Origens – Parte I (Éden Africano)

Conjunto de 3 posts sobre a grande jornada do clado africano dos hominoides. Nesta primeira parte alguns conceitos de biologia evolutiva importantes e a história do nosso primeiro registo no nosso ramo evolutivo.

A biologia moderna está fortemente apoiada no conceito da evolução das espécies, e entende-se que cada ser vivo compartilha ancestrais em maior ou menor grau com os demais seres vivos. Uma forma encontrada para mostrar estas relações entre os seres vivos são representações gráficas denominadas “cladogramas” ou “árvores filogenéticas”. Os cladogramas correspondem a hipóteses sobre a evolução de grupos de organismos, e seu uso, além de permitir trabalhar o conceito de ancestralidade comum.

Figura 1 – A análise filogenética resulta de uma hipótese de relações de parentesco expressa por um cladograma. O cladograma pode ser dividido em : A) Raiz (ramo ancestral de uma análise) ; B) Nós (localizados na divisão de um ramo em dois ou mais. Representam entidades hipotéticas); C) Ramos (representam cada linhagem evolutiva) e D) Terminais (grupos que estão a ser analisados).

De acordo com a metodologia da sistemática filogenética (escola criada pelo etomólogo alemão Willi Henning) um carácter é uma conjetura de homologia (no sentido evolutivo) e o sua consequente confirmação (ou não) é feita através da árvore filogenética.

Microevolução e macroevolução

A expressão microevolução (evolução à escala micro) refere-se às mudanças que ocorrem no interior das espécies, ou seja, entre as populações que a compõem. Tem a ver com a vida de uma espécie (decorre do ponto D – terminal, Foto 1, na árvore filogenética). A expressão macroevolução (evolução à escala macro) é usada pelos paleontólogos e refere-se à história evolutiva das linhagem, como os ruminantes, primatas, etc (árvore filogenética da Figura 1). Esta evolução conta-se por milhões de anos e não por gerações.

Origens da Humanidade

As alterações verificadas no clima da Terra ao longo do tempo estão relacionadas com a origem e evolução do Homem, além de terem criado condições para a sua migração para toda o planeta. Ao longo dos últimos séculos têm sido descobertas pistas que permitem uma imagem inacabada desta origem e evolução do Homem. Vou fazer uma viagem resumida nesta imagem tendo presente à partida as noções de filogenia, micro e macroevolução e outros conceitos que vou explorar à media que for explorando esta imagem da origem humana.

No Deserto do Afar

A bacia do Afar é onde está neste momento a ocorrer os estádios precoces do ciclo de Wilson que correspondem à chamada fase de rifte intracontinental. A dinâmica do interior da Terra nesta região tem levado a um processo de divergência – Rifte do Leste Africano. Nesta região instável da litosfera, os vulcões, os sismos e a lenta acumulação de sedimentos convergiram entre si para enterrar as ossadas e, muito mais tarde, devolveram-nas às superfície sob a forma de fósseis.

Em 2009 os investigadores do projeto Middle Awash, anunciaram ao mundo um achado: a descoberta do esqueleto de um membro da família humana com 4,4 Ma num local denominado Aramis, a cerca de trinta quilómetros a norte do lago Yardi. Os primeiros fósseis atribuídos à nossa linhagem têm entre 7 Ma, quando muito, e um pouco menos de 4,5 Ma. Vieram na Etiópia, no Quénia e no Chade, em locais que eram florestas tropicais e que hoje são terrenos áridos.

Aos vestígios fósseis descritos, os paleoantropólogos chamaram de «ardipitecos», porque os esqueletos, porque o esqueleto mais completo encontrado, que recebeu o nome de Ardi, é de uma fêmea da espécie Ardipithecus ramidus.

Percebe-se por este esqueleto que os ardipitecos tinham uma vida passada nas árvores, com braços muito compridos (mais do que as pernas), e muito fortes. Os dentes, comparáveis aos dos chimpanzés em tamanho e em espessura do esmalte, indicam um nicho ecológico que não seria muito diferente. Os ardipitecos raramente desceriam ao solo e faziam-no menos que os gorilas e ainda menos que os chimpanzés. Eram, segundo o paleontólogo Juan Luís Arsuaga, habitantes do dossel arbóreo.

