Lahar

A Colômbia é um país da América do Sul localizado num limite de convergência de placas. Possui vulcões ativos, entre os quais, o Nevado del Ruiz. No dia 13 de novembro de 1985, o vulcão entrou em erupção, tendo levado ao deslizamento de massas que provocaram a morte de 25 mil pessoas, transformando-se no pior desastre natural do país.

Este vulcão, com 5389 metros de altitude, cujo cume está coberto de neve desde os 4900 metros, libertou, para além dos fluxos piroclásticos, grande quantidade de calor responsável pelo degelo das massas de água que o cobriam. A água e os piroclastos originaram um fluxo de lamas, fenómeno conhecido por lahar, que escorreram a grande velocidade pelas linhas de água, provocando efeitos devastadores. Uma hora depois de ter entrado em erupção começaram a cair cinzas vulcânicas e lapili, na cidade de Armero, localizada a 45 km da cratera vulcânica. O dia escureceu bastante e choveu intensamente. A cidade de Ambalema, situada no vale do rio Lagunilla, a 80 km da cratera, sofreu esta catástrofe quatro horas após o início da erupção principal. A área do vale mais próxima do rio Lagunilla ficou coberta por um manto de lama cujo volume foi estimado em 300 milhões de metros cúbicos.

Resumo – Vulcanismo

Questão

A ocupação antrópica de locais próximos dos vulcões torna as populações vulneráveis e potencia a perda de vidas humanas. Relacione as medidas de prevenção que devem ser tomadas, para evitar novas tragédias, com as características geológicas da região do Nevado del Ruiz.

Referências: 

Prova Escrita de Biologia e Geologia (Prova 702/2.ª Fase) – 2008

 

Arribas e os movimentos de massa

Uma arriba (Cliff) não é mais do que um talude natural com forte declive, que sofre erosão, por vezes intensa no sopé por ação direta da ondulação, e por processos subaéreos, Foto 1.

SPMoel - deslizamento

Foto 1 – Movimento de massa na Praia da Polveira (São Pedro de Moel) Em São Pedro de Moel   a Formação de Água de Madeiros do Jurássico Inferior (Sinemuriano)  está organizada em dois membros: Membro de Polvoeira na base e Membro da Praia da Pedra Lisa no topo. Esta Formação possui 42 m e é constituído por alternâncias de margas e calcários margosos, geralmente de cor cinzenta, com níveis ricos em matéria orgânica. Em termos macrofaunísticos, comporta essencialmente bivalves e braquiópodes na porção inferior que dão lugar, superiormente, a amonóides e belemnites. Estas unidades do Jurássico Inferior em S. Pedro de Moel encontram-se fortemente marcadas pela tectónica diapírica (diapiro de S. Pedro de Moel), dispostas numa estrutura em sinclinal.

As arribas, apesar de em alguns casos apresentarem configuração aparentemente imutável à escala de observação de alguns anos, sofrem evolução contínua das faces expostas aos agentes de erosão marinha.

Assim, a instabilidade dos sistemas litorais de arriba resulta da atuação de diversos processos, que dependem de inúmeros fatores de natureza geológica, morfológica, climática e hidrológica. Em grande parte das litologias e dos contextos climáticos, o aumento do declive proporcionado pela erosão basal propicia a ocorrência de movimentos de massa de vertente, onde o centro de gravidade do material afetado progride para jusante e para o exterior da arriba.

Os movimentos de massa em arribas subverticais são normalmente instantâneos e dificilmente previsíveis, podendo envolver a mobilização de milhares de metros cúbicos de material, podendo provocar danos irreversíveis quer para as ocupações no topo das arribas, quer para os utentes das eventuais praias suportadas pelas arribas. São assim, geradores de situações de risco podendo interferir significativamente com a ocupação humana no litoral, pondo em causa a segurança de pessoas e bens.

A erosão marinha é a principal responsável pelo retrocesso dos litorais rochosos e empreendedora da evolução destes sistemas costeiros. As ondas são o agente erosivo mais importante ao longo da maioria das costas, mas os seus efeitos e eficácia variam de acordo com as suas características, a morfologia costeira e as características das rochas.

A forte erosão marinha está relacionada com a ocorrência de temporais, em particular durante o Inverno, através do sapamento da base da arriba, pela ondulação incidente (aumento da pressão provocada pelo choque e consequente descompressão resultante da sucção provocada pelas correntes de refluxo) e alguma metralhagem na face da arriba.

