Praia de São Bernardino – viagens na Bacia Lusitaniana.

A Bacia Lusitaniana é uma bacia de natureza sedimentar localizada no bordo oeste da Península Ibérica. O início da deposição sedimentar deu-se durante o Triássico (27-201 Ma) e estendeu-se até ao Cretácico Superior (100 – 66 Ma), sendo a maioria dos sedimentos de idade Jurássica. Estes sedimentos estão particularmente bem representados na região de Peniche (Foto 1), exibindo uma excelente exposição subaérea de sedimentos carbonatados e detríticos ao longo do seu litoral

Foto 1 – Arenitos grosseiros, depositados em ambiente fluvial durante o Jurássico Superior. Nestes arenitos os grãos tiveram origem em zonas emersas, tendo sido transportadas em direção à foz desses rios. No seio destes sedimentos é possível observar grãos feldspáticos rosados, semelhantes aos feldspatos presentes no granitos paleozoicos encontrados na Berlenga.

Nas arribas a Sul da Praia de São Bernardino, vemos também os canais de areia amarelada e as argilas avermelhadas ou acinzentadas das planícies de inundação dos rios do Jurássico Superior (Foto 2).

Foto 2 – Estratos de Argilitos de Arenitos apresentando fragmentos de carvão. Deposição em ambiente fluvial durante a fragmentação da Pangea durante o Mesozoico.

A partir da Praia de São Bernardino, em direção a Sul, a sedimentação passa a ser claramente de cariz continental, sendo considerada o início da Formação da Lourinhã. Esta Formação da Lourinhã, datada do Jurássico Superior (cerca de 152 milhões de anos) apresenta estratos formados em ambiente fluvial, por antigos rios tipo meandriforme. O acarreio sedimentar destes cursos de água foi essencialmente composto por areias e argilas, originando a formação de arenitos e argilitos. O cariz sedimentar fluvial de toda a sequência e o desenvolvimento das condições ideias para a fossilização, conduziu a que atualmente sejam frequentemente encontrados restos de vertebrados fósseis, assim como, restos de outros organismos terrestres. Entre os vários achados fósseis, destaca-se várias descobertas de fósseis de dinossauros, como elementos ósseos e pegadas.

Areias e arenitos

Nas rochas detríticas os sedimentos apresentam-se soltos, constituindo rochas não consolidadas (rochas detríticas não consolidadas), ou estar ligadas por um cimento (resultante da precipitação), formando rochas consolidadas (rochas detríticas consolidadas).

Como a granulosidade (tamanho do grão) dos materiais é variável, e dada a importância das suas dimensões na caracterização destas rochas sedimentares, foi necessário estabelecer sistemas de classificação dos sedimentos detríticos de acordo com as dimensões que apresentam, Foto 1.

Praia

Foto 1 – Os materiais arrastados pelo vento podem vir a formar depósitos eólicos. Há duas categorias de materiais particularmente sensíveis à acção do vento: as poeiras e as areias. As areias siliciosas (ricas em quartzo) são abundantes no litoral marinho, nos desertos, e por vezes, nas estepes. O vento, ao soprar, modela essas extensões arenosas e dá origem a construções a que se dá o nome de dunas. As dunas tanto podem formar-se na proximidade das praias – dunas litorais – como nas regiões desérticas, em pleno continente – dunas continentais.

Rochas Areníticas

O termo areias refere-se a rochas não consolidadas de composição mineralógica muito variável. Existem areias calcárias (constituídas por grão de calcite), areias quartzosas (constituídas por grãos de quartzo) e areias negras (constituídas por minerais ricos em ferro, ferromagnesianas). São normalmente classificadas de acordo com o agente de transporte (fluvial, marinho, eólico e glaciar) e com duração do transporte.

Quando as areias são cimentadas formam-se os arenitos ou grés, que são rochas detríticas consolidadas, Foto 2.

Arenito (Praia da Falésia)

Foto 2 – Arenitos da Praia da Falésia (Algarve). As rochas sedimentares detríticas têm origem na acumulação de sedimentos. Os sedimentos como areias, resultam da desagregação das rochas preexistentes. O processo de compactação dos sedimentos e de cimentação e, por vezes, de aparecimento de novos minerais denomina-se diagénese.

A compactação de areias envolve  diminuição de volume devido ao peso dos sedimentos, à redução dos espaços vazios e à perda de água. Após ocorrer a compactação pode ocorrer a precipitação de substâncias químicas dissolvidas na água dos poros entre os sedimentos, formando um cimento natural que diminui a porosidade das rochas. Este processo denomina-se  cimentação. Os arenitos são areias consolidadas (compactadas e cimentadas) por um cimento natural.

Álbum de Fotos sobre Rochas Detríticas pode ser consultado aqui.