O registo da linhagem humana, a sua macroevolução, iniciada em África recua até cerca de 7 Ma, Figura 2.

Figura 2 – A Família Humana. Árvore filogenética (Science, 2009). Além de Ardi, os estratos existentes no Afar representam outros 14 períodos cronológicos diferentes e já proporcionaram a descoberta de hominídeos, desde formas ainda mais antigas e primitivas do que o Ardipithecus ramidus até representantes primitivos do Homo sapiens.

Em 1978 foram descobertas pegadas fossilizadas em Laetoli (Tanzânia), que evidenciam marcas de bipedismo. Encontram-se preservadas num nível de cinzas vulcânicas, provenientes do vulcão Sadiman, a 20 km de distância. As cinzas foram consolidadas por água proveniente da chuva, que não destruiu as pegadas. Este nível foi descoberto, posteriormente por mais cinza. Datações com K/Ar permitiram concluir que o nível se formou há 3,6 Ma. durante o pliocénico, Figura 3.

Figura 3 – O primeiro passo na nossa linha evolutiva, Ardipithecus, com uma parte do seu pé no passado e outra no futuro, caninos já reduzidos, habitando as florestas foi substituído por uma segunda etapa, Australopithecus, ainda com cérebros pequenos mas totalmente bípedes, já não limitados à floresta e com um território que geograficamente se prolongava do Rifte Africano na região da Etiópia até ao Transval, na África do Sul.

Os primeiros bípedes

Os primeiros dos nossos que não oferecem dúvidas sobre a sua filiação são os Australopitecos que viveram desde há mais 4 Ma e até há menos de 2 Ma, numa parte considerável de África. O fóssil mais famoso de um australopiteco é um esqueleto batizado Lucy, uma fêmea de Australopithecus aferensis que viveu onde é hoje a Etiópia. Um outro esqueleto descoberto, também de fêmea, muito mais completo, encontrado na África do Sul e batizado Little Foot.

Não restam dúvidas de que os australopitecos são da nossa própria linhagem, porque a postura era completamente bípede e, no essencial, igual à postura humana atual, com todas as adaptações que tornam possível este tipo e locomoção.

Passavam uma parte considerável do seu tempo nas copas das  árvores, onde consumiriam frutas maduras e estariam a salvo do perigos. Parte da dieta era também obtida em meios menos florestais e mais abertos. Tudo isto faz pensar que o habitat dos australopitecos tenha sido o das florestas fragmentadas, ou seja, um mosaico ecológico. Os antepassados dos gorilas e chimpanzés, permaneceram nas florestas tropicais e contínuas, sem grandes clareiras, da cintura tropical africana, onde os seus descendentes continuam a viver.

A especiação consiste na divisão de uma espécie em duas ou mais espécies, não muito diferentes entre si, que ecologicamente ocupam subzonas adaptativas próximas, nichos muito semelhantes.

Os genomas dos chimpanzés, gorilas e seres humanos, os membros do clado africano dos hominoides, são muito semelhantes, de tal modo que o último antepassado comum (Ponto A – Raiz) não deve estar muito afastado no tempo. Viveu em África há 10 Ma, ou até menos, mas no Mioceno. A linha dos gorilas afastou-se primeiro, mas quase imediatamente separaram-se os chimpanzés e os seres humanos. Há, aproximadamente, 2 milhões de anos, os chimpanzés dividiram-se em duas espécies separadas pelo Rio Congo: os chimpanzés comuns e bonobos.

O último antepassado comum de gorilas, chimpanzés e humanos não era nada parecido com nenhum deles. A partir do último antepassado comum, temos mudado muito (evoluído) nas três linhas.      

Fontes Consultadas

Vida a Grande História – Juan Luis Arsuaga (Temas e Debates, Círculo Leitores)

https://www.sciencemag.org/news/2020/04/lucy-s-baby-suggests-famed-human-ancestor-had-primitive-brain

Sapal de Castro Marim

O estuário do Guadiana é um estuário longo e estreito, do tipo de um rio em vale encaixado. A largura média do estuário na zona da embocadura é cerca de 2 km, diminuindo progressivamente para montante, sendo a largura média da ordem de 1 km e a profundidade média da ordem dos 3 metros. Possui regiões de sapal tanto na margem Portuguesa (sapal de Castro Marim), como na margem espanhola (sapal de Ayamonte). O limite de penetração da água salgada no interior do estuário depende do caudal do rio, sendo que, no verão o limite de propagação situa-se na região de Alcoutim (a 40 km da foz) podendo os efeitos das marés serem sentidos em Mértola (a 65 km da foz). As estruturas reguladoras do rio aí existentes impedem a sua propagação mais para montante.