Glossário

Balançamento/tombamento (“topple”) –  consiste num movimento de queda-livre com a rotação de um bloco em torno de um eixo fixo durante o movimento, ou rotação de uma massa de solo ou rocha, a partir de um ponto ou eixo situado abaixo do centro de gravidade da massa afetada. O movimento ocorre por influência da gravidade e pela ação de forcas laterais, exercidas quer por unidades adjacentes, quer por fluidos presentes em diáclases e fracturas.

Deslizamento (“slide”) – é o cisalhamento sobre uma superfície de deslizamento distinto, e a massa de deslizamento apresenta um movimento em bloco; movimento de solo ou rocha que ocorrem dominantemente ao longo de planos de rutura ou de zonas relativamente estreitas, alvo de intensa deformação tangencial. Os deslizamentos podem ser subdivididos em deslizamento planar e deslizamento rotacional. O primeiro tem uma superfície de deslizamento quase linear, ao passo que o último é de plano circular

Escoada (“flow”) é um movimento com velocidade crescente em direção à parte superior de um corpo em movimento, as escoadas ocorrem em algumas costas compostas por materiais argilosos pouco resistentes originando fluxos de lama (“mudflows”).

Movimentos de massa em costas rochosas – dividem-se em 4 tipos: desabamentos/queda de blocos (“falls”), balançamentos/tombamentos (“topples”), deslizamentos (“slides”) e escoadas/fluxos (“flows”). Estes tipos de movimentos dependem principalmente dos fatores estruturais e litológicos do material que forma a rocha, tais como a estrutura geológica, características estratigráficas e propriedades geotécnicas ou resistência da rocha.

Queda de blocos (“fall”)  – corresponde a movimento de massa que viaja através do ar como um corpo em queda livre, ou deslocação de solo ou rocha a partir de um abrupto, ao longo de uma superfície onde os movimentos tangenciais são nulos ou reduzidos. Podem ser subdivididos em desabamento rochoso, desabamento de detritos, desabamento de terra, de acordo com o tipo de material na arriba antes do movimento.Trata-se de um movimento de massa brusco, caracterizado pela elevada velocidade que pode atingir, em relação à queda livre que ocorre pelo menos em parte da deslocação.

Referências: 

Neves, M. (2004) Evolução atual dos litorais rochosos da Estremadura Norte. Estudo
de Geomorfologia. Dissertação de Doutoramento. Faculdade de Letras da
Universidade de Lisboa, Lisboa. 574 p.

Sunamura, T. (1992) Geomorphology of rocky coasts. John Wiley & Sons, Chichester,
302 p.

 

Campo de Lapiás (Granja dos Serrões)

As regiões calcárias são, em geral, caracterizadas por aspetos particulares de relevo e circulação hídrica que constituem o modelado cársico, resultado da ação da água enriquecida em CO2 que dissolve a rocha ao longo das descontinuidades que compartimentam os maciços nas diferentes escalas. A quantidade de rocha que pode ser dissolvida depende de diversas condições, como sejam o seu grau de pureza e composição, espessura e tipos de solos e de fatores climáticos, nomeadamente a temperatura e precipitação.

Lapiás (Granja dos Serrões)-10

 

Na Granja dos Serrões, localizada no concelho de Sintra, Foto 1, afloram calcários do Cretácico superior pertencentes à Bacia Lusitaniana. Esta, é uma bacia sedimentar que se desenvolveu na Margem Ocidental Ibérica durante parte do Mesozóico. A sua dinâmica enquadra-se no contexto da fragmentação da Pangeia, mais especificamente da abertura do Atlântico Norte. Caracteriza-se como uma bacia distensiva, pertencente a uma margem continental do tipo atlântico de rift não vulcânica. Ocupa mais de 20 000 km2 na parte ocidental da Margem Ocidental Ibérica, alongando-se por cerca de 200 km segundo direcção aproximada NNW-SSE e por mais 100 km na direcção perpendicular. Cerca de 2/3 aflora na área continental emersa e a restante área, encontra-se imersa, na plataforma continental.

Lapiás (Granja dos Serrões)-12

Foto 1 –  Calcários do Cenomaniano superior (Cretácico) de Pero-Pinheiro. Foi no Cretácico superior que se deu a colisão entre as placas Africana e Euroasiática, responsável pelo ambiente compressivo na microplaca Ibérica. Neste contexto, ocorreram ciclos magmáticos com importante influência na área da Bacia Lusitaniana.

