com os argilitos ocorrem camadas de dolomitos de cor creme e camadas de argilitos de cor esverdeada a cinzenta. Falhas normais de pequeno rejeito, afetam esta parte da sucessão.

Esta parte da sucessão encontra-se intruída por vários filões de rochas básicas nas quais se observam numerosos xenólitos no seio interior, Foto 4.

Praia do Amado-4Foto 4 – Princípio da inclusão. Fragmento de Grés de Silves (vermelho) de idade triásica incluido em basaltos de idade Kimeridgiana (Jurássico superior).

Os tipos litológicos e estruturas sedimentares exibidas sugerem que estas argilas e dolomitos se acumularam em ambientes lagunares costeiros em clima árido a ambiente marinho costeiro de pouca profundidade. As características desta parte da sucessão permitem correlacioná-la com o Complexo Margo Carbonato Evaporítico de Silves da Bacia Algarvia, de idade Triásico Superior – Hetangiano. No mesmo período geológico, as referidas fraturas, associadas ao culminar do processo distensivo, que conduziu à diferenciação de um rifte, terão possibilitado, nas zonas mais finas da crosta, a subida de magma, originando uma atividade vulcânica intensa (provavelmente em regime continental e marinho), com alternância de fases explosivas e efusivas, caracterizada, essencialmente, pela emissão de escoadas basálticas, filões e piroclastos. Estes acontecimentos vulcânicos encontram-se representados, em afloramento quase contínuo, ao longo de toda a região algarvia, onde é possível observar rochas vulcânicas (basaltos, doleritos, tufos vulcânicos e brechas vulcânicas, sob a forma de chaminés.

Magmatismo

As rochas que afloram nesta praia  estão intruídas por diversos filões de rochas magmáticas básicas, aproximadamente com uma direcção NNE – SSW. Nos afloramentos observados os filões exibem espessuras variáveis. É ainda possível observar texturas de arrefecimento, de fluxo magmático, pequenas margens de metamorfismo de contacto nas rochas encaixantes e xenólitos no interior dos filões, Foto 5.

Foto 5 – Geoquimicamente estes filões apresentam características correspondentes aos basaltos toleíticos e paralelizáveis ao grande filão dolerítico de Messejana. Este último filão foi datado do Jurássico Inferior, 184± 5 Ma, a Jurássico Médio, 168±5 Ma.

Caminhando para sul a falésia apresenta uma cor escura, sinal que estamos de volta ao Paleozoico. Mas antes de chegarmos a esta falésia de xistos e grauvaques há um afloramento do Cenozoico, mas esse, vou deixar para um outo post.

Site no WordPress.com.

EM CIMA ↑