A maioria da região do sapal de Castro Marim na costa da margem Portuguesa e o de Ayamonte na margem Espanhola são zonas protegidas com estatutos de reservas naturais. O sapal de Castro Marim compreende uma área formada por sapais, salinas e esteiros, com zonas secas de xistos, grés vermelho, areias e arenitos.

Criada em 1975, foi a primeira Reserva Natural a ser classificada em Portugal continental e constitui um habitat importante para diversos seres vivos, incluindo para aves aquáticas que aqui encontram condições de nidificação e invernada, Foto 1.

Foto 1 – Reserva Natural do Sapal de Castro Marim e Vila Real de Santo António.

As zonas húmidas abrangem cerca de 66% da área total da reserva. Aqui, alguns sapais integram Áreas de Proteção Total, entre eles sapais primários e sedimentos intermareais adjacentes, com o objetivo de prezar a tranquilidade das atividades diárias das aves e de modo a manter o mínimo de perturbação nos processos naturais.

A salicultura e a agricultura são as duas atividades mais importantes presentes na reserva, com cerca de 60% da área desta. Nas salinas podemos encontrar produções tradicionais, com o sal a ser recolhido manualmente, e produções industriais com maquinaria introduzida. Após a crise neste sector, muitas das salinas foram abandonadas ou convertidas para aquaculturas.

Flora do sapal de Castro Marim.

Designam-se por halófitas as plantas que necessitam, para o seu desenvolvimento normal, de cloreto de sódio, carbonato de cálcio, sulfato de magnésio ou sulfato de sódio e podem suportar soluções salinas muito concentradas.

Confundem-se frequentemente os termos halófita e halófila.

Algumas halófitas podem sobreviver normalmente em solos não salgados logo seu halofilismo é facultativo e só vivem nestes meios porque, na luta competitiva travada com outras plantas em solos normais, são remetida para os salgados, como que por exclusão.

As halófilas, pelo contrário, só se desenvolvem completamente na presença de fortes concentrações salinas, isto é, são halófitas obrigatórias.

As espécies do sapal, apesar de habitarem áreas com Os sapais de Portugal são colonizados por espécies halófitas, Foto 2, sendo as mais comuns a Halimione portulacoides, Sarcocornia fruticosa, Spartina marítima e Juncus maritimus.

Foto 2 – As espécies vegetais do sapal, apesar de habitarem áreas com grande disponibilidade de água, o facto desta ser salgada impõem inúmeras adaptações aos vegetais. Estas plantas podem imobilizar ou mobilizar metais nos sedimentos da rizosfera, consoante a excreção de oxigénio das raízes para o sedimento, influenciando assim os processos redox e ainda alterando o pH . Conseguem suportar períodos em que ficam submersas por várias horas e suportar elevada salinidade. Permitem que se depositem mais sedimentos, que são estabilizados pelas suas raízes e onde é produzida e acumulada mais matéria orgânica. Neste exemplo de um Sapal mediterrânico, observa-se a influência simultânea da submersão pelas águas da maré, da salinidade, da profundidade do lençol freático e da composição florística. A fronteira entre os sapais mediterrânicos e os sapais eurossiberianos verifica-se na lagoa de Óbidos.

As plantas que constituem o sapa de Castro Marim tem um carácter anfíbio, embora um dos fatores que maior influência tem na distribuição das espécies que podem aqui ser encontradas é a submersão bidiária.

O que são os Sapais?

Os sapais são ambientes específicos de estuários, deltas, ou lagos, e são zonas de transição entre ecossistemas marinhos e terrestres. São caracterizados por serem plataformas de sedimentos finos (por deposição fluvial ou por erosão e transporte de ondas) e de matéria orgânica. São alagados consoante as marés e colonizados por plantas, que apresentam características que lhes permitem desenvolver-se neste tipo de ambientes.