Durante Cenomaniano (Complexo Carbonatado Cenomaniano) a Bacia Lusitaniana encontrava-se já numa fase de pós-rift e colmatação em margem passiva, em que ocorreu sedimentação de carbonatos, com extensão de plataforma carbonatada para norte, num período em que se registou o máximo da transgressão marinha. Este “Complexo Carbonatado Cenomaniano” é constituído por espesso conjunto de calcários, calcários margosos, calcários dolomíticos, margas e argilas margosas com níveis fossilíferos, Foto 2.

Foto 2 – Engloba-se no Cenomaniano superior os “Calcários com rudistas” e “Camadas com Neolobites vibrayeanus”. Os “Calcários com rudistas” (antigo Turoniano), que constituem o topo do Cenomaniano superior, formaram-se em ambiente recifal. São calcários subcristalinos, fossilíferos, por vezes com níveis nodulados e leitos de sílex nas camadas superiores, correspondendo ao enchimento de canais e lagunas. As “Camadas com Neolobites vibrayeanus” constituem a base do Cenomaniano superior. São constituídas por calcários apinhoados com abundantes alveolinídeos e marcam a transição do Cenomaniano superior para o Cenomaniano médio.

Modelado Cársico

Várias são as formas de absorção presentes nas regiões calcárias como as superfícies rochosas sulcadas por fendas mais ou menos alargadas, os lapiás, as depressões fechadas com dimensões e formas variáveis, que podem ir desde as dolinas, com contornos simples e dimensão decamétrica a hectométrica, às uvalas, com contornos mais complexos e dimensão hectométrica, até aos poljes, com grandes extensões, de fundo plano parcialmente coberto por sedimentos e dimensão quilométrica. Os escassos vales presentes nas regiões cársicas podem ser vales cegos, isto é, terminam abruptamente em sumidouros. Se rios com caudal permanente conseguirem atravessar regiões cársicas, podem escavar profundas gargantas com vertentes verticais (vales em canhão), por vezes beneficiando do abatimento do teto de grutas intersectadas, Figura 1.

Lapiás (Granja dos Serrões) A

Figura 1 – Diagrama ilustrativo dos principais fenómenos que ocorrem nos terrenos cársicos. No processo de carsificação a água é o agente elementar, envolvendo os mecanismos de meteorização química, como ainda, nas dinâmicas de erosão por desagregação física das rochas de natureza calcária. A solubilidade da calcite (carbonato de cálcio), constituinte das formações carbonatadas, e a estrutura destas constituem as principais particularidades que determinam a evolução do modelado cársico superficial e em profundidade.

A água infiltrada nas fendas dos lapiás, nos sumidouros ou no fundo das dolinas e das uvalas, continua o seu processo de dissolução do maciço formando as grutas. As lapas e algares são designações para as grutas cuja entrada é, respetivamente, horizontal ou vertical. As grutas são constituídas por galerias, salas e poços, cuja complexidade aumenta como resultado da progressiva confluência das águas infiltradas, formando-se redes subterrâneas que podem atingir desenvolvimentos da ordem das dezenas de quilómetros. As águas infiltradas desembocam em exsurgências, em geral com grandes caudais de ponta, que podem estar ou não associadas a redes subterrâneas.

Os principais tipos de lapiás em que o processo dominante (associado à dissolução) se relaciona com o escoamento superficial da água, são os lapiás em sulcos ou regueiras (Rinnenkarren), os lapiás meandriformes (Meanderkarren), os lapiás em caneluras (Rillenkarren), os lapiás em sulcos suavizados (Hohlkarren) e os lapiás em sulcos arredondados (Rundkarren). Um segundo conjunto de formas lapiares é formado pela acção conjunta do escoamento e da dissolução, controlada por fatores estruturais. Dele fazem parte os lapiás em fendas ou ranhuras (Kluftkarren), os lapiás em mesa (Karrentisch ou Flachkarren), os corredores de dissolução (bogaz) e os lapiás em agulhas (Spitzkarren). É este segundo conjunto que melhor pode ser observado no Geossítio da Granja dos Serrões.

Lapiás em fendas ou ranhuras (Kluftkarren) resultam da presença de fraturas existentes nas rochas calcárias. Estas descontinuidades estruturais podem corresponder a falhas, diáclases, juntas de estratificação, etc. Desenvolvem-se predominantemente em superfícies rochosas horizontais ou sub-horizontais com exposição subaérea, embora possam evoluir sob cobertura parcial ou total, Foto 2.