Grés de Eirol

A Bacia Lusitaniana é uma bacia sedimentar que se desenvolveu na Margem Ocidental Ibérica durante parte do Mesozoico, e a sua dinâmica enquadra-se no contexto da fragmentação da Pangeia, mais especificamente da abertura do Atlântico Norte.

Caracteriza-se como uma bacia distensiva, pertencente a uma margem continental do tipo atlântico de rifte não vulcânica.

O mais antigo registo sedimentar corresponde ao início da diferenciação de uma bacia sedimentar, marcando uma primeira fase de rifting e antecendendo a posterior abertura do Atlântico, com início no Triássico superior. Dois afloramentos visitados na Bacia de Aveiro (Foto 1) permitem compreender este início da abertura na orla ocidental da Península Ibérica.

Carta geológica

Foto 1 – Carta geológica (resumo) da Bacia de Aveiro. De este para oeste estratos cada vez mais recentes. Os Grés de Eirol de idade triássica representados a roxo contactam discordantemente com rochas do Paleozoico (Cadeia Varisca).

A primeira fase distensiva, que se inicia no Triássico superior, precedendo o aparecimento do Atlântico central durante o Jurássico e a separação das placas americana e africana, provocou o aparecimento de fossas tectónicas. Estas depressões foram controladas por basculamento de blocos ao longo de falhas normais resultantes de um sistema de “gabrens” condicionou a sedimentação inicial com depósitos denominados por sedimentos clásticos aluviais, que interdigitam com depósitos margosos e evaporíticos (Foto 2).

Arenito de Eirol (Falha Normal Esquema)

Foto 2 – Falha normal a afetar os Grés de Eirol. A falha é posterior à diagénese destas rochas detríticas (Princípio da interseção)

Grés de Eirol

A natureza dos materiais terrígenos dos arenitos vermelhos do Reciano permite relacioná-los com o desmantelamento das rochas da Cadeia Varisca (Paleozoica).

Estas rochas designadas por “Grés de Eirol” apresentam uma profunda alteração ferralítica, indicando um ambiente continental, com um clima quente e húmido, evoluindo para semi-árido e com a deposição a ocorrer numa plataforma litoral. São as formações mais antigas e a sua deposição correu discordantemente sobre as formações do Paleozoico com as quais por vezes contactam por falha (Foto 3).

Arenito de Eirol (esquema)

Foto 3 – Contacto discordante das rochas do Paleozoico inferior com os Grés de Eirol de idade Mesozoica.

Nota: Na carta geológica de Aveiro (que à semelhança de tantas outras devia ser rectificada) que aponta para o contacto com o Triássico o CXG (legendada na figura como Paleozóico inferior), trata-se muito provavelmente da Unidade de Arada do Terreno Finisterra, portanto do Proterozóico.

Estes arenitos vermelhos do Triássico superior (Reciano) são micáceos, por vezes com gesso e hematite, muito compactos, com conglomerados poligénicos na base, a que se sobrepõem bancadas areníticas com calhaus mal rolados, tornando-se para o topo, mais finos, argilosos, por vezes com cores menos carregadas e com estratificação mais regular (Foto 4). Designados na região por Grés de Eirol correspondem aos “Grés de Silves” da Bacia Algarvia.

Arenito de Eirol-4

Foto 4 – Grés de Eirol com níveis conglomeráticos.

Sobre as rochas sedimentares detríticas

Neste tipo de rochas os sedimentos podem apresentar-se soltos, constituindo rochas não consolidadas, ou então estar ligados por um cimento (resultante da precipitação), formando rochas consolidadas.

Nas rochas sedimentares detríticas, os detritos ou clastos podem ou não estar ligados por um ciemento. Para além desta característica , este tipo de rochas é caracterizado pelo tamanho dos grãos, pela distribuição granulométrica dos clastos e pela forma dos clastos.

Como a granularidade dos materiais é variável e dada a importância das suas dimensões na caracterização destas rochas sedimentares, foi necessário estabelecer sistemas de classificação dos sedimentos detríticos de acordo com as dimensões que apresentam. O critério utilizado nestes sistemas de classificação é, desta forma, predominantemente textural, constituindo escalas granulométricas, das quais a mais utilizada é a de Wentworth.

A fácies de um estrato sedimentar é dada pelo conjunto de características litológicas desse estrato e pelo seu conteúdo em fósseis. A fácies dos estratos reflete o ambiente sedimentar que esteve presente aquando da sua formação. Os vários tipos de fácies que correspondem a diferentes ambientes de sedimentação podem ser continentais, de transição ou marinhos.

A fácies estratigráfica permite conhecer e interpretar os ambientes do passado, ou paleoambientes, por comparação com os ambientes atuais que dão origem a uma fácies semelhante.

O álbum de fotos do Grés de Eirol pode sem consultado em : https://flic.kr/s/aHsmdkqjew

Fonte consultadas: http://ria.ua.pt/handle/10773/4386

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