Os sapais podem ser definidos como áreas entre-marés de sedimentos finos transportados por água e estabilizados por vegetação). Os sapais são formações de vegetação tolerante à salinidade da água dos ambientes em que se inserem. Fazem parte de sistemas estuarinos, costeiros e por vezes lagunares. Para a sua formação e manutenção, os sapais dependem dos processos e inputs destes sistemas maiores onde estão inseridos. Podem ser considerados como um “banco de sedimentos” dos estuários ou baías. São constituídos, geologicamente, por lamas e partículas finas de areia. Pela sua fragilidade, os sapais são dos ecossistemas mais ameaçados do mundo, em consequência das pressões antropológicas que lhes são exercidas.

Flora nos sapais

As espécies dos sapais, apesar de habitarem áreas com grande disponibilidade de água, o facto desta ser hipertónica, impões inúmeras adaptações aos vegetais. Só algumas plantas desenvolveram para suportar estas condições extremas adaptações do seu metabolismo tais como o desenvolvimento da suculência, absorção em alto grau de certos iões, capacidade de acumulação, em certas partes da planta, de grandes quantidades de sais provenientes do seu metabolismo, de depois eliminam juntamente com os órgãos que os armazenavam e existência de glândulas de sal responsável pelo conteúdo mineral de muitos halófitos.

Para a criação de um sapal, por processos naturais, alguns fatores têm de ocorrer.

Primeiro que tudo, a sua localização e ocorrência não é aleatória, já que estes ocorrem inseridos noutros sistemas de maior envergadura e mais complexos: estuários, baías ou conjuntos lagunares costeiros, onde existe influência de água doce.

A morfologia destes sistemas tem um papel fundamental para a criação de sapais: todos têm potenciais zonas abrigadas das correntes das marés e também da ação da ondulação.

Os sedimentos finos em suspensão, de origem marinha e de origem fluvial, são transportados pelas correntes de maré até aos diversos pontos nestes sistemas, mas é onde e quando o conjunto de energias envolvidas neste processo é mais baixa que os sedimentos podem repousar e fixar-se. Ou seja, os sedimentos fixam-se nas zonas intertidais e quando a energia da maré é mais baixa, altura em que a água se move mais lentamente, – na preia-mar. Estes sedimentos, pela permanente atividade das marés, estratificam-se consoante os seus pesos e volumes, onde, por último, os lodos se depositam apenas quando a energia da água é próxima de nula.

Ao longo do tempo, estes depósitos de sedimentos aumentam e dão origem a condições para alguma vegetação se fixar e desenvolver, começando assim a colonizar «terra nova». Com o crescimento e fixação das plantas aumenta a capacidade de atenuação da velocidade das marés, e consequentemente, a deposição de sedimentos também irá aumentar, assim como a adição de matéria orgânica.

Enquanto o sapal se desenvolve, a deposição e adição de nova matéria vai elevar o nível da nova superfície em relação ao do mar, diminuindo assim a frequência e a duração das submersões pelas marés. Assim, possibilita a colonização de plantas menos tolerantes à salinidade e à submersão, criando comunidades mais complexas à medida que o sapal se desenvolve.

Os sedimentos que vão sendo depositados nestas zonas são, por norma, muito finos e uma das suas propriedades é a grande capacidade de adsorção. Ora, devido a esta condição, o sapal consegue reter elementos poluentes que se encontrem em suspensão ou diluídos na água, com a ajuda das plantas, neutralizando-os. Ou seja, o conjunto de atuantes num sapal consegue filtrar, reter e degradar matéria. Diversos estudos demonstraram que os sapais tem a capacidade de reter compostos considerados poluentes, entre eles, herbicidas, pesticidas e metais pesados.

Com a génese de um sapal, é criado um ecossistema único e especial, onde desde o mais pequeno ser até predadores encontram refúgio, alimento e também um local de ovação/nidificação. Não só as espécies animais endémicas se refugiam nestes locais, mas também é um destino privilegiado de aves migratórias, provenientes do resto da Europa e do Norte de África. Em termos florísticos, os sapais criam um habitat tão específico que apenas certas plantas, geograficamente restritas, tolerantes à salinidade e à submersão conseguem formar aqui comunidades.

Os sapais são igualmente limitadores naturais de cheias e de dinâmicas erosivas, sendo a primeira linha de defesa contra a força das ondas e marés, já que têm a capacidade de dissipação da energia das ondas. Esta capacidade é refletida na diminuição da altura das ondas.