Lapiás (Granja dos Serrões)-7

Foto 2Lapiás em fendas. Possuem dimensões variadas em função da progressão dos processos de dissolução, desde poucos centímetros a vários metros de profundidade e largura até 2 metros. Inicialmente as fendas apresentam formas em V, podendo, com o alargamento progressivo, mostrar formas em U ou de fundo plano (nuas ou parcialmente entulhadas por materiais finos e clastos calcários).

Lapiás em mesa (Karrentisch ou Flachkarren) –  constituem lapiás em fendas que se desenvolvem segundo o sistema de fracturação ortogonal, definindo, assim, blocos calcários com formas superficiais quadrangulares ou retangulares, Foto 3.

Lapiás (Granja dos Serrões)-8

Foto 3 – Lapiás em mesa. Conservam-se com mais facilidade em calcários maciços, sendo a dimensão das mesas função da densidade da fraturação.

Corredores de dissolução (bogaz) formam-se pela abertura progressiva das fendas por dissolução. Em casos particulares podem corresponder também ao abatimento do teto de condutas cársicas (normalmente fósseis), situadas próximo da superfície topográfica. A grande dimensão destes lapiás (largura e profundidade superior a 2 m) constitui a sua principal característica, sendo conhecidos por megalapiás, Foto 4.

Lapiás (Granja dos Serrões)-10

Foto 4Bogaz. Possuem grandes dimensões (largura e profundidade superior a 2m) e apresentam o fundo plano normalmente coberto por materiais diversos propícios ao desenvolvimento da vegetação.

Lapiás em agulhas (Spitzkarren) são característicos pelas suas formas aguçadas e rendilhadas, desenvolvem-se em calcários intensamente fraturados, Foto 5.

Lapiás (Granja dos Serrões)

Foto 5Lapiás em agulhas.  A sua génese é controlada pela tectónica e pela litologia, pois desenvolvem-se em calcários intensamente fracturados, ao longo das juntas de estratificação de camadas com pendor muito forte e em rochas com elevada percentagem de carbonatos.

A morfologia cársica na Granja dos Serrões e em outros afloramentos na região de Sintra é facilmente detetável e bastante variada, destacando-se tanto à superfície as diversas formas exocársicas. As formas cársicas que se observam à superfície diferem desde os lapiás de diáclases, ou lapiás em fendas ou ranhuras (Kluftkarren), que se apresentam como sulcos retilíneos e entrecruzados com uma profundidade e largura relativamente reduzida, resultado do alargamento das diáclases por dissolução, onde no fundo destes sulcos se depositaram materiais argilosos, constituindo o sedimento residual (terra rossa), permitindo o desenvolvimento de bolsas de vegetação espontânea.

Referências:

ALMEIDA, C. A.; MENDONÇA, J. J. L.; JESUS, M. R.; GOMES, A. J. (2000). Sistemas Aquíferos de Portugal Continental. Centro de Geologia da Universidade de Lisboa e Instituto da Água, Lisboa. 337 pp

CRISPIM, J. A. (2010). Aspectos relevantes do património cársico da Orla Ocidental. Actas do VIII Congresso Nacional de Geologia, e-Terra Volume 18 – n.º 4. Braga. 1 – 4.

CRISPIM, J. A.; ALMEIDA, C.; FERREIRA, P.; DIAS, N.; RAMOS, P. (2001). Parecer sobre a Susceptibilidade Hidrogeológica e Geomorfológica do Vale da Ribeira do Mogo (Alcobaça). Centro de Geologia da Universidade de Lisboa, Lisboa. 24 pp.

DERRUAU, M. (1988). Précis de Géomorphologie. 7ème édition Masson, Paris. 533 pp.

DERRUAU, M. (1990). Les Formes du Relief Terrestre – Notions de géomorphologie. 5
ème édition Masson, Paris. 115 pp.

 

 

 

 

Estuário do Douro

Nas últimas semanas de janeiro de 2020 o rio Douro apareceu com um tom fortemente castanho. Esta cor está relacionada com os materiais sólidos acumulados nas albufeiras da bacia hidrográfica. Habitualmente as barragens não efetuam descargas sucessivas de água, pelo que os materiais sólidos são acumulados nas albufeiras e assim não se tornam visíveis nas povoações mais a jusante do Douro, Foto 1.

