Cabo Carvoeiro e Pentacrinus penichensis

A Bacia Lusitaniana localiza-se na margem ocidental de Portugal, tendo sido formada durante uma fase de rifting, no final do Triássico, antes da abertura do Atlântico.

Com cerca de 5 km de espessura máxima de sedimentos, estende-se por cerca de 320 km na direção norte-sul e 180 km na direção este-oeste.

Durante a Era Mesozoica, ocorreram nesta bacia quatro grandes etapas de deposição que possuem uma estreita correspondência com as fases de estruturação do Atlântico. Em várias praias da costa ocidental é possível estudar diferentes sucessões estratigráficas desta deposição. Este conjunto de posts tiveram o seu ponto de partida mais a sul na Praia de São Bernardino.  Depois da passagem na Praia da Consolação e as barreiras de coral, este post tem o Cabo Carvoeiro e a zona dos Remédios como local de paragem.

Nesta área, pode observar-se uma importante sequência de estratos de calcários do Jurássico, bem como as formas de erosão marinha e subaérea, Foto 1.

Foto 1 – Em resultado da exposição à superfície, os calcários sofreram carsificação, formando um campo de lapiás na área do cabo Carvoeiro. Em resultado da exposição destas rochas aos agentes de geodinâmica externa produziu-se uma paisagem muito característica designada por  modelado cársico. As fissuras alargadas por reações de carbonatação deram origem a este relevo sulcado que aqui pode ser observado.  

Em alguns estratos é possível observar fósseis de Pentacrinus penichensis, um pequeno equinoderme que vivia nos mares jurássicos do jovem atlântico, Foto 2. Cada ambiente de sedimentação, é caracterizado pela existência de condições físico-químicas específicas e uma atividade biológica própria. A informação obtida a partir do estudo dos biomas atuais permite inferir acerca das condições em ambientes sedimentares antigos (paleoambientes). Todo este conjunto de características, designadas por “fácies”, permitem inferir as condições de formação destas rochas localizadas na Península de Peniche. Além da datação dos estratos com base nos fósseis de idade, estes permitem também obter informações das condições existentes no passado.  

Foto 2 – Os sedimentos carbonatados e os equinodermes da espécie Pentacrinus penichensis, depositaram-se num oceano pouco profundo, com temperaturas superiores às atuais e mais próximo dos trópicos.  

As estrelas-do-mar e a maioria dos outros grupos de equinodermes (do grego echin, coberto de espinhos, e derma, pele) são animais marinhos de movimento lento ou sésseis. Uma epiderme fina recobre um endoesqueleto de placas calcárias rígidas. A maioria dos equinodermos tem projeções pontiagudas do esqueleto e espinhos. Exclusivo dos equinodermes é o sistema vascular aquífero, uma rede de canais hidráulicos que se ramificam em extensões chamadas de pés ambulacrários que funcionam na locomoção e na alimentação Os equinodermes descendem de ancestrais bilateralmente simétricos, embora em um primeiro exame a maioria das espécies pareça ter uma forma radialmente simétrica. As partes internas e externas da maioria dos equinodermos adultos irradiam do centro, geralmente como cinco raios. Entretanto, as larvas dos equinodermes têm simetria bilateral. Além disto, a simetria dos equinodermos adultos não é verdadeiramente radial. Por exemplo, a abertura (madreporito) do sistema vascular aquífero de uma estrela-do-mar não é central, mas sim deslocada para um lado.

A interpretação das características das rochas que afloram nesta região permite obter informações acerca do ambiente durante o Jurássico no qual estas rochas se formaram.

Praia da Consolação e os recifes de coral

A Bacia Lusitaniana, localizada na margem ocidental da Península Ibérica formou-se no decurso da abertura do oceano Atlântico Norte. As litologias presentes resultaram de episódios de rifting alternados com períodos de estabilidade tectónica e consequentes variações de subsidência.

Localizada no litoral a sul de Peniche, a povoação de Praia da Consolação é um dos locais que apresenta condições de excelência para a observação de afloramentos da sucessão quase contínua para o Jurássico da referida bacia formada no início do Mesozoico.

Nas arribas costeiras desta praia as litologias da  Formação de Alcobaça afloram, representadas por uma unidade denominada de “grés, margas e calcários dolomíticos da Consolação” que abarca todo o período compreendido entre o final do Oxfordiano ao final do Kimeridgiano (Jurássico Superior), Foto 1.