Com a presença de sapais, os custos para a manutenção das frentes costeiras e ribeirinhas diminuem substancialmente, devido às estruturas de contenção não precisarem de ser tão robustas. Esta proteção contra as ondas não é tão eficaz contra condições extremas de ondulação. Contudo, o valor destes sapais como uma proteção funcional, natural e potencialmente sustentável tem sido meritoriamente reconhecido.

Fontes Consultadas

Adam, P. (1990). Saltmarsh Ecology (1ª edição). UK: Cambridge University Press, Cambridge

Antunes Dias, A. & Marques, J., 1999. Estuários. Estuário do Tejo: o seu Valor e um pouco da sua História. Alcochete: Reserva Natural do Estuário do Tejo.

Microscópio

O olho humano tem um limite de resolução de cerca de 0,2mm, ou seja, não tem a capacidade de distinguir dois pontos que distam entre si menos de 0,2mm. Para conseguir ultrapassar esta barreira, o Homem criou equipamentos de ampliação de imagem, nomeadamente lupas, microscópios e telescópios. Os microscópios têm que produzir uma imagem ampliada da amostra, para poder visualizar os detalhes pequenos que a amostra possua com o olho humano.

O microscópio foi aperfeiçoado no século XVII pelo físico britânico Robert Hooke. Algumas das observações feitas por Hooke foram posteriormente referidas pelo cientista holandês Anton van Leeuwenhoek, que no final do mesmo século já tinha observado células sanguíneas, bactérias e estruturas dentro das células animais utilizando um microscópio de luz visível. Durante o século XVIII, várias invenções tecnológicas e melhoramentos no design dos microscópios fizeram com que ficassem bastante populares em diversas áreas: biologia, zoologia, geologia, entre outras.

No inicio do século XX descobriu-se que, usando eletrões acelerados em vácuo, estes se comportariam do mesmo modo que a luz (fotões). E também se descobriu que usando campos elétricos e magnéticos, era possível controlar a trajetória dos eletrões, da mesma maneira que as lentes de vidro controlam a luz. Essa descoberta resultou na invenção do microscópio eletrónico. O primeiro microscópio eletrónico foi, assim, criado em 1931 por Ernst Ruska e Max Knoll na universidade de Berlim, Foto 1.

Foto 1  – A microscopia eletrónica utiliza outra fonte de radiação que não a luz (fotões). Neste caso utiliza-se um feixe de eletrões que irá interagir com a amostra. Normalmente são utilizados os Microscópio Eletrónico de Varrimento e o Microscópio Eletrónico de Transmissão. O primeiro  permite a visualização da superfície das amostras, criando uma aparência de tridimensionalidade. Contudo, não possui uma resolução tão elevada como a do microscópio eletrónico de transmissão. O modo de funcionamento do Microscópio Eletrónico de Varrimento é muito semelhante ao do microscópio de luz convencional, tendo como grande diferença o facto de a fonte de radiação serem eletrões e não luz (fotões). Nas décadas de 1950 e 1960 foram comercializados os primeiros microscópios eletrónicos de transmissão. As diversas lentes – condensador, objetiva e projetora – atuavam no feixe de eletrões e produziam a imagem ampliada da amostra que transmitia parte do feixe.

Microscópio de Luz (MOC)

Existem diversos tipos de microscópios de luz, dependendo do modo como o feixe de luz atinge a amostra. O microscópio pode ser usado em modo de transmissão, que é o que acontece no microscópio de luz convencional, ou pode ser em modo de reflexão como o microscópio de luz de dissecção, em que a imagem é ampliada pelas lentes usando a reflexão da luz na superfície da amostra, Foto 2 .

Foto 2 – O microscópio de luz / Microscópio Ótico Composto é um instrumento que usa a luz visível para produzir uma imagem ampliada da amostra que é depois visualizada num sistema de imagem. A amostra é colocada antes do ponto de foco da lente objetiva e a imagem é depois ampliada pela lente ocular, para um plano conveniente para o utilizador.

Existem dois componentes importantes na formação das imagens: a lente objetiva que recolhe a luz difratada pela amostra e que forma uma imagem real, ampliada e invertida perto da ocular e o condensador que foca o feixe de luz numa pequena área da amostra para que só essa área possa ser analisada.