Rio Douro AS1

Foto 1 -Na maior parte dos estuários existe uma zona onde os sedimentos finos em suspensão estão muito concentrados – o corpo lodoso). Este núcleo de sedimentos vasosos em suspensão resulta da floculação das argilas em contacto com as águas salinas que circulam para montante ou para jusante de acordo com as marés.

O rio Douro nasce na serra de Urbion (Cordilheira Ibérica), a cerca de 1.700 m de altitude. Ao longo do seu curso de 927 km (o terceiro maior entre os rios da Península Ibérica, depois do Tejo e do Ebro) até à foz no Oceano Atlântico, junto à cidade do Porto, atravessa o território espanhol numa extensão de 597 km e serve de fronteira ao longo de 122 km, sendo os últimos 208 km percorridos em Portugal. A bacia hidrográfica do rio Douro tem uma área total de 97.603 km2 , dos quais 18.643 km2 em Portugal (19% do total) e 78.960 km2 em Espanha (81%), ocupando o primeiro lugar em área entre as bacias dos maiores rios peninsulares. O rio Douro é o único rio português que conserva, até à foz, as suas escarpadas vertentes de canhão, sem que, ao contrário dos outros rios portugueses, forme um estuário amplo e pouco profundo quando chega ao litoral, Foto 2.

Rio Douro AS

Foto 2 -O Rio Douro drena a maior bacia hidrográfica da Península Ibérica. Os 97 600 Km2 de bacia cobrem cerca de 17 % da Península, dos quais 20 % em Portugal e 80 % em Espanha. O rio desagua no Oceano Atlântico, entre as cidades de Porto e Vila Nova de Gaia. Na bacia do Rio Douro existem mais de 50 grandes aproveitamentos hidroeléctricos dispostos ao longo do seu curso principal e efluentes, o último dos quais situa-se a 21,6 km da barra (Crestuma-Lever), tendo entrado em funcionamento em 1985.

Geoconversando sobre o Rio Douro

A topografia de uma região, o clima e a força da gravidade, são as principais condicionantes do trajeto dos cursos de água. Eles tendem sempre a partir da montanha atingir o mar ou um lago interior.

O Norte de Portugal estrutura-se no Maciço Ibérico (MI), uma unidade morfo-tectónica da Península Ibérica caracterizada por rochas metassedimentares  proterozoicas e paleozoicas e abundantes granitoides afetados pela orogenia Varisca e Alpina. O Maciço Ibérico ocupa o setor centro-ocidental da Península Ibérica, constituindo o seu núcleo mais antigo e rígido. Desde a orogenia varisca tem sofrido erosão, gerando, em setores como o NE de Portugal, um relevo pouco  acentuado, designada por Meseta. A desnudação envolveu uma sucessão de ciclos de erosão e meteorização, que deram origem a superfícies de aplanamento e níveis embutidos. Devido às diferenças de resistência à meteorização e erosão do soco varisco, desenvolveu-se no MI um relevo do tipo apalachiano, caracterizado por cristas quartzíticas com orientação NW-SE, que se destacam das amplas superfícies desenvolvidas em granitoides, xistos e metagrauvaques. Durante o Cenozoico desenvolveram-se sobre o Maciço  Ibérico drenagens fluviais, quer para ocidente quer para oriente (Bacia do Douro) e das quais é possível observar testemunhos que permitem a reconstituição da evolução dos modelos aluviais. No Plistocénico, a rede hidrográfica desenvolveu um progressivo encaixe, particularmente profundo no vale do Douro. Durante esta etapa de incisão a evolução dos vales fluviais foi controlado pelos fatores tectónicos, litológicos, eustáticos e climáticos.

Estuário do Douro

Nas margens do estuário desenvolveram-se três concelhos ribeirinhos (Porto, Vila Nova de Gaia e Gondomar), que exercem uma grande pressão antropogénica sobre o ecossistema. Para além de recetor de efluentes tratados e não tratados, o estuário é também utilizado para actividades de lazer (banhos, pesca desportiva, desportos náuticos, etc.) e fins comerciais (pesca profissional, navegação fluvial de turismo, extracção de inertes e navegação entre rio e mar).