Foto 1 – Nos níveis mais margosos ocorrem corais coloniais, gastrópodes, bivalves, ostraídeos, entre outos. Na base observa-se uma lumachela que terá servido de substrato para a implantação de corpos recifais, por sua vez cobertos por novo nível argiloso.

As lumachelas são rochas carbonatadas bioacumuladas essencialmente formadas por conchas de moluscos. No geral são formadas por conchas de moluscos (com predominância de bivalves), inteiras ou fraturadas e pouco cimentadas. O ambiente de deposição corresponde a águas pouco profundas próprias de ambientes neríticos. O nome tem origem italiana (lumachella).

Os recifes são proeminências ou não, de intensa atividade biológica e de grande resistência mecânica às vagas. Para a sua formação contribuem entre outros, os coraliários. Estas estruturas ocorrem em ambientes de águas pouco profundas (ambiente nerítico), responsável pela grande maioria de rochas carbonatadas.

Os corais da atualidade vivem como formas solitárias ou coloniais, geralmente formando simbioses com algas. Muitas espécies secretam um exoesqueleto (esqueleto externo) rígido de carbonato de cálcio. Cada geração de pólipos forma-se sobre os restos dos esqueletos da geração anterior, construindo “rochas” com formas características de suas espécies. Esses esqueletos são o que geralmente chamamos de coral. Os recifes de coral são para os mares tropicais o que as florestas pluviais são para as áreas terrestres tropicais: elas proporcionam habitat para muitas outras espécies.

A sucessão com níveis lumachélicos indica a existência de um ambiente lagunar que, devido à gradual subida do nível do mar, foi sendo ocupado por fauna resistente à salinidade salobra e com a continuação da subida permitiu o desenvolvimento de corais biohérmicos, em condições de salinidade e oxigenação normais. Nova descida promoveu o acarreio de argilas, as quais tornaram inviável a proliferação desses organismos.

Bibliografia consultada

Galopim, C., (2006). Geologia Sedimentar, Volume III – Rochas Sedimentares. Âncora Editora .

Praia de São Bernardino – viagens na Bacia Lusitaniana.

A Bacia Lusitaniana é uma bacia de natureza sedimentar localizada no bordo oeste da Península Ibérica. O início da deposição sedimentar deu-se durante o Triássico (27-201 Ma) e estendeu-se até ao Cretácico Superior (100 – 66 Ma), sendo a maioria dos sedimentos de idade Jurássica. Estes sedimentos estão particularmente bem representados na região de Peniche (Foto 1), exibindo uma excelente exposição subaérea de sedimentos carbonatados e detríticos ao longo do seu litoral

Foto 1 – Arenitos grosseiros, depositados em ambiente fluvial durante o Jurássico Superior. Nestes arenitos os grãos tiveram origem em zonas emersas, tendo sido transportadas em direção à foz desses rios. No seio destes sedimentos é possível observar grãos feldspáticos rosados, semelhantes aos feldspatos presentes no granitos paleozoicos encontrados na Berlenga.

Nas arribas a Sul da Praia de São Bernardino, vemos também os canais de areia amarelada e as argilas avermelhadas ou acinzentadas das planícies de inundação dos rios do Jurássico Superior (Foto 2).

Foto 2 – Estratos de Argilitos de Arenitos apresentando fragmentos de carvão. Deposição em ambiente fluvial durante a fragmentação da Pangea durante o Mesozoico.

A partir da Praia de São Bernardino, em direção a Sul, a sedimentação passa a ser claramente de cariz continental, sendo considerada o início da Formação da Lourinhã. Esta Formação da Lourinhã, datada do Jurássico Superior (cerca de 152 milhões de anos) apresenta estratos formados em ambiente fluvial, por antigos rios tipo meandriforme. O acarreio sedimentar destes cursos de água foi essencialmente composto por areias e argilas, originando a formação de arenitos e argilitos. O cariz sedimentar fluvial de toda a sequência e o desenvolvimento das condições ideias para a fossilização, conduziu a que atualmente sejam frequentemente encontrados restos de vertebrados fósseis, assim como, restos de outros organismos terrestres. Entre os vários achados fósseis, destaca-se várias descobertas de fósseis de dinossauros, como elementos ósseos e pegadas.

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