Para a visualização de amostras neste equipamento, estas têm de ser oticamente transparentes, como é uma secção fina de tecido biológico. Usando diferentes colorações é possível revelar certos componentes da célula, pois as colorações (ou seja, conjuntos de químicos que absorvem a luz em diferentes comprimentos de onda) têm afinidade para zonas especificas da amostra.

A coloração utilizada rotineiramente na microscopia de luz para células eucarióticas é a Hematoxilina-Eosina, pois é uma coloração topográfica, ou seja, distingue o núcleo do citoplasma das células. Os núcleos ficam corados de roxo pela Hematoxilina e o citoplasma fica corado de rosa devido à Eosina.  

Microscopia crioeletrónica

A técnica de microscopia crioeletrónica (cryo-EM) é uma modalidade de imagiologia essencial para o estudo das estruturas de moléculas biológicas e complexos macromoleculares no seu ambiente fisiológico.

Vem acrescentar melhorias às técnicas de microscopia eletrónica convencional sendo pois, uma variante de microscopia eletrónica de transmissão a temperaturas criogénicas (muito baixas), e daí a designação. A cryo-EM veio simplificar e melhorar a obtenção da imagem de biomoléculas, tendo vindo a contribuir para a compreensão dos processos biológicos que ocorrem dentro das células, anteriormente de impossível visualização.

Referências:

M. Slater, «A method for the examination of the same cell using light, scanning and transmission electron microscopy.», Biotech. Histochem., vol. 1, n. 2, pp. 63–8, Jan. 1991. [15] P. J. Goodhew, F. J. Humphreys, e R. Beanland, «Electron microscopy and analysis», Ann. Phys. (N. Y)., vol. 54, p. 258, 2001.

https://tecnico.ulisboa.pt/pt/noticias/criomicroscopia-electronica-vence-premio-nobel-da-quimica-2017/

Biodiversidade

A enorme variedade de formas de vida, que se manifesta através de diferenças como, por exemplo, o tipo de nutrição, de respiração, revestimento do corpo, modo de vida ou tamanho chamamos, biodiversidade.

Foto – Árvore morta numa floresta temperada. Um ecossistema é um sistema dinâmico formado pela comunidade, pelo biótopo e pelas inter-relações que se estabelecem entre eles. Os ecossistemas podem ser aquáticos ou terrestres. O conjunto de organismos vivos (meio biótico) de um ecossistema que estabelecem relações de interdependência entre si forma uma comunidade biótica (biocenose) e a área geográfica (meio abiótico) onde vive uma comunidade designa-se biótopo. Dentro desta comunidade no tronco de árvore existem diferentes populações. Cada população é constituída por grupos de organismos pertencentes à mesma espécie que interagem entre si e que ocupam uma determinada área geográfica num dado período de tempo. O local no biótopo onde vive uma determinada espécie é o seu habitat. A dimensão do habitat varia de acordo com a espécie considerada.

A biodiversidade inclui o material genético e os diferentes níveis de organização da vida, desde os seres vivos mais simples e as relações que se estabelecem entre si e com o meio até às organizações, mais complexas, como os ecossistemas.  

Ostracodos – indicadores estratigráficos e ambientais

Os ostracodos, do grego ostrákon, que significa carapaça, são microcrustáceos com carapaça bivalve de natureza carbonatada que envolve todo o corpo e os respetivos apêndices.

A principal característica dos crustáceos é a presença de 2 pares de antenas. Exibem no seu corpo apêndices com formas e funções variadas. O sistema digestivo é completo com boca e ânus. O sistema circulatório é aberto ou lacunar, com hemocianina como pigmento respiratório. As troca gasosas são feitas através de brânquias. A excreção é feita pelas glândulas verdes e o sistema nervoso é constituído por uma cadeia ganglionar ventral.

Os ostracodos possuem diferentes estilos alimentares, podendo ser filtradores, escavadores, detritívoros, herbívoros ou carnívoros predadores. Relativamente aos modos de vida, segundo os ostracodos podem ser: bentónicos, planctónicos, podem viver em ou entre plantas e colónias de animais, podem ser parasitas ou viver em comensalismo com outros crustáceos e equinodermes.