O estuário situa-se entre a barra e a barragem de Crestuma-Lever, onde o rio corre num vale encaixado e somente a 2,9 km da barra ocorre o alargamento das margens, atingindo a largura máxima de 1300 m. Com cerca de 22 km de comprimento apresenta uma propagação da maré limitada a montante pela barragem de Crestuma. A penetração salina depende do facto de o caudal do rio não ser contínuo, só sendo atingida a barragem em condições de caudal excecionalmente baixo, ou nulo, e perante marés de elevada amplitude. Descargas elevadas (superiores a 690 m3/s) fazem com que o estuário seja integralmente composto por água doce, independentemente da maré.

As águas do Douro provocam a erosão das margens escarpadas e por vezes urbanizadas que atravessam, e arrastam aluviões que se vão depositar ao longo da costa, ajudando a formar as praias arenosas. A construção de barragens reduziu o fornecimento sedimentar para a costa, estimando-se que atualmente as barragens sejam responsáveis pela retenção de mais de 80% dos volumes de areias. Esta redução associa-se não só ao efeito de retenção sedimentar nas albufeiras, mas também à regularização das velocidades, resultante da atenuação das cheias.

As duas forças essenciais em ação nos estuários são as correntes fluvial e das marés. A importância da corrente fluvial depende, como é evidente, do seu caudal e da sua velocidade. Esta corrente é contrariada pela força da maré enchente. De forma oposta, a maré de vazante vai potenciar a força da corrente. No máximo da maré alta, o nível do mar é mais elevado que o nível da água no rio. Daí a penetração da água do mar ao longo do rio, ou enchente (com formação de uma cunha salina). Pelo contrário, no máximo de maré baixa, o nível da água é bastante mais alto no rio que no mar, porque à água do rio se juntou a água marinha que nele penetrou durante a enchente, originando uma descarga, durante a vazante, que pode atingir velocidades elevadas.

As cheias no estuário do Douro

Quer durante a maré baixa quer durante a maré alta não há corrente alguma e a água está praticamente parada. Este facto tem importantes consequências em termos de sedimentação, já que a ausência de corrente durante a maré alta vai produzir a deposição de sedimentos transportados em suspensão ou resultantes da floculação de argilas em contacto com as águas marinhas ricas em iões. Se numa situação de cheia coincidirem marés altas vivas e uma sobre-elevação meteorológica do tipo storm surge, o rio não consegue escoar a água que transporta. Esta vai-se acumulando, fazendo subir o respetivo nível no estuário, originando cheias. Esse fenómeno pode ser particularmente intenso em rios que se mantenham encaixados até perto da foz, porque num vale estreito a cheia tem tendência a subir mais rapidamente, como é o caso do rio Douro.

Cabedelo – entre o estuário e o atlântico

A restinga é uma grande formação arenosa que separa o estuário do Douro do oceano, situada na margem Esquerda (a Sul) do estuário do rio Douro e que se formou por ação das correntes litorais, Foto 3.

Cabedelo

Foto 3 – Vista do Cabedelo a partir da Praia de Lavadores (Gaia). A construção dos molhes do Douro, produziu efeitos na hidrodinâmica do rio Douro, na evolução da sua restinga, designada Cabedelo, que no curto prazo diminuiu os efeitos das cheias no rio Douro e melhorou a navegabilidade da sua Barra.

Para além das variações cíclicas, sazonais de área, volume e forma, fruto dos elevados caudais fluviais, da ondulação e da ação do vento, a restinga sofreu alterações de longo prazo, com uma tendência clara para o recuo da restinga para montante do Rio Douro. Desde meados do séc. XX que era notório um progressivo recuo do Cabedelo para o interior do estuário, motivado pela diminuição da frequência e intensidade das cheias do  rio, pela diminuição do transporte de sedimentos e pela extração de areia no estuário. Este fenómeno levanta problemas de segurança para as populações ribeirinhas de Gaia e Porto, já que o Cabedelo as defende das investidas do mar durante as tempestades. A total destruição, por ação do Homem, da flora que fixava as dunas do Cabedelo contribuiu, também, para a sua instabilidade. Desde a construção do molhe Norte do Porto de Leixões (1960), diminuiu o transporte de areia ao longo da costa, de Norte para Sul. Por sua vez, com a construção em 1980 sucessivas barragens, tendo sido a última barragem do Douro (Crestuma/Lever) construída nos anos 80, a alimentação do Cabedelo com as areias transportadas pelo rio diminuiu drasticamente Por ação do homem, com a construção dos molhes na foz do rio Douro (2004-2009) a restinga deixou de sofrer tantas variações, tornando mais estável a sua forma, tendo vindo a gradualmente aumentar quer a sua área quer o seu volume.

Estuário e biodiversidade

Aos estuários chegam os nutrientes e a matéria orgânica que os rios transportam. Por isso os ecossistemas estuarinos são dos mais produtivos do Planeta. Foi para aproveitar essa produtividade, nomeadamente a grande riqueza em peixe (sável, lampreia, enguia, etc.) e em bivalves (berbigão, por exemplo) que desde tempos imemoriais o homem se fixou junto aos estuários. Os estuários têm ainda, uma função importantíssima na manutenção dos recursos piscícolas, já que funcionam como verdadeiras “maternidades”. É nos estuários, que muitos peixes desovam e se desenvolvem nas primeiras fases de vida, antes de se aventurarem nas águas mais profundas e agitadas do oceano. A  pesca costeira depende em grande parte dos estuários, rias e lagoas do litoral. O estuário está no encontro de dois ecossistemas diferentes: um de água doce (o rio) e outro de água salgada, o ecossistema marinho. Sujeito à influência das marés, as águas do estuário vão variando o seu grau de salinidade e a sua profundidade. Os aluviões que o rio arrasta sedimentam em grande quantidade nas águas calmas do estuário, formando bancos de areia que cobrem e descobrem com as marés. Uma formação típica dos estuários são os sapais, formações aluvionares periodicamente alagadas pela água salgada e ocupadas por vegetação halofítica, como o da Baía de São Paio.

A criação da Reserva Natural Local do Estuário do Douro, teve como objetivo de proteger aves e a paisagem local. A reserva serve de refúgio a aves migradoras, como a garça-real e o corvo-marinho, de nidificação a limícolas, como o peneireiro. A reserva desempenha também um papel de maternidade para espécies piscícolas de importância comercial, como a solha e enguia, ou ambiental, como os góbios, integrando ainda um sapal, populações de bivalves e diversa vegetação dunar.

As areias intertidais absorvem o excesso de nutrientes oriundos de montante, funcionando como estações de depuração da água estuarina, retendo também os lodos com metais pesados e outros poluentes. A reserva A Reserva Natural Local do Estuário do Douro pode ser classificada como um ecossistema de rara diversidade, tendo em maio de 2012 passado a integrar a Rede Nacional de Áreas Protegidas. Os limites da reserva são coincidentes com os limites da Baía de São Paio, abrangendo parte da restinga.

Glossário

Cartas náuticas – inicialmente em papel agora digitais, registam de forma precisa a localização dos perigos e das ajudas à navegação, permitindo definir de acordo com o calado as melhores rotas para uma navegação segura. No entanto, é fundamental relacionar demais condicionantes, como sejam, os fatores atmosféricos (ex.: vento), o estado do mar (ex.: correntes, agitação marítima), as variações da maré (ex.: restrições calado em navegação de canais estreitos, no acesso aos portos, realização de manobras, o cálculo da carga dos navios e da velocidade de navegação dos navios), as oscilações registadas pelos sensores de movimento do navio (velocidade de navegação, alterações do regime das máquinas dos motores, as oscilações na linha de água, inclinação horizontal e vertical).

Estuário –  corpo de água costeiro semi-fechado que se estende até ao limite efetivo da influência da maré, em que no seu interior penetra água salgada proveniente de uma ou mais conexões livres com o mar aberto, ou outro qualquer corpo de água salino costeiro, sendo significativamente diluído pela água doce proveniente da drenagem continental e, consegue sustentar espécies biológicas eurihalinas durante todo ou parte do seu ciclo de vida.

Hidrografia é a ciência que estuda e descreve as características físicas dos corpos de água, inclui, nomeadamente, a batimetria, a forma e as características da linha de costa, as características de marés, correntes e ondas, e as propriedades físicas e químicas da própria coluna de água, bem como a sua evolução e a previsão das suas alterações ao longo do tempo.

Referências

Veloso-Gomes, F., S. Sena (2003). Zonas inundáveis pelo rio Douro na área de intervenção do programa Polis em Vila Nova de Gaia. Relatório técnico, Instituto de Hidráulica e Recursos Hídricos – IHRH, 53.

Veloso-Gomes, F., F. Taveira-Pinto, G.M. Paredes (2009). Estudo da evolução da fisiografia da restinga do Rio Douro desde 2002. Quartas Jornadas de Hidráulica, Recursos Hídricos e Ambiente, FEUP, 10.