A carapaça adulta tem em média um comprimento entre 0,5 e 8 mm, por ser de natureza carbonatada, facto que permite o seu registo fóssil. O seu registo fóssil é extenso, existindo desde o início do Ordovícico até à atualidade, em sedimentos marinhos e não marinhos, fornecendo uma fonte para perceber a evolução dos dados ecológicos.

Os ostracodos são encontrados em todos os ambientes aquáticos e semiterrestres e algumas espécies apresentam que várias espécies mostram grande tolerância a flutuações de temperatura e salinidade e desenvolvem-se em condições extremas, como fontes termais.

Como grande parte dos géneros de ostracodos do Mesozoico não possuem representantes atuais, as interpretações paleoecológicas são feitas por comparações com géneros recentes semelhantes, com base no contorno e ornamentação da carapaça, presença de bolsa incubadora, sulcos e outros elementos morfológicos. Através de variações visíveis de tamanho, ornamentação e ocorrência ou desaparecimento de espécies, é possível obter dados úteis sobre a ecologia, hidrologia e química da água em ambientes onde outros organismos não o possibilitam.

A diversidade entre espécies é definida pela sensibilidade dos ostracodos a fatores ambientais como a salinidade, temperatura, profundidade, alimento disponível, substrato e oxigénio dissolvido. A carapaça dos ostracodos é uma fonte de calcite viável para análise geoquímica através da partição de elementos-traço (por exemplo, O2 e C) e fracionamento de isótopos estáveis (por exemplo, Mg, Ca e Sr).

Em ambientes margino-marinhos, os parâmetros físicos e químicos da água podem sofrer alterações fortes numa escala de tempo curta e o grau de variabilidade destes parâmetros pode mudar dependendo da estação do ano e clima local. Como resposta a essa variabilidade ocorre a presença ou desaparecimento de espécies de ostracodos ao longo do tempo.

Os ostracodos são bons indicadores estratigráficos e ambientais sendo utilizados como proxies na reconstrução de alterações ambientais. A ocorrência dominante de determinada espécie numa associação, e a composição dessa associação, combinando a geoquímica da carapaça e os dados obtidos por outros microfósseis permite obter uma ideia das fases transgressivas e regressivas, a variação do nível do mar e a influência entre águas marinhas e água doce em ambientes margino-marinhos.

A principal vantagem dos ostracodos em relação a outros grupos de microfósseis reside no facto de estarem presentes em todos os tipos de ambientes aquáticos. Por isso podem ser usados na determinação de biozonas estratigráficas em todos os tipos de fácies, são especialmente úteis em depósitos lacustres e salobros por serem dos poucos organismos presentes.

Como crustáceos, o seu crescimento é feito através de mudas sucessivas da carapaça. Um espécime de ostracodo passa em média por 8 mudas, até atingir o último estádio ontogénico, a forma adulta.

A reprodução nos ostracodos ocorre maioritariamente de forma sexuada, podendo em algumas espécies de água doce, onde não foram identificados machos nas associações, fazer-se por partenogénese, como é o caso da espécie Callistocythere littoralis.

Para que a reprodução ocorra e que seja garantida a diversidade das espécies é necessário que o meio seja oxigenado, que a temperatura e a espessura da coluna de água tenham um determinado valor específico e que estejam disponíveis alimentos e nutrientes suficientes. Caso estes fatores não coexistam, a diversidade será restrita.

Figura 1 A classe Ostracoda é hoje dividida em duas subclasses, Myodocopa e Podocopa. A primeira divide-se nas ordens Myococopida e Halocyprida que contêm géneros exclusivos de ambiente marinho. A segunda está dividida em 3 ordens, Platycopida, Podocopida e Paleocopida. A ordem Platycopida contém espécies exclusivamente marinhas. A ordem Podocopida é a mais diversa e ampla e contém espécies que habitam ambientes marinhos, salobros e de água doce. A ordem Paleocopida contém sobretudo espécies de ambientes marinhos superficiais.

Fontes consultadas:

Horne, D. J.; Cohen, A. & Martens, K. (2002). Taxonomy, Morphology and Biology of Quaternary and Living Ostracoda, in Holmes, J. A. & Chivas, A. R. (Eds). The Ostracoda: Applications in Quaternary Research. American Geophysical Union, Geophysical Monograph, 131, pp. 5-36

Site no WordPress.com.

EM CIMA ↑