Veloso-Gomes, F. (2010). Contributos para o Plano de Ordenamento do Estuário do Douro. Quintas Jornadas de Hidráulica, Recursos Hídricos e Ambiente, FEUP, 7. Vieira, M., A. Bordalo (2000). The Douro estuary (Portugal): a mesotidal salt wedge. Oceanologica Acta, 23(5), 585-594.

 

 

Estuário do Lima e as Ínsuas

O rio Lima nasce no monte Talariño, a uma altitude de 975 metros, na Serra de São Mamede, na província de Ourense em Espanha. Entra em Portugal nas proximidades de Lindoso e desagua em Viana do Castelo, apresentando uma extensão total de cerca de 108 km, dos quais 67 km em território português.

Rio Lima ideal

A bacia do rio Lima apresenta uma forma alongada e é limitada a norte pela bacia hidrográfica do rio Minho, a leste pela do rio Douro e a sul pelas bacias dos rios Cávado e Âncora. Tem uma superfície de aproximadamente 2450 km2 . A altitude média da bacia é de 447 m, sendo a Serra da Peneda e a Serra Amarela os setores mais elevados, respetivamente com 1416 m e 1361 m. O clima da região deste rio resulta da sua posição geográfica e proximidade do Atlântico e é caracterizado como sendo do tipo marítimo.

Os estuários são, vulgarmente, reconhecidos como áreas de transição, onde a água doce se mistura com a água salgada. São, igualmente, conhecidos pela sua grande importância biológica, devido às condições que oferecem relativamente ao abrigo e/ou proteção da ação das ondas, pela sua alta produtividade, como local de refugio à ação dos predadores e como local de maternidade para inúmeras espécies. Do ponto de vista geológico, os estuários são estruturas temporárias das zonas costeiras, porque a sua existência está sujeita à subida e descida do nível do mar ou a fenómenos de subsidência de origem tectónica.

Ínsuas

No estuário, o rio fica mais largo e com uma inclinação muito reduzida, propiciando a formação de depósitos sedimentares tanto no leito como nas suas margens. Assim, formam-se ínsuas e margens muito extensas, que rapidamente são dominadas por vegetação herbácea, criando uma série de praias fluviais até à zona de Viana do Castelo. Devido a estas características, as zonas de leito de cheia do rio são zonas com uma cota muito próxima das margens e com uma grande extensão que, na ocorrência de grandes vazões, são facilmente inundadas, chegando a aumentar em duas vezes a largura do rio, Foto 1.

Lima 2

Foto 1 – São visíveis, ao longo do canal, pequenas ínsuasbarras fluviais longitudinais relacionadas com o degelo da última glaciação – e zonas húmidas com vegetação herbácea típica de sapal, pelo que se trata de um local com significativo valor ecológico. Observam-se, ainda, as diversas superfícies de aplanamento, algumas das quais relacionadas com a fraturação alpina.

No que diz respeito à zona da foz em Viana do Castelo, esta varia de 800 m, perto da ponte Eiffel, até 300 m, entre o porto antigo e o novo. Existe esta variação de larguras devido à presença do porto marítimo de maiores dimensões para conseguir dar resposta a maiores embarcações. Assim, o porto passou da margem norte para a margem sul, estreitando ainda mais o rio. Consequentemente, e com a necessidade de garantir a entrada e saída das embarcações, existem duas obras marítimas de grandes dimensões que protegem a entrada da foz das fortes ondulações provenientes do mar. Neste percurso o canal do rio é estreito e possui uma profundidade média de 10 m, havendo uma sistemática remoção de inertes por parte do porto de Viana do Castelo para manter as condições de navegabilidade do canal.

Glossário 

Estuário –  corpo de água costeiro semi-fechado que se estende até ao limite efetivo da influência da maré, em que no seu interior penetra água salgada proveniente de uma ou mais conexões livres com o mar aberto, ou outro qualquer corpo de água salino costeiro, sendo significativamente diluído pela água doce proveniente da drenagem continental e, consegue sustentar espécies biológicas eurihalinas durante todo ou parte do seu ciclo de vida.

Referências:

https://www.researchgate.net/publication/316649965_Analise_hidrodinamica_do_estuario_do_rio_Lima_Portugal_a_partir_de_simulacao_numerica

Site no WordPress.com.

EM CIMA ↑